Havia algo de solene na voz de Carlo Ancelotti quando ele escolheu a palavra profissional — pronunciada devagar, como quem assina um documento. A declaração à Reuters, mediada pelo colunista Fernando Kallás do Globo, não deixou margem para interpretação sentimental: a presença de Neymar na lista da Copa do Mundo de 2026 dependerá exclusivamente do que o atacante mostrar em campo, e nenhuma pressão externa — da torcida, dos patrocinadores ou dos próprios companheiros de seleção — alterará esse cálculo.
"Quando você tem que escolher, precisa levar muitas coisas em consideração. Neymar é um jogador importante para este país pelo talento que sempre demonstrou. Ele teve alguns problemas, e está trabalhando forte para se recuperar. Faz um ano que estamos avaliando não só Neymar, mas todos os jogadores", disse Ancelotti.
A declaração é de uma frieza cirúrgica que contrasta com o tom habitual das convocações brasileiras, historicamente permeadas de afeto e narrativa. Ancelotti, que dirigiu Real Madrid, Milan, Bayern de Munique e Chelsea ao longo de quatro décadas, já conduziu decisões impopulares com a mesma serenidade. Em 2014, no Real Madrid, deixou Isco fora de decisões da Champions League mesmo com o meia em boa fase — e levantou a taça da décima edição contra o Atlético de Madrid, em Lisboa, com 4 a 1 na prorrogação.
O que Ancelotti vê quando analisa os números de Neymar
Reparemos no detalhe que os dados impõem: Neymar completou 32 anos em fevereiro de 2024 e, desde a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito em outubro de 2023, disputou menos de 15 partidas com regularidade. Seu retorno ao Santos, efetivado em janeiro de 2025, trouxe alívio emocional à Vila Belmiro, mas o histórico de lesões é pesado — três cirurgias relevantes em seis anos. Em Copas do Mundo, o atacante soma 77 partidas pela Seleção Brasileira, com 79 gols — artilheiro absoluto da história verde-amarela, à frente de Pelé (77 gols) e Ronaldo Fenômeno (62). Em torneios de Copa especificamente, marcou 8 gols em 14 jogos: dois na África do Sul (2010), quatro no Brasil (2014) e dois na Rússia (2018), quando lesionou a vértebra lombar nas oitavas contra a Bélgica e desfalcou a equipe nas quartas, derrota por 2 a 1 que encerrou a participação brasileira.
O aproveitamento da Seleção com Neymar em campo — calculado em campanhas de Eliminatórias e Copas entre 2010 e 2022 — gira em torno de 68%, número superior à média histórica do Brasil no mesmo período. Mas o técnico italiano precisa ponderar um dado que o SportNavo rastreou nas últimas três temporadas: desde 2022, Neymar completou 90 minutos apenas 11 vezes em competições oficiais, um índice de disponibilidade que nenhum treinador de alto nível pode ignorar ao montar um grupo para um torneio de seis semanas.
O afeto dos companheiros entra na conta, mas não decide
Ancelotti reconheceu abertamente que o carinho dos jogadores por Neymar é um fator presente em sua análise — mas tratou-o como variável secundária, não como critério de seleção.
"Sei perfeitamente que Neymar é muito querido, não só pelo público, mas também pelos jogadores. Esse também é um fator, porque temos que levar em consideração o clima que envolverá a convocação do Neymar. Não é como se eu fosse jogar uma bomba no vestiário. Ele é muito querido, muito amado", afirmou o treinador.
A leitura de Ancelotti aqui é refinada: ele não nega o peso simbólico do camisa 10, mas tampouco o usa como argumento de convocação. Comparemos com o que ocorreu em 2014, quando Luiz Felipe Scolari manteve Fred na lista mesmo com o centroavante do Fluminense em queda de rendimento, em parte pela influência do grupo. O resultado foi o 7 a 1 contra a Alemanha, em Belo Horizonte, placar que ainda hoje ressoa como o episódio mais traumático da história da Seleção. Ancelotti, que naquele mesmo ano levantava a Champions com o Real Madrid, parece ter aprendido a lição alheia.
Os candidatos que tornam a decisão ainda mais delicada para Neymar
A ausência de Neymar nos últimos amistosos da Seleção não foi acidental — foi uma mensagem metodológica. Ancelotti testou variações táticas com Vinicius Jr. centralizado, com Raphinha como meia avançado e com Endrick como referência ofensiva, o que sugere que o esquema não está desenhado ao redor de nenhum nome fixo. Vinicius Jr., com 24 anos, terminou a temporada 2025/2026 pelo Real Madrid como um dos três maiores artilheiros da La Liga, com 22 gols em 34 partidas. Raphinha, no Barcelona, acumula 18 gols e 14 assistências na mesma temporada europeia. São números que qualquer técnico colocaria na balança ao lado do histórico de disponibilidade física de um jogador de 33 anos com três cirurgias nos últimos seis anos.
Neymar, por sua vez, voltou a mostrar lampejos no Santos ao longo de 2026 — há registros de atuações consistentes em pelo menos quatro rodadas do Brasileirão — mas ainda não encadeou sequência de cinco jogos completos, que seria o mínimo esperado por um técnico que precisa de garantias físicas para um torneio disputado em três países diferentes, com deslocamentos e calendário comprimido.
A lista definitiva de 26 jogadores deverá ser anunciada por Ancelotti até o início de junho, com a Copa do Mundo de 2026 programada para começar em 11 de junho nos Estados Unidos, Canadá e México. Neymar tem, portanto, menos de quatro semanas para encadear atuações regulares pelo Santos e convencer o técnico italiano de que o talento histórico ainda vem acompanhado de um corpo capaz de sustentar seis partidas eliminatórias — o mínimo para chegar à final.









