O silêncio do vestiário dura exatamente o tempo que leva para um atleta amarrar as chuteiras. Depois disso, o barulho do MetLife Stadium — 82 mil pessoas em East Rutherford, Nova Jersey — engole qualquer pensamento. É nesse ambiente que Carlo Ancelotti, aos 64 anos e com quatro Champions Leagues no currículo, vai viver sua primeira partida como técnico numa Copa do Mundo. O adversário é Marrocos, às 19h (horário de Brasília) deste sábado, 13 de junho. O peso, como sempre que se fala de Brasil em Copa, é de 24 anos sem título.

O que os números revelam sobre Brasil e Marrocos

Desde o pentacampeonato de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, o Brasil disputou quatro Copas do Mundo sem chegar sequer a uma final. Em 2006, eliminação nas quartas para a França de Zidane. Em 2010, mesma fase, desta vez para a Holanda. Em 2014, o trauma do 7 a 1 diante da Alemanha, em Belo Horizonte. Em 2022, a derrota nos pênaltis para a Croácia, após empate em 1 a 1, com Marquinhos convertendo a cobrança decisiva para fora. Cada eliminação carrega um peso específico, e a geração atual herda todos eles.

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Do lado marroquino, o retrospecto recente impressiona. Na Copa do Catar, a seleção do norte da África tornou-se a primeira equipe africana a alcançar as semifinais de um Mundial, eliminando Espanha e Portugal pelo caminho. Achraf Hakimi, lateral do PSG, e o goleiro Yassine Bounou foram peças centrais daquela campanha histórica. A estrutura defensiva de Marrocos — compacta, organizada em bloco baixo, eficiente nas transições — é o maior obstáculo que a Copa do Mundo poderia apresentar ao Brasil logo na estreia.

O que os números revelam sobre Brasil e Marrocos Brasil enfrenta Marrocos com An
O que os números revelam sobre Brasil e Marrocos Brasil enfrenta Marrocos com An

O Brasil chega embalado por dois resultados positivos nos amistosos preparatórios: uma goleada de 6 a 2 sobre o Panamá, no Maracanã, e uma vitória por 2 a 1 sobre o Egito, já em solo norte-americano. Números animadores, mas com o asterisco que todo jornalista de Copa aprende a colocar: amistoso não paga ingresso, e Marrocos não é Panamá.

A escalação de Ancelotti e a lateral que virou dúvida Brasil enfrenta Marrocos c
A escalação de Ancelotti e a lateral que virou dúvida Brasil enfrenta Marrocos c

A escalação de Ancelotti e a lateral que virou dúvida

Nos treinos realizados no CT de Columbia Park, em Nova Jersey, Ancelotti praticamente consolidou a equipe titular. O esquema deve ser um 4-2-3-1, com Alisson no gol; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro na defesa; Casemiro e Bruno Guimarães como dupla de volantes; Raphinha, Lucas Paquetá e Vinícius Júnior no meio-ataque; e Matheus Cunha como centroavante.

A maior dúvida surgiu com a lesão de Wesley, cortado da competição antes mesmo de a Copa começar. Danilo, experiente e com passagem pelo Juventus e Manchester City, voltou a atuar pela lateral direita diante do Egito e convenceu a comissão técnica. O zagueiro Ibañez chegou a ser estudado como opção improvisada, mas o veterano de 33 anos deve mesmo começar. Historicamente, o Brasil tem no setor direito um ponto sensível em Copas — em 2014, Maicon já não era o mesmo de 2010, e a lateral foi explorada pela Alemanha no fatídico 7 a 1.

"A evolução defensiva da equipe nos últimos treinos foi notável, especialmente na compactação sem bola e na recomposição pelos lados do campo", destacou a comissão técnica brasileira, segundo informações divulgadas durante a preparação em Nova Jersey.

Paquetá terá liberdade para atuar como meia avançado, conectando os volantes ao trio ofensivo. Essa função, exercida por Ronaldinho Gaúcho em 2002 e por Kaká em 2006, exige do camisa 10 tanto a leitura de jogo quanto a capacidade de pressionar a saída adversária. Ancelotti conhece esse perfil de jogador desde os tempos de AC Milan, e apostou na versatilidade do brasileiro do West Ham.

Decidiu.

Neymar, principal ausência, segue em recuperação de lesão na panturrilha direita sofrida em maio. O camisa 10 não participou das atividades com bola durante a preparação e está fora do confronto contra Marrocos. A comissão técnica trabalha com a expectativa de contar com o atacante ainda na fase de grupos, mas sem qualquer garantia concreta de retorno. Em 2014, Neymar foi o grande protagonista do Brasil até ser lesionado nas quartas de final — e a seleção desmoronou sem ele.

Ancelotti na Copa e o peso de uma geração

Nenhum técnico na história do futebol chegou a uma Copa do Mundo com o currículo de Ancelotti: campeão da Champions League com Milan em 2003 e 2007, com Chelsea da FA Cup em 2010, com Real Madrid em 2014, 2022 e 2024. Mas Copa do Mundo é um torneio diferente, com pressão diferente, e o Brasil tem uma relação particular com o fracasso recente.

"Esta Copa não é como qualquer outra para o Brasil. Vinte e quatro anos é muito tempo. A geração que estava no Japão em 2002 já tem filhos com idade para jogar futebol", conforme registrado pelo SportNavo em cobertura da preparação da Seleção nos Estados Unidos.

Vinícius Júnior, com 25 anos e duas temporadas seguidas de alto nível no Real Madrid, chega como o principal nome ofensivo na ausência de Neymar. Nos dois amistosos preparatórios, o atacante foi decisivo, tanto na construção quanto na finalização. Raphinha, capitão do Barcelona na temporada 2025/2026, acumula atuações consistentes e deve explorar o lado direito do ataque marroquino, onde Mazraoui, ex-Bayern de Munique, tende a subir com frequência.

O Grupo C, formado por Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti, coloca a Seleção numa posição confortável no papel — mas o papel não joga. A estreia em 13 de junho define o tom psicológico de toda a campanha. Uma vitória sobre os marroquinos, semifinalistas em 2022, valeria mais do que três pontos: valeria a narrativa de um Brasil que voltou a impor respeito desde o primeiro jogo.

Após a estreia, o Brasil volta a campo no dia 19 de junho, às 22h, contra o Haiti, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia. O encerramento da fase de grupos acontece em 24 de junho, às 19h, contra a Escócia, no Hard Rock Stadium, em Miami. Para quem vai acompanhar a Copa pelo sofá ou num dos telões espalhados pelo país, vale gravar o jogo desta noite — porque a história do hexa começa aqui, ou não começa.