Quando o grupo técnico da Fifa se reuniu para avaliar as primeiras rodadas da Copa do Mundo, a expectativa era de confirmar o pior. Quarenta e oito seleções, 104 partidas, sede em três países separados por até 4.500 quilômetros — o projeto parecia grande demais para funcionar. Não funcionou: funcionou além do esperado.

Neste domingo, 21 de junho, Gilberto Silva — pentacampeão em 2002 e membro do Grupo de Estudos Técnicos da Copa do Mundo — foi direto ao ponto em coletiva de imprensa.

"O que temos visto até agora é que a qualidade está lá. Isso é ótimo para o torneio até aqui."

O ex-volante integra um grupo de 11 especialistas coordenados por Arsène Wenger, chefe de desenvolvimento global do futebol na Fifa. O trabalho deles é assistir cada uma das 104 partidas e mapear tendências táticas. Não é opinião — é observação sistemática com método.

O que os números das primeiras rodadas revelam sobre equilíbrio

O ceticismo pré-Copa tinha fundamento histórico. Toda vez que um torneio cresce em número de participantes, a fase de grupos tende a gerar jogos desequilibrados nas últimas rodadas, com seleções eliminadas sem motivação real. O que se viu até aqui contradiz esse histórico.

A métrica que melhor traduz equilíbrio numa Copa não é a posse de bola — é o xG (expected goals), que calcula a probabilidade de um chute se converter em gol com base na posição, ângulo e pressão do marcador. Quando duas equipes terminam uma partida com xG próximos, o jogo foi disputado. Quando a diferença passa de 1.5, uma delas dominou de verdade.

Nas primeiras rodadas desta edição, registrou-se uma média de diferença de xG entre equipes significativamente menor do que em 2022, onde jogos como Espanha 7x0 Costa Rica distorciam os totais. As zebras — resultados que derrubam favoritos — aparecem com frequência acima da esperada exatamente porque as seleções de menor ranking chegaram mais bem preparadas taticamente.

  • xG médio por jogo nas primeiras 32 partidas desta Copa: acima de 2.3, indicando que ambas as equipes criaram chances reais.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): seleções de menor ranking estão pressionando mais alto. Um PPDA abaixo de 8 indica pressão intensa — vários times considerados "zebras" chegaram a registrar índices menores do que o dos favoritos.
  • Progressive passes (passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário): distribuídos de forma mais homogênea entre seleções do que em qualquer edição anterior, sugerindo que mais times chegam ao torneio com proposta ofensiva estruturada.

A leitura de Gilberto Silva confirma o que esses números apontam: a expansão não diluiu o produto — redistribuiu a competitividade.

A logística de 4.500 quilômetros e o impacto real no desempenho

A preocupação com a distância entre sedes não é cosmética. Canadá, México e Estados Unidos formam um território continental onde dois estádios podem estar mais distantes entre si do que Paris e Moscou. Seleções que jogam em Vancouver e precisam se deslocar para Miami em 72 horas enfrentam um desafio logístico sem precedente em Copas.

Do ponto de vista de dados, o impacto aparece nas defensive actions — o conjunto de interceptações, desarmes e bloqueios que uma equipe realiza por jogo. Quando esse número cai significativamente entre a primeira e a segunda partida de uma mesma seleção, é sinal de fadiga acumulada. Algumas equipes já apresentaram essa queda, mas o padrão não é generalizado.

A própria Fifa reconheceu a incerteza antes do torneio começar. Nas palavras de Gilberto Silva, o órgão estava "com o pé atrás" — uma admissão rara de que o formato foi uma aposta. A aposta, pelo menos até este ponto do torneio, está sendo recompensada.

O Grupo de Estudos Técnicos acompanha cada partida com foco em inovações táticas, não apenas resultados. A presença de seleções africanas e asiáticas com blocos defensivos bem organizados — usando linhas de pressão média com transições rápidas — tem gerado material novo para as análises de Wenger e sua equipe.

O que as próximas semanas vão definir sobre o legado desse formato

A fase de grupos ainda está em andamento. A grande prova do formato vem a seguir: os 16 avos de final, inéditos em Copas do Mundo, colocam 32 seleções numa fase eliminatória antes das oitavas. É aqui que o ceticismo vai encontrar ou ser definitivamente enterrado.

Se os 16 avos produzirem jogos abertos — com xA (expected assists, métrica que calcula a probabilidade de uma assistência gerar gol) elevados e baixo índice de jogos decididos nos acréscimos por times na retranca — o argumento qualitativo da Fifa se consolida. Se o formato gerar 16 partidas de bloqueio tático com seleções em busca de empate, a crítica volta com força.

O histórico imediato favorece o otimismo. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta fase de grupos, o número de gols por jogo e o índice de zebras superam as médias das últimas duas edições. Isso não acontece por acaso — acontece porque mais seleções chegaram com identidade tática real, não apenas para completar o quadro.

Gilberto Silva resumiu o que os dados mostram: a qualidade está lá. Os 16 avos de final, que começam nos próximos dias, vão confirmar se ela fica.