Confesso: eu errei sobre Ancelotti em 2025. Quando a CBF anunciou o italiano como técnico da Seleção Brasileira, escrevi que seria um experimento de prazo curto — que o primeiro tropeço sério encerraria o projeto. A eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 veio, e Ancelotti permanece. Errei o diagnóstico. Mas o dado que não erra é este: o Brasil não caía nas oitavas de um Mundial desde a Itália-90, quando a Seleção de Sebastião Lazaroni perdeu para a Argentina de Maradona por 1 a 0, em Turim, no dia 24 de junho de 1990. Trinta e seis anos depois, o padrão se repete — e agora temos quatro anos para entender o que vem a seguir.

A eliminação que repete um fantasma de 36 anos

A derrota para a Noruega não foi apenas um resultado ruim. Foi a confirmação estatística de uma fragilidade estrutural: o Brasil não derrubava um europeu em mata-mata há 24 anos — desde a vitória sobre a Inglaterra por 2 a 1 nas quartas de final do Japão/Coreia 2002, com gols de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Em 2006, perdeu para a França. Em 2010, para a Holanda. Em 2022, para a Croácia nos pênaltis. A série virou maldição documentada. Contra a Noruega em 2026, a lista de cobradores de pênalti revelada por Ancelotti na coletiva pós-jogo sintetizou o problema: Neymar era a primeira opção, seguido por Igor Thiago, Raphinha e Bruno Guimarães. Nenhum dos três primeiros estava disponível no momento decisivo. O volante do Newcastle assumiu a responsabilidade — e o resultado é conhecido.

"Essa derrota é o princípio de um novo ciclo", declarou Ancelotti na entrevista coletiva após a partida contra a Noruega.

A frase do italiano lembra a lógica de Moneyball — a ideia de que a reconstrução começa exatamente onde a derrota termina, não depois que a dor passa. Ancelotti, com quatro Champions Leagues no currículo, conhece reconstruções. A questão é se a CBF e o torcedor brasileiro têm paciência para um processo de quatro anos.

Quem tem perfil para 2030 na geração que chega agora

O ciclo até a Copa de 2030 — que será realizada na Espanha, Portugal e Marrocos, com jogos também na Argentina, Uruguai e Paraguai em homenagem ao centenário do torneio — exige uma análise geracional honesta. Quando o Brasil foi campeão em 2002, Ronaldo tinha 25 anos, Ronaldinho 22 e Robinho 18. A geração vencedora foi construída entre 1998 e 2002, com base em jogadores que já tinham musculatura competitiva nos grandes clubes europeus.

Hoje, os nomes com esse perfil de maturidade projetada para 2030 são identificáveis. Estêvão Willian, nascido em 2007, terá 22 anos no Mundial. Endrick, nascido em 2006, chegará com 23 — exatamente a idade de Ronaldinho quando ergueu a taça no Japão. Savinho, revelado pelo Manchester City, completará 24 anos. São três atacantes com passagens ou contratos em clubes da elite europeia, o que resolve parcialmente o problema de adaptação ao futebol de alta intensidade que a Seleção demonstrou contra a Noruega.

O meio-campo é o ponto mais delicado. Bruno Guimarães terá 32 anos em 2030 — ainda utilizável, mas não como pilar. André, do Fulham, chegará com 27. Gerson, se mantiver a regularidade, terá 33. A janela de transição entre 2026 e 2028 será decisiva para identificar o volante que sustentará a construção de jogo.

O salário de 10 milhões de euros e o que a CBF comprou com ele

A renovação de Ancelotti, conforme registrado pelo SportNavo com base em informações do jornalista Diogo Dantas, mantém o italiano recebendo 10 milhões de euros anuais — aproximadamente R$ 59,3 milhões — tornando-o o técnico de seleção mais bem pago do mundo. O bônus de 5 milhões de euros pelo título mundial obviamente não foi pago. Toda a comissão técnica, incluindo Paul Clement, Francisco Mauri, Mino Fulco e Simone Montanaro, teve contratos prorrogados com reajuste.

"Buscava dar mais profundidade e intensidade ao time nos minutos finais", explicou Ancelotti ao justificar as substituições realizadas contra a Noruega.

O que a CBF comprou com esse investimento é uma metodologia, não apenas um nome. Ancelotti construiu o Real Madrid de 2022 e 2024 a partir de um equilíbrio entre veteranos e jovens — Modric aos 36 anos convivendo com Bellingham aos 19. Aplicar esse modelo à Seleção significa aceitar que Neymar, hoje com 34 anos, pode ter papel de mentor e referência técnica nos próximos dois anos, enquanto Estêvão e Endrick ganham musculatura internacional. A pergunta real não é se Ancelotti tem capacidade — seu currículo responde sozinho. A pergunta é se quatro anos são suficientes para que os jovens brasileiros cheguem a 2030 com o mesmo nível de experiência que Ronaldo tinha quando entrou em campo em Yokohama.

O próximo teste começa já nas Eliminatórias Sul-Americanas para 2030, cuja nova fase tem início previsto para setembro de 2026. O Brasil, com 36 pontos conquistados no ciclo anterior, precisará usar as primeiras rodadas para testar a espinha dorsal do novo projeto — e Ancelotti terá de responder com escalações, não com declarações.