Em setembro de 1960, quando John Kennedy ainda tentava convencer eleitores americanos de que um católico podia ocupar a Casa Branca, nenhum presidenciável estrangeiro ousaria pousar em Washington para construir imagem às custas da política externa americana. Sessenta e seis anos depois, Flávio Bolsonaro fez exatamente isso — e a cronologia da viagem revela tanto sobre a estratégia quanto sobre o desespero que a motivou.

O senador embarcou para Washington na segunda-feira, 25 de maio, acompanhado por repórteres que registraram o embarque. Na terça, 26, reuniu-se com o presidente Donald Trump na Casa Branca — encontro descrito pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro como "simplesmente inédito", nas palavras dele no X. Na quarta, 27, a agenda seguiu no Departamento de Estado, onde o senador foi recebido por Christopher Landau, subsecretário de Estado e número dois da diplomacia americana, e por Darren Beattie, assessor sênior de Políticas para o Brasil.

O que Flávio levou para a mesa de Landau

A pauta do encontro com Landau foi divulgada pelo comunicador Paulo Figueiredo, aliado de Flávio e participante da reunião. Segundo ele, a conversa abordou "oportunidades de cooperação entre Brasil e Estados Unidos diante de uma eventual eleição do senador", além da "urgência da designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras". Flávio havia feito o mesmo pedido diretamente a Trump um dia antes, com o republicano respondendo que "analisaria o tema" — sem compromisso formal.

A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras pelos EUA permitiria congelamento de ativos, sanções financeiras, banimento de vistos e criminalização do apoio material a essas facções. O governo Lula rejeita a medida com o argumento de que a designação poderia abrir precedente para operações militares americanas em solo brasileiro. A decisão, porém, independe da concordância do Brasil — o que transforma o tema em combustível eleitoral para a oposição sem exigir qualquer contrapartida imediata.

O mesmo Landau que recebeu Flávio havia publicado horas antes, em sua conta no X, uma crítica direta à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, chamando-a de "provocativa e desnecessária" e classificando o ministro Alexandre de Moraes como "um violador de direitos humanos sancionado". A manifestação foi republicada pela embaixada americana no Brasil, elevando o tom do confronto diplomático.

O escândalo que transformou Washington em necessidade

A viagem não teria o mesmo peso simbólico se a campanha de Flávio estivesse em trajetória ascendente. O problema é que ela não está. A crise começou em 13 de maio, quando o The Intercept Brasil revelou mensagens e áudios entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. No conteúdo, Flávio pede R$ 134 milhões a Vorcaro — sendo R$ 61 milhões destinados à produtora — para financiar o filme Dark Horse, que homenageia Jair Bolsonaro.

A reação do pré-candidato do Novo, Romeu Zema, foi imediata e pública. O ex-governador de Minas gravou um vídeo chamando a conversa de "um tapa na cara dos brasileiros de bem" e afirmando que "não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa". Flávio respondeu dizendo que Zema "se precipitou" e que o mineiro não lhe deu "nem a oportunidade de falar o que era antes de partir para dentro de um estúdio". O senador tentou ligar para Zema, mas não teve retorno — e declarou, em entrevista à CNN Brasil, que a chapa com ele "fica inviável do jeito que está".

A turbulência interna no campo da direita foi descrita com precisão pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE) à coluna do SportNavo: "Paladinos da moralidade querem transformar o Novo em figurante, coadjuvante ou satélite do PL. Não podemos aceitar." Girão admitiu que há forte pressão de integrantes do PL e de uma ala do próprio Novo para que Zema recue das críticas.

Pesquisas, aliados e o que a viagem realmente moveu

O impacto nas pesquisas foi mensurável. Antes do escândalo do Banco Master, Flávio aparecia numericamente à frente de Lula nos cenários de segundo turno — dado confirmado tanto pelo Datafolha quanto pela Atlas/Intel. Após a revelação do áudio com Vorcaro, ambas as pesquisas apontaram queda nas intenções de voto, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Uma pesquisa Quaest ainda registrava Flávio com 42% contra 40% de Lula no segundo turno — empate técnico que sinaliza o quanto a margem de erro se estreitou.

A viagem a Washington funcionou como uma corrente de ar quente tentando dissipar uma tempestade que já havia formado olho. A aliança entre PL e Novo no Paraná, com as pré-candidaturas ao Senado de Deltan Dallagnol (Novo-PR) e Filipe Barros (PL-PR), permanece formalmente intacta — o diretório paranaense do Novo criticou publicamente o vídeo de Zema como "precipitado" e gerador de "ruídos desnecessários". Mas a fissura nacional entre os dois pré-candidatos é real e documentada.

  • Flávio pediu classificação do PCC e CV como terroristas a Trump e ao Departamento de Estado
  • Landau criticou a prisão de Jair Bolsonaro no mesmo dia em que recebeu Flávio
  • Escândalo do Banco Master derrubou Flávio nas pesquisas de primeiro e segundo turno
  • Chapa Flávio-Zema descrita pelo próprio senador como "inviável do jeito que está"

O próximo teste concreto para a campanha de Flávio é a convenção do PL, prevista para o segundo semestre, onde a definição do vice será o ponto de maior pressão. Com Zema fora do radar imediato e a crise do Banco Master ainda sem resolução judicial clara, a viagem a Washington entregou imagens e narrativa — mas os números nas pesquisas é que dirão se o movimento valeu o passaporte.