Se o único critério para definir um favorito fosse o retrospecto histórico, a Copa do Mundo seria uma ciência exata — e nenhum torcedor paraguaio estaria de coração acelerado nesta tarde de 29 de junho. Mas o futebol, como toda arte imperfeita, insiste em desmentir os seus próprios arquivos. Às 17h30 (horário de Brasília), no Gillette Stadium, em Boston, Alemanha e Paraguai entram em campo com históricos radicalmente desiguais e com uma única certeza compartilhada: quem perder vai para casa.
O número que estrutura este confronto é simples e devastador para os sul-americanos: zero vitórias paraguaias contra a Alemanha em Copas do Mundo. Os dois únicos encontros entre as seleções na história dos Mundiais aconteceram em 2002, quando os alemães eliminaram o Paraguai nas oitavas de final com um gol solitário, e num amistoso de 2013, encerrado num empate de 3 a 3 que, ao menos, provou que o placar pode ser elástico quando os guaranis encontram espaço para correr. Dois jogos, uma vitória alemã, um empate — e nenhum triunfo paraguaio sequer para alimentar a memória afetiva da torcida albirroja.
O peso de 2022 sobre os ombros da Mannschaft
A Alemanha chega a Boston pressionada por fantasmas recentes. Em 2022, no Catar, a seleção tetracampeã mundial foi eliminada na fase de grupos pela segunda Copa consecutiva — fenômeno inédito na história de um país que havia chegado à final do Mundial em 2014 e 2002. Aquela humilhação coletiva ainda ecoa nos corredores da Federação Alemã de Futebol. Nesta edição de 2026, a equipe comandada por um elenco recheado de jovens talentosos — Jamal Musiala, Florian Wirtz e Kai Havertz na linha ofensiva — terminou o Grupo E com seis pontos, classificando-se em primeiro, mas encerrou a fase com derrota por 2 a 1 para o Equador, o que acendeu alertas táticos. O ataque balançou as redes 10 vezes em três jogos, mas a defesa mostrou rachaduras que um adversário disciplinado pode explorar.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, a Alemanha alterna momentos de futebol espetacular com lapsos de concentração que custam gols. Manuel Neuer, aos 40 anos, segue como guardião titular — uma longevidade que remete aos grandes goleiros da geração de 1990, quando Peter Schmeichel e Dino Zoff ainda ditavam o ritmo de suas seleções bem além dos 35 anos. A diferença é que Neuer, ao contrário de Zoff na Copa de 1982, não tem diante de si um adversário de segunda prateleira: o Paraguai de 2026 é uma equipe curtida, que sobreviveu a uma goleada de 4 a 1 sofrida pelos Estados Unidos na estreia e se recuperou com um empate sem gols contra a Austrália na última rodada — resultado que garantiu a classificação em terceiro lugar no Grupo D, com quatro pontos.
A solidez defensiva que o Paraguai trouxe de Assunção
O técnico paraguaio apostou numa formação compacta, com Gustavo Gómez como pilar defensivo — o mesmo zagueiro que há anos sustenta o Palmeiras no Brasileirão. Ao lado de Juan José Cáceres, Gustavo Velázquez e Alexandro Maidana, Gómez forma uma linha de quatro que não convida ao espetáculo, mas que tornou a vida difícil para qualquer ataque que tentou furar o bloco baixo paraguaio. O goleiro Orlando Gill, relativamente inexperiente no cenário mundial, terá diante de si o maior teste de sua carreira.
Pelo lado ofensivo, o Paraguai aposta em Julio Enciso, o meia-atacante que revelou seu potencial na Premier League inglesa, e em Gabriel Ávalos como referência de área. A velocidade de Enciso no espaço aberto é exatamente o tipo de arma que pode punir a defesa alemã quando ela sobe demais. No empate de 3 a 3 de 2013 — único precedente em que o Paraguai chegou perto de vencer a Alemanha —, a seleção sul-americana mostrou que consegue criar volume ofensivo quando o adversário abre mão da organização defensiva.
"Os jogadores estarão preparados. Não pensem que agora vamos dizer que segunda ou terça voaremos de volta para casa. Não pensamos assim. Queremos mais nesta Copa do Mundo", disse o técnico belga Hugo Broos, da África do Sul — palavras que poderiam muito bem ter sido ditas pelo banco paraguaio, dado o espírito de superação que define as seleções menores nesta edição do Mundial.
O que Boston pode decidir além de uma vaga
A partida no Gillette Stadium carrega um peso simbólico que vai além do chaveamento. Para a Alemanha, uma eliminação nas oitavas de final repetiria o trauma de 2022 e colocaria em xeque o projeto de reconstrução iniciado após o fracasso no Catar. Para o Paraguai, uma vitória seria o resultado mais importante da história do futebol guarani em Copas — superando até mesmo a campanha de 2010, quando a seleção chegou às quartas de final pela primeira vez, eliminada pela Espanha campeã. Naquele ano, Salvador Cabañas ainda era a grande referência do futebol paraguaio; hoje, a geração de Enciso e Ávalos tenta criar sua própria mitologia.
A provável escalação alemã — Neuer; Kimmich, Rüdiger, Tah e Raum; Nmecha, Pavlovic, Sané, Musiala e Wirtz; Havertz — reúne mais de 400 jogos de Champions League acumulados entre seus titulares, uma diferença de currículo que o Paraguai não tem como igualar. Mas Copas do Mundo já demonstraram repetidamente que currículo não entra em campo: em 2002, o Senegal eliminou a França campeã na fase de grupos; em 2022, a Arábia Saudita venceu a Argentina de Messi. A zebra não pede licença — ela simplesmente acontece.
Quem avançar em Boston enfrenta o vencedor de outro confronto nas quartas de final, com data a ser confirmada pela FIFA. Para a Alemanha, a missão é sobreviver ao próprio passado recente; para o Paraguai, é construir um futuro que ainda não existe. A partida começa às 17h30 e pode ser acompanhada ao vivo pela CazéTV no YouTube — e o que o Gillette Stadium vai testemunhar talvez seja menos um jogo de futebol do que uma negociação entre a história e a ousadia, como um maestro que decide, no meio da sinfonia, improvisar um movimento que ninguém ensaiou.








