Sete pontos, três vitórias contando o empate como ponto de partida, e Vinicius Junior provisoriamente entre os vice-artilheiros do torneio. Todo mundo sabe que o Brasil chegou às oitavas em Houston. O que pouca gente está discutindo direito é que Carlo Ancelotti pode escalar um time misto contra o Japão hoje (29) e isso não seria nem imprudente, nem irresponsável — seria, na verdade, a decisão mais inteligente do torneio até agora.

O que os números do Brasil na fase de grupos revelam sobre a gestão de Ancelotti

A campanha verde-amarela no Grupo C foi sólida sem ser espetacular. O Brasil empatou em 1 a 1 com Marrocos na estreia, depois goleou Haiti por 3 a 0 e fechou com mais uma vitória de 3 a 0 sobre a Escócia — 7 pontos, liderança da chave. Mas o que os placares não contam é o contexto tático por trás de cada jogo.

CÂMERA ANALÓGICA EM PARTIDA DE COPA DO MUNDO DO BRASIL

Três métricas ajudam a entender o momento da Seleção:

  • xG (expected goals): o Brasil gerou mais chances de qualidade do que o placar sugere contra Marrocos — o empate foi mais um acidente estatístico do que um reflexo do jogo. Contra Haiti e Escócia, o xG acumulado ficou bem acima dos 3 gols marcados em cada partida, indicando que o time não precisou forçar para criar.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): o índice japonês na fase de grupos foi dos mais baixos do torneio, o que significa que o Japão pressiona alto e recupera bola com frequência. Contra a Holanda, o empate em 2 a 2 mostrou que os Samurais Azuis conseguem pressionar linhas de passe mesmo contra seleções de alto nível técnico.
  • Progressive passes: o Brasil de Ancelotti usa progressão de bola via meias e laterais, não só pelos pontas. Lucas Paquetá e Bruno Magalhães foram responsáveis por grande parte dos passes progressivos nas três rodadas — o que significa que um eventual rodízio nos extremos não compromete a saída de bola.

Traduzindo: o Brasil tem estrutura para jogar com um time misto porque a espinha dorsal — Alisson, Marquinhos, Casemiro e Paquetá — permanece intacta.

A lógica de Ancelotti para o mata-mata e o olho nas oitavas

Na última rodada contra a Escócia, Ancelotti já testou uma versão levemente rotacionada do time. Raphinha está fora por lesão muscular, o que já força uma mudança obrigatória. A dúvida é se o técnico vai além disso e poupa outros titulares pensando no próximo adversário, que sairá do confronto entre Costa do Marfim e Noruega, marcado para terça-feira (30).

Segundo o portal SportNavo registrou com base nos dados da Opta Analyst, o Brasil tem 44,14% de chances de avançar nas oitavas, contra 31,38% da Noruega e apenas 9,26% da Costa do Marfim. Isso significa que, independente do adversário, o Brasil entra como favorito na próxima fase — e Ancelotti sabe disso.

"França, Holanda e Argentina. Embora eu ache que com outro estilo a Espanha também é melhor que o Brasil. Então entre três e quatro", disse Paulo Vinícius Coelho, o PVC, no programa Posse de Bola, do UOL, ao avaliar as seleções superiores ao Brasil até agora no torneio.

PVC não está errado, mas está avaliando o Brasil pela fase de grupos — não pelo potencial do mata-mata com time completo. A questão é que Ancelotti pode estar calculando exatamente isso: guardar energia para quando o nível do adversário subir.

Seria injusto chamar a gestão de elenco de Ancelotti de revolucionária — mas para os padrões históricos da Seleção Brasileira em Copas, onde poupar um titular virava escândalo nacional, isso é quase uma revolução em escala doméstica.

O Japão de Moriyasu e os cuidados que a Seleção não pode ignorar

O Japão chegou às oitavas com 5 pontos no Grupo F, como segundo colocado atrás da Holanda. A campanha incluiu empate em 2 a 2 com os holandeses, 1 a 1 com a Suécia e uma goleada de 4 a 0 sobre a Tunísia. O técnico Hajime Moriyasu manteve sigilo sobre o time titular para o duelo de hoje.

O que os dados mostram sobre o Japão é preocupante para qualquer adversário que subestime a equipe:

  • xA (expected assists): Ritsu Doan e Keito Nakamura foram os principais criadores de jogadas na fase de grupos, com passes que geraram oportunidades reais de gol — não só cruzamentos aleatórios.
  • Defensive actions: o Japão tem uma das médias mais altas de ações defensivas por jogo do torneio, o que explica o PPDA baixo mencionado antes. Eles não esperam o adversário chegar — vão buscar a bola.
  • Pass network: a rede de passes japonesa é descentralizada, sem um único pivô de criação. Isso dificulta a marcação individual e exige que o time adversário pressione por zonas, não por homem.

A provável escalação brasileira aponta para: Alisson; Danilo, Gabriel Magalhães, Marquinhos e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Magalhães e Lucas Paquetá; Vinicius Junior, Matheus Cunha e Rayan. Com Raphinha fora, Rayan entra como titular — e o jovem atacante ainda não foi testado contra uma defesa que pressiona alto como a japonesa.

Gabriel Magalhães (Arsenal)
Gabriel Magalhães (Arsenal)

Esse é o único ponto de atenção real no plano de Ancelotti. Um time misto com Vini Jr., Paquetá e Casemiro ainda é um time forte. Mas se o Japão conseguir impor o PPDA baixo e transformar o jogo em disputas físicas de meio-campo, o Brasil vai precisar de qualidade técnica nos momentos de pressão — e aí os titulares poupados fazem diferença.

A partida entre Brasil e Japão começa às 14h (horário de Brasília), no NRG Stadium, em Houston. Quem avançar enfrenta Costa do Marfim ou Noruega nas oitavas — e aí, com o nível subindo, o time que Ancelotti vai escalar deixa de ser questão de gestão e vira questão de sobrevivência. Vale acompanhar o confronto entre Costa do Marfim e Noruega na terça (30) para saber qual dos dois cenários o Brasil vai precisar resolver.