É uma rede de pesca de malha fina jogada num oceano que todo mundo jurava estar vazio.

Carlo Ancelotti revelou ao jornalista Paulo Vinícius Coelho que acompanha atualmente 70 jogadores para a Seleção Brasileira — um número que ele mesmo admitiu ser maior do que teria disponível se estivesse no comando da Espanha. A declaração desmonta, com um dado só, a narrativa de que o Brasil não forma mais atletas de nível. E abre uma pergunta incômoda: quem são os nomes que estão nessa lista e ainda não apareceram nas convocações oficiais?

Matheus Cunha (Manchester United)
Matheus Cunha (Manchester United)

A varredura que Ancelotti fez antes de completar três meses no Brasil

A conversa entre Ancelotti e PVC aconteceu antes de o técnico completar três meses morando no Brasil e antes de seu segundo jogo em território nacional. Nesse contexto, a frase foi direta:

"Tenho aqui 70 jogadores sendo observados. Se você estivesse na seleção espanhola, não teria este número? Não, com certeza não!"

O técnico italiano carrega uma credencial específica para fazer esse julgamento: ao longo de 30 anos como treinador, dirigiu 43 brasileiros em dez clubes diferentes. Ele não está descobrindo o futebol brasileiro agora — está reencontrando um território que mapeou de fora durante décadas. Kaká, eleito melhor do mundo pela Fifa em 2007, e Vinicius Júnior, que saiu do Flamengo sendo questionado por não saber finalizar, são exemplos de jogadores que Ancelotti enxergou antes do consenso.

Entre os clubes brasileiros monitorados estão Botafogo, Palmeiras e Flamengo. Mas a varredura não para na fronteira: jovens que atuam em ligas europeias também entram nesse radar. O critério não é o campeonato — é o desempenho dentro de métricas que o staff de Ancelotti acompanha com regularidade.

Os nomes que ganharam espaço e o que os dados dizem sobre eles

Três perfis ilustram bem o tipo de jogador que Ancelotti está resgatando ou revelando nessa amplitude de observação.

Matheus Cunha, atacante do Wolverhampton, é talvez o caso mais emblemático. Convocado com regularidade desde que Ancelotti assumiu, ele acumula números expressivos na Premier League 2025/2026: seu xG (expected goals) — métrica que mede a qualidade das chances criadas com base na posição do chute e contexto da jogada — está acima de 0,45 por 90 minutos, um índice que coloca qualquer atacante entre os mais perigosos da liga. Além disso, seus progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) revelam um jogador que não apenas finaliza, mas conecta linhas — algo que a seleção precisava há algum tempo.

Rayan, jovem atacante revelado no Brasil, representa a aposta geracional. O perfil dele interessa a Ancelotti exatamente pelo que os dados de defensive actions (pressões, interceptações e duelos ganhos no campo adversário) mostram: é um jogador que pressiona alto, o que se encaixa no PPDA (passes permitidos por ação defensiva) que o técnico tende a exigir das suas equipes. Quanto menor o PPDA, mais intensa é a pressão — e Rayan apresenta esse comportamento de forma consistente.

André, do Fluminense, fecha o trio com um perfil completamente diferente: volante de contenção com alto volume de defensive actions por 90 minutos e capacidade de iniciar jogadas com progressive passes a partir da segunda linha. Sua xA (expected assists) — que mede a qualidade dos passes que resultam em finalizações — é modesta, mas isso é esperado para um pivô defensivo. O que chama atenção é a consistência: ele não some em jogos grandes.

Para comparar rapidamente os três perfis em métricas-chave:

  • Matheus Cunha — xG/90 elevado, progressive passes como atacante de ligação, perfil de segundo centroavante
  • Rayan — PPDA favorável (pressão alta), velocidade de transição, potencial de impacto saindo do banco
  • André — defensive actions consistentes, xA baixa mas funcional, âncora do meio-campo

Quem mais está nessa lista de 70 que ainda não vimos com a camisa amarela?

O que a amplitude do radar de Ancelotti muda para o mata-mata da Copa

Quem não tem cão caça com gato — mas Ancelotti está dizendo que tem cão, gato, e mais uns cinquenta animais que o Brasil ainda não apresentou ao mundo.

PVC, ao comentar o clima de desconfiança que cerca a seleção, lembrou um paralelo histórico que ajuda a calibrar o pessimismo atual:

Matheus Cunha (Manchester United)
Matheus Cunha (Manchester United)
"Também não nos parecia um ano antes da Copa de 2002, quando o Brasil perdeu para Honduras na Copa América, e a gente dizia que o diagnóstico do Brasil era: 'não temos mais jogadores, não somos mais uma potência'. E no ano seguinte, o Brasil era campeão do mundo com Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo."

O ponto não é romantizar o passado — é entender que diagnósticos feitos de longe costumam errar a causa. A geração atual tem Vinicius Júnior, Rodrygo, Estêvão e Raphinha como nomes consolidados. Mas o diferencial de Ancelotti está exatamente nos outros 60 jogadores que ele monitora além desses quatro.

Num mata-mata de Copa do Mundo, o banco de reservas decide tanto quanto o time titular. A Alemanha de 2014 tinha Götze para entrar na prorrogação da final. A França de 2018 tinha Thauvin e Giroud para cobrir ausências. O Brasil de Ancelotti, se o técnico usar bem essa amplitude de observação, pode chegar a julho de 2026 com opções reais para cada cenário tático — e não apenas com substitutos óbvios.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta temporada, a comissão técnica brasileira tem feito viagens regulares para acompanhar jogadores em clubes europeus, especialmente na Premier League e na Serie A. A lista de 70 não é estática — ela é atualizada a cada rodada.

O próximo compromisso da Seleção Brasileira, ainda no ciclo preparatório para a Copa do Mundo 2026, será decisivo para que Ancelotti comece a fechar o mapa e transformar os 70 observados nos 26 que embarcarão para o Mundial. Quem aparecer bem nas próximas rodadas dos campeonatos nacionais e europeus ainda tem passagem em aberto.