A câmera tremeu quando Brendan Allen postou o vídeo. Não de emoção — de convicção. O peso-médio americano olhou direto para a lente e mandou um recado aos fãs brasileiros: ele vai lutar pelo Brasil no UFC Vegas 118 neste sábado (6). Não é figura de linguagem. Allen é casado com uma brasileira, tem dois filhos nascidos no Brasil e carrega essa identidade com uma seriedade que poucos lutadores estrangeiros demonstram ao invocar o país.
A luta que du Plessis fugiu de fazer
Antes de falar sobre Edmen Shahbazyan, é preciso enfrentar o elefante no octógono. Allen não está neste co-main event por escolha. Ele estava escalado para brigar com Dricus du Plessis, ex-campeão dos médios, numa disputa que fazia sentido técnico e narrativo. Depois de nocautear Reinier de Ridder no UFC Vancouver, em outubro de 2025, Allen se consolidou entre os cinco melhores da divisão e clamou pelo sul-africano. O confronto, segundo o próprio lutador, estava acertado para janeiro.
"Porque ele é um covarde. Era para ser um negócio fechado em janeiro. Me disseram que estava fechado. Eu e Dricus estávamos acertados, aí disseram que ele se machucou e não vai lutar até julho. E na semana seguinte ele postou vídeos treinando", declarou Allen ao MMA Fighting.
O argumento de que du Plessis se machucou não sobrevive ao escrutínio dos próprios fatos: o sul-africano divulgou imagens em treino dias depois de o cancelamento ser comunicado a Allen. O americano não esconde que se sentiu manipulado — "finessed", nas palavras dele — e que tentou alternativas. Pediu Kamaru Usman, que deve enfrentar o próprio du Plessis no UFC Oklahoma City em julho. Pediu outros nomes. Nenhuma luta foi confirmada. Cansado de esperar e, segundo ele mesmo, precisando de dinheiro, aceitou o duelo com Shahbazyan.
Shahbazyan não é papel e o histórico de Allen exige respeito
Há quem veja este co-main event como um desperdício de ranking. O contra-argumento tem fundamento: Edmen Shahbazyan, 28 anos, chega numa sequência de três vitórias consecutivas, incluindo uma finalização sobre Andre Muniz no UFC 320, em outubro de 2025. Não tem número ao lado do nome, mas não é um lutador de enchimento de cartaz.
O problema para Shahbazyan é que Allen opera em outra prateleira estatística. O americano acumula 12 finalizações em 23 vitórias na carreira profissional, com uma capacidade de trabalho no solo que remete à geração de Demian Maia entre 2010 e 2014 — quando o brasileiro encadeou oito finalizações por finalização consecutivas no UFC, transformando o wrestling em arte processual. Allen não é Maia, mas a analogia no método é válida: ele cansa, pressiona e encontra o pescoço quando o adversário menos espera.
Shahbazyan, por sua vez, chegou ao UFC em 2019 com uma aura de prospecto invencível — seis vitórias seguidas, todas antes do limite. A derrota para Derek Brunson em 2020 expôs fragilidades na resistência e na gestão de pressão ao longo dos rounds. Três anos de reconstrução depois, o armênio-americano voltou ao trilho, mas enfrenta agora um lutador que não apenas pressiona — ele condena.
"Me disseram quem estava disponível, eu pedi vários outros caras, nenhum aconteceu. Enjoei de esperar, precisava do dinheiro e peguei o cara que estava numa sequência de vitórias e não tinha luta", admitiu Allen, sem papas na língua, ao MMA Fighting.
O que este sábado decide na corrida pelo cinturão dos médios
Uma vitória de Allen neste sábado não resolve a equação do título imediatamente, mas aumenta a pressão sobre o UFC para justificar a escalação de du Plessis contra Usman em julho. Se o sul-africano vencer Usman e Allen vencer Shahbazyan com autoridade, o confronto entre os dois se torna inevitável — e Allen terá argumentos para negociar de uma posição ainda mais sólida, com a narrativa do lutador que foi preterido e continuou vencendo.
A divisão dos médios vive um momento de redistribuição de poder que não se via desde a era Anderson Silva, quando o brasileiro defendeu o cinturão dez vezes consecutivas entre 2006 e 2012 e transformou o peso-médio na divisão mais assistida do UFC. Hoje, sem um dominador absoluto, cada vitória expressiva mexe no tabuleiro. Allen sabe disso.
O UFC Vegas 118 acontece neste sábado (6), com Allen e Shahbazyan no co-main event. Se Allen finalizar Shahbazyan — seu padrão preferido de encerramento — e du Plessis confirmar a luta contra Usman em julho, o americano que jura lutar pelo Brasil pode estar a um ciclo de negociação de uma disputa de cinturão. É o mesmo cenário que Chris Weidman viveu em 2013, quando esperou meses por uma chance que todos achavam que não viria — e foi ao octógono derrubar Anderson Silva pela primeira vez na história.









