Confesso: eu achei que a FIFA estaria forçando a narrativa ao escalar México x África do Sul como jogo inaugural da Copa do Mundo de 2026. Parecia coincidência demais, roteiro bonito demais para ser acidental. E hoje, depois de ver o Azteca explodir com 87 mil pessoas na tarde desta quinta-feira (11), preciso admitir que estava errada — a história não precisou de ajuda para se fazer dramática.
O México abriu a Copa do Mundo 2026 com uma vitória por 2 a 0 sobre a África do Sul, no Estádio Azteca, em Cidade do México. O resultado — diferente do empate em 1-1 que marcou a abertura do Mundial de 2010, na África do Sul — encerra a simetria do placar, mas preserva a força simbólica do reencontro: as mesmas duas seleções, o mesmo tipo de palco inaugural, dezesseis anos depois.
Como o Azteca reescreveu os primeiros 90 minutos da Copa
Julián Andrés Quiñones abriu o marcador logo aos 9 minutos, dando ao México o melhor começo possível diante de sua própria torcida. A primeira etapa, porém, foi equilibrada — a África do Sul teve suas chances, e o placar poderia ter mudado se não fosse uma bola no poste e uma defesa do goleiro Williams em lance de risco mexicano.
O segundo tempo trouxe mais tensão e menos futebol. Aos 50 minutos, Sphephelo Sithole recebeu cartão vermelho após falta na entrada da área — a expulsão desequilibrou o jogo estruturalmente. Com um homem a mais, o México administrou e ampliou: aos 67 minutos, Raúl Jiménez completou de cabeça um cruzamento de Alvarado para marcar o 2 a 0. O sul-africano Zwane foi expulso aos 84, e o mexicano César Montes no acréscimo — três cartões vermelhos no jogo inaugural, recorde para uma abertura de Copa do Mundo sob o comando do árbitro brasileiro Wilton Sampaio.
A cerimônia que antecedeu a partida — com Shakira cantando Dai Dai, a música oficial do torneio — durou uma hora e meia, mobilizando um elenco internacional de artistas. Mas foi dentro de campo que o espetáculo ganhou corpo e tensão reais.
O peso de 2010 e o que mudou para as duas seleções
Naquele 11 de junho de 2010, em Johannesburgo, México e África do Sul protagonizaram o jogo inaugural do primeiro Mundial realizado em solo africano. O empate em 1 a 1 — com gol de Siphiwe Tshabalala para os donos da casa e empate de Rafael Márquez para o México — ficou gravado como um dos momentos mais emocionantes da história recente das Copas. A seleção espanhola acabou levantando a taça naquele torneio.
Dezesseis anos depois, os contextos são radicalmente distintos. O México — agora coorganizador ao lado de Estados Unidos e Canadá — tornou-se o primeiro país a sediar três edições da Copa do Mundo, após 1970 e 1986. O técnico Javier Aguirre, em sua terceira passagem pelo cargo, chegou ao torneio carregando o histórico de duas eliminações nas oitavas de final: em 2002, contra os Estados Unidos, e em 2010, contra a Argentina.
"O objetivo é fazer o melhor Mundial da história do México", declarou Aguirre antes da partida, ciente de que o teto histórico da seleção tricolor são as quartas de final, atingidas em 1970 e 1986, ambas as vezes como anfitrião.
A África do Sul, por sua vez, retornava ao torneio após 16 anos de ausência — os Bafana Bafana não disputavam uma Copa desde aquela edição histórica em que foram sede. O jejum terminou com uma derrota, mas a presença sul-africana — a única seleção africana no Grupo A junto a Coreia do Sul e República Checa — reacende o debate sobre a representatividade continental no novo formato expandido do torneio.
O que a vitória mexicana define no Grupo A nas próximas semanas
Com os três pontos, o México assume a liderança do Grupo A e cria uma margem de conforto — ainda que provisória — para as rodadas seguintes contra Coreia do Sul e República Checa. A África do Sul, eliminada de qualquer cenário de facilidade, precisará vencer os dois jogos restantes para ter chances reais de classificação.
Os últimos resultados pré-Copa do México não eram animadores, mas a goleada por 5 a 1 sobre a Sérvia no amistoso preparatório final reduziu a pressão. A vitória sobre a África do Sul consolida esse momentum — e o desempenho de Raúl Jiménez, autor do segundo gol aos 34 anos, sinaliza que o veterano ainda tem papel central no esquema de Aguirre.
No Brasil, a transmissão pelo SBT reuniu mais de 8 milhões de espectadores em território nacional durante o jogo — número que superou o pico de audiência da plataforma de streaming que também transmitiu a partida. O canal ficou na vice-liderança do Painel Nacional de Televisão na faixa das 16h às 18h, com média de 4,18 pontos e pico de 4,49, confirmando o apetite do público brasileiro pela Copa mesmo sem a Seleção em campo.
O México volta a campo pelo Grupo A contra a Coreia do Sul, enquanto a África do Sul enfrenta a República Checa — ambos os jogos definirão se a abertura vitoriosa dos anfitriões foi ponto de partida ou apenas alívio momentâneo. Está em campo o melhor México da história — falta provar que o Azteca não é o limite.








