Diz-se que Neymar voltou a jogar bem e que os gols no Santos bastam para justificar uma vaga na Copa do Mundo. Na verdade, não bastam — e entender por que isso importa exige olhar além do que a campanha organizada em torno dele escolhe mostrar.

Em 18 de maio de 2026, Carlo Ancelotti divulgará a pré-lista de 55 jogadores que podem estar na convocação final para o Mundial. Dos 26 nomes que efetivamente embarcarão, o técnico italiano já tem entre 18 e 22 definidos — ou seja, sobram no máximo oito vagas abertas para uma lista que reúne dezenas de candidatos. Neymar é um deles. E o problema não é só técnico: é político, emocional e, acima de tudo, estatístico.

O futebol que Neymar apresenta no Santos não sustenta o mito que constroem ao redor dele

Impacto esperado, entrega real — esse é o abismo que separa a narrativa da realidade quando o assunto é o desempenho recente do camisa 10 na Vila Belmiro. Nos jogos pelo Santos nesta temporada, Neymar acumula cinco gols, mas seu xG (expected goals) — métrica que calcula quantos gols um jogador deveria marcar com base na qualidade das chances criadas — aponta para um aproveitamento abaixo da média esperada para um atacante de elite. Em termos práticos: ele converte menos do que as oportunidades que recebe deveriam gerar.

Há um movimento organizado de apoio ao jogador, composto por jornalistas, influenciadores e celebridades, que transforma cada drible certo em obra-prima e ignora sistematicamente os passes errados, as perdas de bola em transição e as tentativas frustradas de condução que geram contra-ataques adversários. Partidas contra adversários de nível regional — como o Deportivo Recoleta, do Paraguai — são exibidas como prova de ressurreição. Já os jogos contra oponentes de maior nível competitivo recebem silêncio conveniente.

A ovação que Neymar recebeu na Argentina, durante a partida contra o San Lorenzo, foi genuína e merecida — mas representa reconhecimento ao futebol que ele jogou, não ao que ele joga. Ronaldinho Gaúcho é aclamado em qualquer estádio do planeta até hoje. Zico também. Nenhum dos dois está na pré-lista de Ancelotti.

O histórico de lesões pesa tanto quanto qualquer estatística de campo

Desde outubro de 2023, quando saiu de maca do gramado em confronto pela Seleção Brasileira e foi submetido a cirurgia no ligamento do joelho esquerdo, Neymar disputou uma quantidade irrisória de partidas em nível competitivo de alto padrão. Ao longo de 2024, praticamente não jogou pelo Al-Hilal, clube saudita que rescindiu o vínculo com o atleta em janeiro de 2025. O retorno ao Santos foi anunciado como recomeço, mas os números de minutos em campo ainda estão muito aquém do que se exige de um jogador de Copa do Mundo.

Para fins de comparação histórica, Romário chegou à Copa de 1994 depois de uma temporada irregular no Barcelona — mas tinha 29 anos, articulações intactas e um calendário de jogos consistente no Flamengo que antecedeu a convocação. Rivaldo, em 2002, chegou ao Japão e Coreia do Sul após uma temporada de 36 gols pelo Barcelona na La Liga 2000/01, com regularidade comprovada. Neymar, aos 34 anos, chega ao momento decisivo com um histórico de rupturas musculares, duas cirurgias no joelho e uma sequência de partidas que não ultrapassa três meses contínuos sem interrupção desde 2023.

Ancelotti terá que responder à pressão sem comprometer o equilíbrio do grupo

A decisão não é apenas técnica — é de gestão de vestiário. Ancelotti, que comandou equipes como AC Milan, Chelsea e Real Madrid em finais de Champions League, sabe melhor do que qualquer um que um nome com apelo emocional desproporcionalmente maior que sua contribuição em campo pode desequilibrar a hierarquia interna de um grupo.

"Ele já tem uns 18, 19 ou até uns 22 definidos, então faltam poucas vagas para vários jogadores dessa listona de 55", segundo análise publicada pelo UOL Esporte, que contextualiza a dimensão da concorrência que Neymar enfrenta por uma das vagas restantes.

Nos anos 1970 e 1980, a lista prévia da Seleção tinha 40 nomes — e grandes jogadores ficaram de fora sem que isso fosse tratado como escândalo nacional. Em 1978, por exemplo, Reinaldo chegou à Copa com status de maior artilheiro do Brasileirão daquele ano, mas foi subutilizado por Cláudio Coutinho. A história da Seleção está repleta de escolhas dolorosas que o tempo confirmou como corretas.

Há ainda a questão dos jogadores que dependem das mesmas vagas disputadas por Neymar: Endrick, com 15 participações diretas em gols na temporada pelo Real Madrid, e Rodrygo, que acumula experiência em Champions League, são candidatos às mesmas posições ofensivas. Incluir Neymar significa, necessariamente, excluir alguém com mais minutos jogados em alto nível nos últimos 12 meses.

"Seu futebol atual é totalmente incapaz de decidir um grande jogo", avaliou colunista do UOL Esporte ao comparar o reconhecimento afetivo que o público nutre por Neymar com a realidade do que ele entrega dentro das quatro linhas em 2026.

A pré-lista de 55 nomes, a ser divulgada em 18 de maio, dirá se Ancelotti optou por manter a porta aberta ao jogador ou se já fechou a questão internamente. A lista final de 26 convocados, essa sim, será o veredicto definitivo — e ela precisa ser anunciada até o início de junho, prazo estabelecido pela FIFA para o Mundial que começa em 11 de junho de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México.