Falhou. Pela quarta vez consecutiva no campeonato, Kimi Antonelli saiu da pole e chegou à primeira curva atrás de alguém. Em Miami, foram Leclerc e Verstappen que o ultrapassaram no apagar das luzes — e o jovem italiano, ao tentar recuperar a posição de imediato na curva 1, foi fundo demais e perdeu ainda mais tempo. Quatro Grandes Prêmios, quatro largadas desperdiçadas, quatro vezes que a Mercedes precisou correr atrás do que ela mesma entregou de bandeja.
Quatro corridas, quatro erros — e nenhum igual ao anterior
O que torna esse problema particularmente difícil de resolver é a ausência de um padrão único. Na Austrália, tanto Antonelli quanto George Russell não aqueceram os pneus corretamente na volta de apresentação. Na China, Kimi largou com a bateria descarregada — erro de gestão enquanto tentava monitorar as Ferraris atrás. No Japão, o excesso de confiança ao soltar a embreagem gerou patinação excessiva, enquanto Russell foi vítima de falha técnica. Em Miami, o problema foi operacional: a equipe forneceu ao piloto um ajuste de embreagem baseado em uma estimativa de aderência otimista demais, e todos os treinos de largada de Antonelli foram realizados no lado limpo da pista — enquanto o primeiro colchete da corrida ficava no lado sujo.
Quatro causas distintas. Uma consequência idêntica. Toto Wolff não tentou minimizar:
"A verdade é que não estamos fazendo um bom trabalho, não estamos dando aos pilotos um carro capaz de largar. As distâncias não são grandes o suficiente para nos permitir gerir a situação. Não podemos errar as largadas todas as vezes."A frase do chefe da Mercedes soa como alerta interno tanto quanto declaração pública — e em Brackley, todos sabem o que ela significa.

O ritmo de corrida ainda salva, mas os rivais estão chegando
A liderança de Antonelli no campeonato — 41 pontos à frente de Leclerc, que ocupa o terceiro lugar com 59 pontos — existe apesar das largadas, não por causa delas. O ritmo de corrida da Mercedes em 2026 tem sido consistentemente superior, capaz de absorver as perdas iniciais e ainda assim produzir quatro vitórias nas primeiras etapas, com Russell vencendo a abertura na Austrália e Kimi conquistando as três seguintes. Mas o levantamento que o SportNavo fez das corridas desta temporada mostra que o gap médio de recuperação de Antonelli após a primeira curva já custou entre 2 e 4 segundos de margem líquida por prova — tempo que, em condições de pista mais congestionada, pode não ser recuperável.
O regulamento de 2026 torna esse cenário ainda mais delicado. O sistema de ultrapassagem atual — que substituiu o DRS e distribui energia de forma ativa — tem sido alvo de críticas generalizadas no grid. Max Verstappen chegou a comparar as corridas ao Mario Kart. Mas Charles Leclerc discordou da maioria:
"Eu sempre discordei um pouco disso. Sei que sou 'minoria' no grid, mas senti que, pelo menos para as brigas que tive com os caras da frente, quando você possui um sistema de forma semelhante ao do adversário, a ultrapassagem é muito boa. É até um pouco mais estratégico do que no ano passado."O monegasco, terceiro no campeonato, acredita que os ajustes introduzidos em Miami foram um passo na direção certa — ainda que admita que o sistema ainda não é completamente natural de operar dentro do carro.
O ponto crucial que Leclerc levanta, porém, joga contra a Mercedes: se as ultrapassagens se tornam mais estratégicas e menos dependentes de velocidade pura, recuperar posições perdidas na largada exige não apenas ritmo, mas também timing perfeito de pit stop e gestão milimétrica de energia. A cada rodada de atualizações que os rivais introduzem — possibilitadas pelo mecanismo ADUO, que permite desenvolvimento acelerado de unidades de potência ao longo do ano — a janela de recuperação de Antonelli vai se estreitando como um corredor que aperta nas curvas finais.
O que Antonelli e a Mercedes precisam fazer antes de Monaco
A largada ideal na Fórmula 1 de 2026 funciona como um temporal que precisa descarregar no momento exato — toda a energia acumulada deve ser liberada em milissegundos, com temperatura de pneu, nível de bateria e resposta da embreagem sincronizados dentro de margens que chegam a décimos de segundo. Quando qualquer uma dessas variáveis sai do intervalo previsto, o carro patina, o piloto perde o impulso inicial e o corredor da frente fecha. É exatamente o que aconteceu quatro vezes seguidas com a Mercedes.
Wolff já declarou que a equipe está trabalhando em protocolos revisados para os treinos de largada, incluindo simulações no lado sujo da pista e ajustes nos algoritmos de estimativa de aderência. O próximo teste real será em Monaco, onde largar bem é ainda mais crítico — o circuito urbano tem poucas zonas de ultrapassagem e praticamente pune qualquer perda de posição na primeira curva com danos quase irreparáveis ao resultado final.
Antonelli lidera o campeonato com 100 pontos de vantagem sobre Russell e 41 sobre Leclerc — a Mercedes domina, mas a margem é fina o suficiente para que dois ou três erros de largada em sequência reorganizem completamente a tabela. O carro é rápido — falta a saída perfeita.










