Seis estádios, seis minutos de silêncio, um único decreto da Copa do Mundo. Na sexta-feira, 26 de junho de 2026, antes de qualquer bola rolar nos jogos da rodada final da fase de grupos, jogadores de doze seleções pararam no centro do gramado, olharam para o chão e ficaram imóveis. O gesto durou 60 segundos. O motivo era uma catástrofe que, até aquele momento, já havia ceifado ao menos 920 vidas e deixado mais de 50 mil pessoas desaparecidas no norte da Venezuela.
A tragédia que chegou no meio da Copa
Dois terremotos atingiram o norte da Venezuela na quarta-feira, 24 de junho, com epicentro próximo à capital Caracas e destruição concentrada em La Guaira, região costeira historicamente vulnerável a desastres geológicos. O governo venezuelano divulgou, até a data dos jogos, o balanço de 920 mortos e 3.360 feridos — números que, em perspectiva histórica, colocam o evento entre os dez terremotos mais letais registrados na América do Sul desde o sismo de El Salvador em 2001, que matou 844 pessoas. As equipes de busca e resgate ainda trabalhavam nos escombros quando os árbitros apitaram o início do protocolo de silêncio nos estádios.
Entre as vítimas confirmadas estava Yimvert Berroterán, atacante de 18 anos apontado como uma das principais promessas do futebol venezuelano. Berroterán estava desaparecido desde a quarta-feira; seu corpo foi encontrado sob os escombros de um edifício em La Guaira. A morte de um jogador jovem, no meio de uma Copa do Mundo disputada no continente americano, conferiu ao luto uma dimensão que ultrapassou o protocolo institucional.
A Fifa como protagonista do protocolo de homenagem
A determinação da Fifa foi clara e sem margem para interpretação: minuto de silêncio obrigatório em todos os jogos do dia 26 de junho. O protocolo alcançou seis partidas realizadas em cidades dos Estados Unidos e do Canadá. Em Toronto, Senegal e Iraque pararam antes do apito inicial. Em Boston, França e Noruega repetiram o gesto — a mesma partida em que a seleção europeia aplicaria uma goleada de 4 a 1 sobre os escandinavos, resultado que, no contexto do dia, ficou em segundo plano nas primeiras horas de cobertura.
Espanha e Uruguai também cumpriram o protocolo, assim como Cabo Verde e Arábia Saudita, Nova Zelândia e Bélgica, e Irã e Egito. Ao todo, 24 seleções participaram do rito em um único dia — número que representa exatamente um terço dos 48 países presentes nesta edição da Copa do Mundo. Para efeito de comparação, quando a Fifa decretou um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos atentados de Paris em novembro de 2015, o protocolo foi aplicado em apenas quatro jogos das eliminatórias europeias realizados na semana seguinte. A escala de 26 de junho de 2026 foi, portanto, a maior ação coordenada de luto já promovida pela entidade em um único dia de competição.
"O futebol expressa sua solidariedade ao povo venezuelano neste momento de profunda dor", comunicou a Fifa em nota oficial distribuída aos estádios antes dos jogos.
A reação nos estádios e o peso do silêncio coletivo
Nos registros das transmissões, o minuto de silêncio no Estádio de Toronto — onde Senegal e Iraque se enfrentavam pela última rodada do Grupo B — durou exatos 58 segundos antes de a torcida começar a aplaudir espontaneamente. Em Boston, onde a partida entre França e Noruega atraiu uma das maiores audiências do dia, o silêncio foi mantido com rigor pelos cerca de 60 mil presentes no Gillette Stadium, em Foxborough.
A presença de jogadores venezuelanos em outros clubes participantes da Copa deu ao protocolo uma camada adicional. Embora a Venezuela não estivesse classificada para o torneio — a seleção canarinha venezuelana nunca disputou uma Copa do Mundo —, atletas nascidos no país atuam em ligas europeias e sul-americanas, e muitos deles viram o protocolo do dia 26 como um reconhecimento que vai além das fronteiras da competição.
Nas redes sociais, jogadores de diversas seleções publicaram mensagens de solidariedade com a hashtag #VenezuelaNoEstáSozinha. O atacante Luis Díaz, colombiano que joga no Liverpool e que tem raízes na fronteira com a Venezuela, foi um dos primeiros a se manifestar publicamente, pedindo agilidade nos esforços internacionais de socorro.
"Minha família está próxima dessa região. Peço a todos que rezem pelo povo venezuelano", escreveu Díaz em publicação nas redes sociais na tarde de 25 de junho.
Conforme apurado em matéria do SportNavo, a decisão da Fifa de estender o protocolo a todos os jogos do dia — e não apenas às partidas realizadas em cidades com maior concentração de imigrantes venezuelanos, como Miami — foi tomada na manhã de 26 de junho, horas antes do início dos confrontos, após o balanço de vítimas ultrapassar a marca de 800 mortos.
A morte de Berroterán, especificamente, recolocou em debate um tema recorrente no futebol sul-americano: a precariedade das estruturas habitacionais em que vivem jovens atletas das categorias de base em países com menor investimento na modalidade. O atacante de 18 anos morava em La Guaira, a mesma região que concentrou o maior número de vítimas fatais dos dois terremotos. A Federação Venezuelana de Futebol não havia emitido nota oficial até o fechamento desta edição.
A próxima rodada da Copa do Mundo tem início em 29 de junho, com o começo das oitavas de final. A Venezuela, que segue em estado de emergência nacional decretado pelo governo, receberá delegações de socorro de ao menos seis países da América do Sul, incluindo Brasil e Argentina, segundo o Ministério das Relações Exteriores venezuelano. O futebol seguirá em campo; o luto, por ora, ainda conta seus mortos.








