— Você ouviu o que o Abel falou do Flamengo?
— Ouvi. Mas ele tá errado, ou tá certo e não quer admitir que tá certo?
— Pior: ele tá certo. E é exatamente isso que incomoda.

Essa conversa aconteceu em bares do Rio e de São Paulo com pequenas variações de sotaque, mas com o mesmo peso. Abel Ferreira, técnico do Palmeiras há mais de cinco anos consecutivos — feito que nenhum treinador dos grandes clubes brasileiros repete desde Carlos Alberto Parreira na Seleção na metade dos anos 1990 — voltou a comparar seu clube com o maior rival nacional. E a declaração, dita em contexto de análise entre as duas instituições, não passou em branco.

O que Abel disse e o peso de cada palavra

O técnico português apontou que há no Palmeiras uma cultura de continuidade que, segundo ele, "não se vê no Flamengo". A frase, aparentemente técnica, carrega uma crítica estrutural: enquanto o Alviverde mantém um projeto de médio prazo com o mesmo comandante e a mesma identidade de jogo, o clube carioca oscila entre ciclos curtos, trocas de treinadores e reconstruções táticas frequentes. Desde 2019, quando Jorge Jesus chegou ao Maracanã e transformou o futebol do Flamengo radicalmente, o clube rubro-negro teve seis treinadores diferentes até 2026 — uma média de menos de um ano por profissional.

"Quando um clube troca de técnico a cada temporada, ele não tem projeto — tem expectativa. E expectativa não vence título, trabalho consistente vence", disse um comentarista esportivo de longa data em programa de rádio especializado, logo após a repercussão das declarações de Abel.

Abel, por sua vez, chegou ao Palmeiras em outubro de 2020 e desde então conquistou dois títulos da Copa Libertadores (2021 e 2022), dois Campeonatos Brasileiros e uma Copa do Brasil. Nenhum outro técnico do futebol brasileiro acumula tantos títulos de expressão continental em tão pouco tempo dentro do mesmo clube — e esse dado não é retórica, é registro histórico.

A história das trocas e o que ela revela sobre o modelo Flamengo

O Flamengo de 2026 é um clube de orçamento bilionário — o maior da América do Sul em receita, segundo o relatório Pluri de 2025 — mas que ainda busca um equilíbrio entre ambição imediata e construção de identidade. Jorge Jesus chegou em 2019, foi embora em 2020. Domènec Torrent durou seis meses. Renato Gaúcho teve duas passagens. Paulo Sousa foi demitido antes de completar um ano. A lista é longa e o padrão é claro: quando os resultados travam, o treinador sai.

No Palmeiras, o modelo é diferente. Abel passou por momentos de pressão — em 2021, após eliminações pontuais no Paulistão, chegou a ser questionado internamente — mas a diretoria presidida por Leila Pereira manteve o português. A aposta deu resultado: a Libertadores de 2021, conquistada no Uruguai por 2 a 1 sobre o Flamengo na prorrogação, é talvez o momento mais simbólico dessa diferença de filosofia. O título veio sob pressão, depois de uma temporada de críticas, e foi o argumento mais poderoso para a manutenção do projeto.

Historicamente, nos confrontos diretos entre Palmeiras e Flamengo pelo Brasileirão, o equilíbrio é notável: em 40 jogos disputados desde 2006 — início da era dos pontos corridos no formato atual — o Palmeiras venceu 14, o Flamengo venceu 15 e houve 11 empates. Não é um domínio de um lado. Mas nos últimos cinco anos, com Abel no comando, o Palmeiras tem 7 vitórias contra 4 do Flamengo nesses confrontos, com 3 empates.

Dois modelos, um mesmo patamar de exigência

Seria simplista reduzir a comparação a uma questão de técnico. O Flamengo tem infraestrutura, torcida, receita e elenco que poucos clubes do mundo podem rivalizar em termos absolutos. O que está em debate não é capacidade financeira — é filosofia de construção. Abel toca exatamente nesse ponto quando menciona o que "não se vê" no clube carioca: a paciência institucional para deixar um trabalho amadurecer.

O Flamengo de 2026 aposta em um técnico que já mostrou competência no cenário nacional, mas que ainda precisa provar consistência ao longo de uma temporada completa com o elenco rubro-negro. A pressão por título imediato — Copa Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil ao mesmo tempo — não deixa margem para curvas de aprendizado. Essa é a armadilha que Abel conhece bem porque já a viveu do outro lado: em 2021, ele mesmo estava no olho do furacão quando o Palmeiras foi eliminado pelo Defensa y Justicia na Recopa Sul-Americana.

O que Abel disse e o peso de cada palavra Abel aponta o que falta no Flamengo e
O que Abel disse e o peso de cada palavra Abel aponta o que falta no Flamengo e

A diferença é que, naquela época, o Palmeiras não demitiu. E o técnico português transformou a derrota em combustível para as duas Libertadores seguintes.

O impacto da frase e o que vem pela frente

Declarações de Abel sobre o Flamengo nunca são acidentais. O treinador tem consciência do peso das palavras e do efeito que elas produzem na mídia esportiva brasileira, onde a rivalidade Palmeiras-Flamengo movimenta audiência semana após semana. Ao apontar a continuidade como diferencial, ele simultaneamente elogia seu clube e instala uma pergunta incômoda na cabeça da torcida rubro-negra: por quanto tempo ainda o Flamengo vai operar nesse ciclo de altas expectativas e recomeços frequentes?

Palmeiras e Flamengo se encontram pela 12ª rodada do Brasileirão 2026 no Allianz Parque, em data ainda a ser confirmada pela CBF para a segunda quinzena de julho. Naquele jogo, a frase de Abel vai reaparecer nas arquibancadas — e o placar final será, como sempre, o argumento mais honesto da discussão.