O voo da Turkish Airlines pousou em Mogadíscio na manhã desta quarta-feira, 10 de junho, e a multidão já esperava do lado de fora da área VIP. Mais de cem pessoas agitavam bandeiras da Somália. No centro de tudo, um homem de 34 anos com um casaco da Fifa sobre os ombros — o árbitro Omar Abdulkadir Artan, que deveria estar se preparando para apitar jogos da Copa do Mundo de 2026, mas estava voltando para casa deportado dos Estados Unidos. O sonho de ser o primeiro juiz somali numa Copa terminou no Aeroporto Internacional de Miami, no último sábado, 6 de junho.

Onze horas numa cela e um visto válido no bolso

Artan desembarcou em Miami com tudo em ordem: era um dos 52 árbitros selecionados pela Fifa para o torneio, tinha visto válido para os EUA e carregava o título de melhor árbitro masculino da África, concedido pela CAF em 2025. Ainda assim, foi submetido a uma inspeção adicional que durou 11 horas — boa parte desse tempo dentro de uma cela. O Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras norte-americano comunicou a decisão de negar entrada por "questões de verificação", sem detalhar o que isso significava. Dias depois, um porta-voz do Departamento de Estado foi mais longe: declarou à AFP que Artan "é suspeito de estar vinculado a supostos integrantes de organizações terroristas" — acusação grave, feita sem apresentação de qualquer prova pública.

A Fifa retirou o árbitro da lista oficial do torneio. O caso ganhou a capa do jornal francês L'Équipe nesta quarta-feira, que retratou o presidente da entidade, Gianni Infantino, como marionete do presidente americano Donald Trump — imagem que sintetiza o desconforto crescente com a relação entre os dois líderes. Infantino já havia aparecido ao lado de Trump no lançamento do Conselho de Paz, usando um boné vermelho, e entregou ao presidente americano o Prêmio da Paz da Fifa durante o sorteio do torneio — premiação criada especialmente para a ocasião, conforme registrado pelo SportNavo e amplamente criticada por especialistas em governança esportiva.

A tempestade que ninguém quis nomear antes da Copa começar

O caso de Artan não surgiu do nada. Ele é o ponto mais visível de uma frente de pressão que se formou lentamente, como nuvem carregada que cresce sem fazer barulho, até virar o temporal que todo mundo viu — mas ninguém quis chamar pelo nome enquanto havia tempo de agir. Torcedores do Irã e do Haiti enfrentam proibição total de entrada nos EUA como espectadores; apenas as delegações técnicas têm autorização. Fãs do Senegal e da Costa do Marfim tiveram os vistos de turismo amplamente suspensos. O governo americano chegou a exigir um depósito de até 15 mil dólares de visitantes de determinados países, valor devolvido só após a saída — medida suspensa para portadores de ingresso pouco antes do início do torneio, mas que revelou a lógica por trás das políticas em vigor.

O atacante iraquiano Aymen Hussein, principal nome da seleção do Iraque, foi detido por cerca de sete horas na imigração antes de ter sua entrada liberada. O fotógrafo oficial da mesma seleção não teve a mesma sorte: visto negado, retornou a Bagdá. A seleção do Irã, concentrada no México, só recebeu autorização para entrar nos EUA no dia de cada partida — com obrigação de sair no mesmo dia. Na terça-feira, 9 de junho, a agência Reuters informou que os iranianos passaram a ter permissão para chegar um dia antes dos jogos.

O que a Somália viu no retorno do árbitro

No aeroporto Aden Abdulle Osman, em Mogadíscio, a recepção foi diferente de tudo que Artan poderia ter imaginado ao embarcar para Miami. Autoridades do governo somali estavam presentes. Centenas de apoiadores aplaudiam. O presidente Hassan Sheikh Mohamud havia declarado, em abril, que o árbitro era "símbolo de inspiração para a nova geração" do país. Diante da multidão, Artan falou com a voz firme de quem escolheu transformar humilhação em combustível:

"Prometo a vocês, se Deus quiser, que estarei presente na próxima edição", disse ele, enquanto centenas de apoiadores agitavam bandeiras da Somália. "Quero que o público somali se conforte com isso e mantenha a confiança."

Antes de embarcar de Istambul para Mogadíscio, o árbitro já havia dado o tom de como pretendia lidar com o episódio. Em entrevista à Reuters no aeroporto turco, disse:

"Estou me sentindo muito bem agora. Queria agradecer à Fifa por me apoiar o tempo todo e também ao povo somali."

Mohamed Said, funcionário do governo somali presente na recepção, resumiu o sentimento coletivo: "Ele foi tratado de forma tão injusta que isso machuca qualquer pessoa preocupada com a humanidade."

O que fica depois que a Copa terminar

Os próprios estatutos da Fifa determinam que a entidade deve ser politicamente neutra. A gestão de Infantino vem sendo cada vez mais questionada por conectar política esportiva internacional a interesses estatais — e o caso Artan cristalizou esse debate de forma que nenhum comunicado oficial conseguirá desfazer. A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história, com 48 seleções disputando 104 jogos em três países: Estados Unidos, México e Canadá. A final está marcada para 19 de julho. Mas a imagem do árbitro africano mais premiado do continente sendo detido numa cela de imigração, com visto válido e escalação oficial da Fifa no bolso, já entrou para o arquivo permanente deste torneio — muito antes de qualquer bola ser chutada.

  • Omar Abdulkadir Artan — barrado em Miami em 6/6, deportado, recebido como herói em Mogadíscio em 10/6
  • Aymen Hussein (Iraque) — detido por 7 horas, liberado; fotógrafo da seleção teve visto negado
  • Seleção do Irã — autorizada a entrar nos EUA apenas nos dias de jogo, com saída obrigatória no mesmo dia (regra flexibilizada na véspera do torneio)
  • Torcedores do Irã e Haiti — proibição total de entrada como espectadores

A Copa começa oficialmente nesta quinta-feira, 11 de junho. Artan, que prometeu estar presente em 2030, inicia agora o ciclo mais longo de sua carreira — com um nome que o mundo inteiro aprendeu a pronunciar da forma mais dura possível.