Não, a questão em torno de Neymar na Copa do Mundo não é se ele ainda tem qualidade. Nunca foi. A pergunta que Carlo Ancelotti precisa responder é outra, mais cirúrgica: em que posição um jogador com 79 gols pela Seleção Brasileira — o maior artilheiro da história do país, acima de Pelé — encaixa dentro do modelo de alta intensidade que o futebol moderno exige?

Quatro convocações sem Neymar e o silêncio que fala alto

Desde que assumiu o comando da Seleção Brasileira em maio deste ano, Ancelotti não incluiu Neymar em nenhuma de suas quatro listas de convocados. O atacante do Santos acumulou lesões graves no período — a mais recente, uma ruptura de grau 2 na panturrilha direita, que o colocou fora do primeiro jogo do Brasil na Copa, contra Marrocos, marcado para a próxima sexta-feira, dia 13. Antes disso, ele já havia ficado 48 dias fora dos gramados por conta de uma lesão no músculo reto femoral do quadríceps, retornando por poucos minutos no jogo contra o Fortaleza pelo Brasileirão.

Cremonese - Como

O técnico italiano foi direto ao ser questionado pela revista Placar sobre a ausência do camisa 10:

"Sei que todo mundo quer que o Neymar volte a sua melhor condição física. E também a CBF, o treinador, o estafe técnico da seleção esperam que Neymar possa voltar ao seu melhor nível", declarou Ancelotti.

A mesma entrevista trouxe uma frase que resume a filosofia do italiano para esta Copa:

"A verdade é que o futebol de hoje pede muitas coisas. Não só o talento, mas também a condição física, a intensidade… tomara que o Neymar esteja em seu melhor nível."

Quem conhece o trabalho de Ancelotti no Real Madrid sabe que essa fala não é protocolar. O técnico que gerenciou Karim Benzema, Luka Modric e Toni Kroos — três jogadores acima dos 30 anos com histórico de lesões — sempre soube adaptar funções a perfis físicos em declínio. O que para o treinador espanhol seria aposentadoria tática, para o italiano é matéria-prima de reinvenção.

O falso 9 e a lógica por trás da nova função

A informação que muda o eixo do debate veio da mesma entrevista à Placar: Ancelotti descartou usar Neymar pelos lados do campo e cogita aproveitá-lo de forma mais centralizada, como um falso 9. A função, popularizada por Pep Guardiola com Lionel Messi no Barcelona entre 2008 e 2012, exige menos metros percorridos em sprint e mais inteligência posicional — um perfil que se encaixa no Neymar de 2026 com mais precisão do que a função de ponta que ele exerceu por anos.

A comparação histórica aqui é obrigatória: Ronaldo Fenômeno chegou à Copa de 2002 saindo de dois anos devastadores por lesões no joelho. Não era o mesmo atleta de 1997. Mas Luiz Felipe Scolari o encaixou em uma função mais estática dentro da área, e o resultado foram 8 gols no torneio — artilharia isolada. O que para o futebol argentino seria nostalgia sentimental, para o futebol brasileiro sempre foi aposta estratégica: o talento técnico puro compensa o déficit físico quando bem posicionado.

Neymar como falso 9 libera Vinícius Júnior e Rodrygo para os flancos com mais liberdade, cria uma referência ofensiva que não é um centroavante de área e obriga as defesas a fazerem uma escolha impossível: marcar o homem ou a zona. Nenhuma das duas opções é confortável contra alguém com 79 gols internacionais.

Juninho coloca Neymar na prateleira dos intocáveis

A declaração de Juninho Pernambucano, ídolo do Vasco e ex-meia da Seleção Brasileira, voltou a circular nas redes sociais às vésperas do Mundial. Dada originalmente há cerca de três anos ao programa Resenha Loading, a fala ganhou novo peso agora:

"O Neymar é gênio. Como atleta ele é gênio. Nível Ronaldo Fenômeno, Romário e Ronaldinho Gaúcho. É nesse patamar. Um dos melhores que o Brasil já teve."

Juninho não é um comentarista qualquer. Ele jogou ao lado de grandes nomes do futebol mundial no Lyon e no New York Red Bulls, além de ter vestido a camisa da Seleção em três Copas do Mundo — 1998, 2002 e 2006. Sua régua de avaliação é construída sobre referências reais, não sobre romantismo. Colocar Neymar no mesmo bloco de Romário — artilheiro da Copa de 1994 com 5 gols — e de Ronaldinho Gaúcho — Bola de Ouro em 2004 e 2005 — é uma afirmação técnica, não afetiva.

Esta será a quarta Copa do Mundo de Neymar, igualando uma marca que pertencia apenas a Pelé: os dois são os únicos brasileiros a utilizar a camisa 10 em quatro edições do torneio. Em 2014, Neymar foi o artilheiro e melhor jogador do Brasil até fraturar uma vértebra contra a Colômbia. Em 2018, chegou ao Qatar como principal estrela e saiu nas quartas de final. Em 2022, marcou um gol e saiu também nas quartas, desta vez eliminado pela Croácia nos pênaltis.

O objetivo de Ancelotti, portanto, é claro: garantir que Neymar chegue ao segundo jogo do Brasil na Copa em condições físicas mínimas para ser testado na nova função. Se a panturrilha responder bem ao tratamento da CBF nos próximos dias, o técnico tem a intenção de avaliá-lo antes do encerramento da fase de grupos. O segundo compromisso do Brasil no Mundial ainda não tem data confirmada, mas o grupo da Seleção deve ser definido nas próximas 48 horas pela FIFA.