O placar ainda estava 1 a 1 quando Neymar entrou em campo no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. A torcida brasileira que lotava os arredores do gramado acendeu pela última vez naquela tarde de domingo. Dois gols de Erling Haaland depois, Carlo Ancelotti encarou os repórteres por exatos 12 minutos e disse o que a CBF já sabia desde antes da Copa começar: ele não vai embora.

A derrota por 2 a 1 para a Noruega encerrou a participação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 nas oitavas de final — o pior resultado da seleção desde a eliminação nas quartas em 1990, há 36 anos. Não há tragédia: há contabilidade. E a conta que a Confederação Brasileira de Futebol apresenta é a de um projeto de quatro anos, não de um torneio.

A ELIMINAÇÃO DO BRASIL ESTÁ NA CONTA DE QUEM? DEBATEMOS O ADEUS DA SELEÇÃO À COPA!
Neymar (Santos)
Neymar (Santos)

Ancelotti defende o trabalho e aponta as lacunas do meio-campo brasileiro

Ainda com a camisa molhada de suor do banco de reservas, Ancelotti não recuou. Avaliou que o Brasil "fez um bom Mundial", reconheceu a eliminação com "profunda tristeza" e foi cirúrgico ao apontar o problema estrutural que a derrota expôs. "Reconhecendo a falta de qualidade no meio-campo. Precisamos de jovens talentos, precisamos que jogadores de alto nível cheguem ao futebol brasileiro", disse o técnico italiano à imprensa.

O jogo contra a Noruega seguiu o roteiro que Ancelotti havia tentado evitar. O goleiro Orjan Nyland defendeu um pênalti fraco de Bruno Guimarães ainda no primeiro tempo — quando o marcador estava zerado —, e Haaland converteu dois gols no trecho final para selar o 2 a 1. Um pênalti de Neymar nos acréscimos não foi suficiente.

Neymar (Santos)
Neymar (Santos)
"No início, me pareceu que éramos uma equipe controlada, estávamos criando oportunidades. Era difícil exercer muita pressão porque a Noruega estava fechando a sua defesa. Pressão demais é um risco", disse Ancelotti em coletiva após a partida.

A escolha de Bruno Guimarães como cobrador gerou polêmica imediata, especialmente diante da ausência de Vinícius Júnior, que não era titular. Ancelotti e seu filho Davide, auxiliar técnico da seleção, explicaram que a decisão foi baseada em análise estatística de um ano inteiro. "O melhor era Neymar, Igor Thiago, Raphinha e, depois, Bruno Guimarães. Escolhemos Bruno porque pensamos ser o melhor que estava em campo", justificou o técnico. Vinicius Junior havia cobrado sete pênaltis pelo Real Madrid na temporada 2025/26, acertando cinco. Bruno Guimarães havia convertido os três que cobrou na carreira — dois pelo Newcastle na Premier League 2025/26 e um pelo Lyon em 2020/21 — antes do erro desta tarde.

A renovação que antecedeu o Mundial e o que ela revela sobre a estratégia da CBF

O contrato de Ancelotti com a seleção brasileira foi renovado até 2030 antes mesmo de a Copa do Mundo de 2026 começar. A CBF apostou no projeto antes do resultado — e essa é a parte que incomoda setores da torcida, mas que a confederação defende com convicção. O raciocínio é simples: contratar e demitir técnicos a cada ciclo custou ao Brasil quatro eliminações consecutivas sem título. Ancelotti representa uma tentativa de ruptura com esse padrão.

O italiano chegou ao comando da seleção em 2024 com um currículo único — cinco títulos da Liga dos Campeões, entre outros — e com a promessa de transformar o processo de formação e identificação de talentos. Em 12 meses à frente da seleção, construiu, segundo seu próprio relato, "um bom grupo" e monitorou mais de 70 jogadores em diferentes categorias. O resultado em 2026 ficou abaixo do esperado, mas a CBF optou por não jogar fora o que foi construído.

"Quando acontece algo assim, uma derrota é o começo de uma nova aventura. Vamos seguir trabalhando, melhorando, encontrando novas ideias. Não é o fim, é o começo de um novo ciclo. Vou seguir trabalhando para essa Seleção", afirmou Ancelotti ao encerrar a coletiva.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da campanha, Endrick foi uma das apostas do técnico para dar profundidade ao ataque, mas a joia do Real Madrid desperdiçou uma oportunidade clara no início do segundo tempo contra a Noruega. A comissão técnica contava com a entrada de Neymar na pausa de hidratação para mudar o ritmo — e o craque de 34 anos até marcou, mas tarde demais.

O Brasil caminha para 2030 com dívidas táticas e um técnico que sabe quais são elas

O próximo ciclo começa com um diagnóstico claro. Ancelotti identificou publicamente a carência de meio-campistas de alto nível como o principal entrave para a seleção competir até o fim de um Mundial. O Brasil de 2026 dependeu demais da inspiração individual de Neymar — que chegou à Copa sem condições de ser titular — e de Raphinha, sem encontrar uma engrenagem coletiva consistente. Furou.

A Copa do Mundo de 2030 será realizada em formato expandido e com sedes na Espanha, Portugal, Marrocos e, em jogos especiais, na Argentina, Uruguai e Paraguai — comemorando o centenário do torneio. O Brasil, tricampeão do mundo em 1958, 1962 e 1970, não conquista o título desde 2002. São 28 anos de espera. Ancelotti terá 71 anos em 2030 e um elenco que, na avaliação dele mesmo, "poderia competir até o final da Copa" com os jogadores disponíveis hoje. A questão é o que virá da base até lá — e se o técnico italiano conseguirá montar a espinha dorsal de meio-campo que ele próprio confessou não ter em Nova Jersey.

A seleção brasileira retorna ao trabalho com a primeira convocação pós-Copa prevista para setembro de 2026, quando começam as Eliminatórias da Copa de 2030. Ancelotti terá pela frente o desafio de renovar o elenco sem abrir mão da experiência dos jogadores que chegaram ao torneio — e de encontrar, entre os jovens que "precisam chegar ao futebol brasileiro", os nomes que ele ainda não tem para o meio do campo.