— Cara, você viu que tem gente tentando cancelar o UFC na Casa Branca na Justiça?
— Sério? Por quê?
— Falam em corrupção, violação de lei federal, monumento histórico... A coisa ficou grande.

A cena acima se repetiu em bares por todo o Brasil nesta semana, e não é exagero dizer que o UFC Freedom 250 — programado para o gramado sul da Casa Branca no dia 13 de junho, com transmissão exclusiva pelo Paramount+ às 20h (horário de Brasília) — se tornou o evento mais judicializado da história das artes marciais mistas. Antes mesmo de o ring announcer Bruce Buffer abrir a boca, dois cidadãos americanos tentaram silenciá-lo com uma ação protocolada no tribunal federal do Distrito de Columbia.

WELCOME TO THE SUGAR SHOW!! #ufcwhitehouse

Os três golpes jurídicos contra o evento

A ativista Susan Douglas e Paul Romano, veterano da Guerra do Vietnã, são os autores do processo que classifica o UFC Casa Branca como um "esquema de corrupção" e uma "violação das leis federais" dos Estados Unidos. A peça judicial elenca três eixos principais de ilegalidade — e cada um deles tem peso técnico suficiente para, ao menos em tese, paralisar o evento via liminar.

O primeiro golpe mira as leis relativas aos parques federais americanos, que proíbem a realização de eventos esportivos nessas áreas, com exceções específicas que, segundo os autores, o card do Ultimate não preenche. O segundo atinge diretamente a estrutura física montada para o evento: uma arena temporária batizada de "A Garra", cuja construção no terreno da Casa Branca, alegam os autores, não recebeu autorização do Congresso americano. O terceiro golpe é financeiro — a possibilidade de que recursos públicos sejam utilizados para reparar eventuais danos nos jardins históricos da residência presidencial causados pela montagem do octógono e do público.

"O presidente está fazendo com que dois dos nossos mais queridos monumentos sirvam a uma empresa privada para que ele e seus aliados possam lucrar com isso. Estes monumentos pertencem a todos os americanos. Não para Dana White, para os patrocinadores ou Donald Trump", disse Susan Douglas em comunicado oficial que acompanha o processo.

A pesagem cerimonial, marcada para o Lincoln Memorial — onde fica a icônica estátua de Abraham Lincoln —, amplia geograficamente o alcance das acusações e adiciona uma camada simbólica ao conflito: um dos locais mais reverenciados da memória americana sendo usado como pano de fundo para promoção de um evento comercial privado.

Os três golpes jurídicos contra o evento Ação judicial ameaça o UFC na Casa Bran
Os três golpes jurídicos contra o evento Ação judicial ameaça o UFC na Casa Bran

A leitura dominante ignora o que os números revelam sobre o contexto político

A narrativa que circula nos bastidores do MMA trata a ação como obstáculo burocrático sem chance real de prosperar — um inconveniente que a máquina jurídica do governo Trump e da Zuffa LLC liquidará antes do primeiro prelim. Essa leitura tem base: liminares em casos desse tipo raramente são concedidas em prazo tão curto, e o histórico de Dana White como aliado próximo do presidente dos EUA desde a campanha eleitoral de 2016 sugere que o evento tem proteção política de alto nível.

Mas a contra-leitura dos dados é mais perturbadora do que parece. A ação cita explicitamente as ligações pessoais entre Trump e White como fator de preocupação — o que transforma a disputa jurídica em algo que vai além da regulação de parques federais. É como no boxe: quando um árbitro tem relação documentada com um dos lutadores, o resultado do combate passa a ser questionado independentemente do que aconteça dentro do ringue. A percepção de irregularidade contamina o produto.

O card em si é tecnicamente impecável: a luta principal unifica o cinturão peso-leve entre Ilia Topuria — campeão com zero defesas no peso-leve até aqui — e o interim champion Justin Gaethje, dois atletas com finish rate acima de 80% ao longo de suas carreiras. A co-luta principal promete definir um campeão interino no peso-pesado entre Ciryl Gane e Alex Pereira. A equipe de transmissão reúne quatro integrantes do Hall da Fama: Joe Rogan, Daniel Cormier, Michael Bisping e Chris Weidman, com Dominick Cruz completando o painel de análise. O produto esportivo não precisa do endosso presidencial para se sustentar — e esse é exatamente o ponto que enfraquece o argumento dos defensores do evento a qualquer custo.

A leitura dominante ignora o que os números revelam sobre o contexto político Aç
A leitura dominante ignora o que os números revelam sobre o contexto político Aç

O peso real da liminar e o que acontece se a Justiça agir

Douglas e Romano pediram também uma liminar para suspender os preparativos do evento até que o tribunal analise o mérito do caso. Até o fechamento desta análise, nenhuma decisão havia sido proferida. O prazo é curto — o evento está marcado para 13 de junho — e o tribunal federal do Distrito de Columbia teria que agir em questão de dias para que a medida tivesse efeito prático sobre a montagem de "A Garra" e a logística de público.

Se a liminar for concedida, o UFC enfrentaria um cenário sem precedentes: um evento completamente montado, com sete lutas confirmadas, equipe de transmissão definida e audiência global esperada, sem local para acontecer — já que uma mudança de venue em 72 horas exigiria logística equivalente à de uma operação militar. A analogia com a música é inevitável: seria o equivalente a cancelar um show do Rolling Stones na Casa Branca na véspera, depois de o palco já ter sido construído e os ingressos distribuídos.

Se a liminar for negada — o cenário mais provável dado o histórico judicial —, o evento acontece, mas o processo segue em paralelo. A questão sobre o uso de dinheiro público para reparos nos jardins, por exemplo, pode resultar em responsabilização posterior para a organização, criando precedente que afeta qualquer futuro evento do UFC em propriedades federais.

O tribunal federal do Distrito de Columbia tem até a manhã de 13 de junho para emitir qualquer decisão que altere o roteiro. Se nenhuma liminar sair até lá, Bruce Buffer anuncia a luta principal às 22h ET — e a discussão jurídica sobre corrupção e monumentos históricos migra para a fase de mérito, longe dos holofotes do octógono.

Se o juiz conceder a liminar e o evento for suspenso, a pergunta concreta é esta: o UFC teria condições reais de transferir o card para o Capital One Arena ou o FedEx Field dentro de 48 horas — e Dana White toparia manter Washington D.C. como sede mesmo sem a Casa Branca no cenário?