Quantas mulheres, ao redor do mundo, precisaram morrer para que um regime admitisse que proibir metade da população de assistir a um jogo de futebol é uma aberração? Sahar Khodayari tinha 29 anos quando, em março de 2019, se vestiu de homem para entrar no Estádio Azadi, em Teerã, e assistir a uma partida do Esteqlal, seu clube de coração. Foi presa. Ficou três dias detida. Saiu sob fiança. Meses depois, diante do tribunal que poderia condená-la a até dois anos de prisão, soube que a sessão havia sido adiada — e, segundo relatos de organizações de direitos humanos, ouviu comentários sobre sua sentença. Saiu do prédio e ateou fogo em si mesma. Com mais de 90% do corpo queimado, morreu no Hospital Motahhari, em Teerã, em 10 de setembro de 2019. O futebol, esse esporte que o mundo inteiro celebra como linguagem universal, havia custado a ela a vida.

A pergunta que persiste não é retórica — tem resposta histórica e documentada. Desde 1981, dois anos após a Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini, mulheres iranianas foram progressivamente excluídas dos estádios por pressão de grupos religiosos e políticos conservadores. A proibição nunca foi codificada em lei formal, o que torna o caso ainda mais perverso: trata-se de uma opressão estrutural sem texto legal, sustentada por omissão de infraestrutura e pela ameaça permanente de processo judicial. Quando a Arábia Saudita, em 2018, eliminou sua própria vedação e permitiu que mulheres entrassem em estádios, o Irã tornou-se o único país do mundo a manter esse veto sistemático — um fato registrado e denunciado em relatório da própria Copa do Mundo publicado pela FIFA em novembro daquele mesmo ano.

A FIFA entre o discurso ético e a omissão prática diante do Irã

A interpretação dominante, repetida à exaustão nos corredores do futebol internacional, é a de que a FIFA fez o suficiente ao pressionar o Irã. O relatório de novembro de 2018 foi explícito: a proibição violava o código de ética da entidade, que "proíbe especificamente a discriminação, inclusive com base no sexo". Após a morte de Sahar, a FIFA emitiu nota de condolências à família e renovou cobranças ao governo iraniano. A vice-presidente iraniana para Mulheres e Assuntos Familiares, Masumeh Ebtekar, chegou a pedir investigação formal sobre o caso. Parecia, naquele momento de 2019, que algo mudaria.

A contra-leitura, porém, é implacável: nada mudou de forma estrutural. O Irã seguiu competindo nas eliminatórias asiáticas, classificou-se para a Copa do Mundo de 2022 no Catar — onde, aliás, a seleção enfrentou pressões internas por não cantar o hino nacional em protesto ao regime, num gesto de solidariedade ao movimento Mulher, Vida, Liberdade que eclodiu após a morte de Mahsa Amini — e agora se prepara para disputar a Copa do Mundo 2026 nos Estados Unidos. A FIFA nunca aplicou sanção concreta, nunca suspendeu a federação iraniana, nunca condicionou a participação no torneio à abertura formal dos estádios às mulheres. O futebol, que poderia ser uma alavanca de transformação, funcionou como uma parede de ferro que blindou o regime de consequências reais.

O Irã de 2026 chega aos EUA carregando guerras dentro e fora de campo

A participação iraniana na Copa de 2026 acumula camadas de complexidade sem precedente na história do torneio. A seleção se classificou em 25 de março de 2025, mas os vistos americanos para os jogadores só foram aprovados em 5 de junho de 2026 — menos de duas semanas antes do início da competição. Vários membros da comissão técnica, incluindo o presidente da federação iraniana, Mehdi Taj, tiveram vistos negados. O Departamento de Estado dos EUA declarou publicamente que não permitiria que a delegação iraniana "abusasse do sistema para infiltrar terroristas sob falsos pretextos". O embaixador iraniano no México, Abolfazl Pasandideh, informou que os jogadores foram notificados de que devem entrar e sair do território americano no mesmo dia de cada partida — restrição sem precedente para qualquer seleção participante.

O centro de treinamento foi transferido dos EUA para Tijuana, no México, após aprovação da FIFA, em razão do conflito armado em curso: em 7 de junho de 2026, o Irã lançou ataques com mísseis contra o norte de Israel, dias após forças israelenses atacarem o sul de Beirute. O contexto geopolítico é o mais explosivo desde que o futebol existe como competição global organizada. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo das semanas que antecederam o torneio, nenhuma outra seleção chegou a uma Copa carregando simultaneamente uma guerra ativa, restrições de visto, proibição de torcedoras e o fantasma de Sahar Khodayari.

"Depois de ser levada para a prisão de Gharchak, minha irmã sofreu muitos problemas mentais e ficou aterrorizada", disse a irmã de Sahar à agência estatal iraniana Rokna, em setembro de 2019 — depoimento que a própria agência publicou sem identificar a família pelo nome.

O legado de Sahar e o que o futebol ainda deve às mulheres iranianas

A síntese honesta desta história recusa tanto a narrativa de que o futebol é impotente diante de regimes autoritários quanto a ilusão de que pressão simbólica equivale a mudança real. O caso de Sahar Khodayari produziu efeitos concretos e mensuráveis: em outubro de 2019, um mês após sua morte, o Irã permitiu a entrada de cerca de 3.500 mulheres no Estádio Azadi para assistir a uma partida eliminatória da Copa do Mundo contra o Camboja — a primeira vez em quase quatro décadas. A FIFA, sob pressão, havia ameaçado suspender a federação iraniana. O regime cedeu o mínimo necessário para evitar a sanção, e voltou a restringir o acesso feminino nas semanas seguintes.

O Mehdi Taremi, artilheiro iraniano que marcou gol em amistoso contra a Gâmbia em 29 de maio de 2026 em Antalya, na Turquia, representa a face esportiva de um país que produz futebolistas de alto nível enquanto nega às suas torcedoras o direito de vê-los jogar. A seleção iraniana estreia na Copa do Mundo 2026 carregando esse paradoxo como uma cicatriz que nenhum resultado em campo apagará. O julgamento histórico sobre o que o futebol fez — ou deixou de fazer — pelo caso Sahar Khodayari será escrito não nos placares, mas na resposta que a FIFA der à pergunta que permanece aberta desde setembro de 2019.

"A Fifa estende suas condolências para a família", registrou a entidade em nota oficial após a morte de Sahar — uma frase que, diante da omissão institucional dos anos seguintes, soou como epitáfio de uma promessa nunca cumprida.

Quantas mulheres, ao redor do mundo, precisaram morrer para que um regime admitisse que proibir metade da população de assistir a um jogo de futebol é uma escolha — e não uma inevitabilidade? A Copa do Mundo 2026 começa sem uma resposta definitiva, mas com a memória de Sahar Khodayari presente em cada arquibancada que ela nunca pôde ocupar.