Terça-feira, 19 de maio de 2026. Enquanto Douglas Souza publicava nas redes sociais a sua despedida do Sada Cruzeiro — com fotos de medalhas, troféus e o VivaVôlei que recebeu tantas vezes no ginásio do Riacho —, a Confederação Brasileira de Voleibol divulgava a lista de 30 inscritos para a VNL masculina de 2026. O nome que não apareceu nela foi mais revelador do que qualquer nome que constasse: Alan, o oposto que acumulou pontos, MVPs e títulos ao longo de pelo menos dois ciclos olímpicos, ficou de fora.

O peso estatístico que Alan carregava na diagonal

Falar da ausência de Alan exige primeiro entender o que ele representava em números dentro do sistema ofensivo brasileiro. Nos ciclos recentes, o oposto figurou consistentemente entre os três maiores pontuadores da seleção em competições de nível A, com médias que superavam os 4,5 pontos por set em fases eliminatórias de VNL e campeonatos mundiais. Sua eficiência de ataque — calculada pela relação entre pontos conquistados e tentativas totais — raramente ficou abaixo dos 52% em jogos contra as principais seleções do ranking FIVB, como Polônia, França e Itália.

O oposto no vôlei masculino moderno não é apenas o segundo atacante da equipe — é o termômetro do volume ofensivo. Quando o levantador precisa de uma válvula de escape rápida sob pressão de bloqueio adversário, o oposto é o destino natural do passe. Alan cumpria esse papel com uma combinação de potência no saque e consistência no ataque por zona 2 que poucos atletas do circuito nacional conseguem reproduzir com a mesma regularidade.

Darlan e Oppenkoski diante de uma herança sem transição gradual

Darlan e Oppenkoski — os dois opostos convocados por Bernardinho para os treinos em Saquarema — chegam à posição com perfis distintos e, ao mesmo tempo, complementares. Darlan, mais experiente no circuito internacional, tem histórico de atuação em ligas europeias e conhece o ritmo de jogo das seleções de elite. Oppenkoski representa a aposta no potencial de longo prazo, com características físicas que chamam atenção no bloqueio e no ataque em velocidade.

O problema não é a qualidade individual de nenhum dos dois — é a ausência de rodagem conjunta com o grupo titular. A VNL 2026 começa sem que nenhum deles tenha acumulado, ao lado dos levantadores Bieler, Fernando Cachopa e Matheus Brasília, o volume de repetições que Alan havia construído ao longo de temporadas. Levantamento e oposto formam um binômio que depende de leitura mútua: o tempo de bola, a preferência por zona 1 ou zona 5, a decisão entre o ataque rápido e o tempo alto são combinações que se constroem em treino e se consolidam em jogo.

"Saio daqui um outro atleta: mais forte, mais cascudo e pronto para os próximos desafios", escreveu Douglas Souza ao se despedir do Sada Cruzeiro, em publicação no Instagram que coincidiu com o dia da divulgação da lista.

A frase de Douglas — dirigida ao clube mineiro — poderia, por ironia do calendário, resumir o momento coletivo da seleção: um grupo que encerra um ciclo e precisa mostrar maturidade em campo antes de ter acumulado experiência suficiente juntos.

O que o Brasil pode ganhar e o que precisa compensar na VNL

Bernardinho — técnico que conhece melhor do que ninguém os mecanismos de construção de elenco para competições de alto nível — não abre mão de critérios táticos ao montar uma lista. A ausência de Alan não é, necessariamente, punição ou descaso com o histórico do atleta. Pode refletir uma decisão estratégica de dar minutagem real a Darlan e Oppenkoski em ambiente competitivo, antes de uma possível revisão para o ciclo olímpico seguinte.

O que o Brasil perde é previsível e mensurável: o volume de pontos diretos na diagonal, a liderança de saque flutuante com alto índice de erros forçados e a experiência de quem já jogou sets decisivos contra Polônia e França em ambientes de pressão máxima. O que pode ganhar é menos óbvio, mas igualmente relevante — a possibilidade de descobrir se Darlan ou Oppenkoski têm condições de assumir a titularidade com consistência antes de uma competição em que não haja mais tempo para testes.

A lista ainda inclui atletas convidados para treinos, como Paulo, Léo Lukas, Robert e Samuel — nomes que ampliam o repertório de Bernardinho sem necessariamente garantir vaga no doze inicial. Lucarelli, ponteiro veterano, foi mantido na lista mesmo sem ter participado dos treinos até o momento da inscrição, o que sinaliza que o técnico preserva opções de experiência nos fundamentos de ponta.

A VNL masculina de 2026 começa com o Brasil precisando provar que o sistema funciona sem sua peça mais pontuadora na diagonal — e Darlan e Oppenkoski têm, juntos, poucas semanas de Saquarema para mostrar que a conta fecha.