A última vez que um Mundial produziu um campeão inesperado foi em 2022, quando a Argentina de Scaloni encerrou 36 anos de jejum argentino — mas antes disso, em 2010, a Espanha derrubou o Brasil ainda nas quartas sem que nenhum supercomputador do planeta soubesse exatamente o que estava por vir. Guardar esse precedente é o primeiro exercício honesto antes de mergulhar nos números que a Copa do Mundo 2026 produziu ao final de sua fase de grupos: os dados da Opta e o ranking do comentarista Gian Oddi, da ESPN, revelam hierarquias, sim — mas também escondem tensões que nenhuma planilha captura por inteiro.

O que a Opta enxerga que o olho nu ainda não viu

Números frios têm o mérito de cortar o ruído. Segundo a análise estatística do supercomputador da Opta, a maior favorita dos 16 avos é a Argentina, com espantosos 86,2% de probabilidade de avançar contra Cabo Verde — os cabo-verdianos, estreantes em Copas, ficam com míseros 13,8%. Logo atrás vem a Inglaterra, com 83,6% contra a República Democrática do Congo, e a França, com 81,6% diante da Suécia. A Espanha aparece com 79% sobre a Áustria, e a Alemanha com 78,5% contra o Paraguai.

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O dado que mais incomoda os torcedores brasileiros, entretanto, não é o favoritismo — é a margem. O Brasil tem 68,3% de chance de eliminar o Japão, enquanto os asiáticos retêm 31,7%. Para quem cresceu vendo o Brasil ser apresentado como candidato natural ao título, a sensação é a do trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira: o caminho existe, mas não há nada de linear nele. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, a seleção de Carlo Ancelotti perdeu titulares por lesão, ajustou o time rodada a rodada e ainda carrega dúvidas defensivas reais.

"Após perder vários titulares por lesões, foi acertando o time a cada jogo. Nenhuma atuação brilhante e algumas dúvidas defensivas, é verdade. Mas a boa organização contra a Escócia, o protagonismo de Vini Jr., a dedicação tática dos demais atacantes e as boas opções de banco aumentam um pouco a cotação em relação ao início da Copa." — Gian Oddi, ESPN

O ranking da ESPN e a anatomia das decepções

Gian Oddi não montou seu ranking de forças apenas com base nos resultados brutos — ele cruzou desempenho com potencial não exibido, o que torna a lista ainda mais reveladora. A África do Sul fecha o ranking em 32º lugar, classificada como a pior seleção do mata-mata. Os sul-africanos chegaram aos 16 avos com apenas 32,3% de probabilidade de eliminar o Canadá, anfitrião que, apesar de irregular, carrega o peso de jogar em casa.

A Portugal de Cristiano Ronaldo recebeu um diagnóstico severo: 7ª no ranking de forças, apesar do elenco de altíssimo nível. O comentarista foi direto ao ponto sobre os lusitanos:

"Aqui são os 5 a 0 sobre o Uzbequistão que valem pouco. Primeira fase decepcionante não só pelas atuações nos empates com Congo e Colômbia, mas também pelo desempenho individual daqueles que compõem um dos três melhores elencos da Copa. Por ter sido 2º, terá um caminho duríssimo." — Gian Oddi, ESPN

A Alemanha ocupa o 8º posto com ressalvas igualmente duras: a goleada sobre Curaçao não conta como evidência de qualidade, a imprensa alemã fala em crise entre técnico e jogadores, e a decisão de escalar titulares contra o Equador foi questionada. A Opta, ainda assim, coloca os germânicos com 78,5% de chance de superar o Paraguai — o que sugere que reputação histórica ainda pesa nos algoritmos tanto quanto nos torcedores.

Vini Jr., Bellingham e a seleção da terceira rodada

Antes de o mata-mata começar, a fase de grupos produziu sua última seleção de destaques, montada pelo Estadão no esquema 4-3-3. O Brasil e Portugal foram os únicos países com dois representantes cada. Vini Jr. encabeçou o trio de ataque após marcar dois gols na vitória por 3 a 0 sobre a Escócia e ser eleito o melhor em campo — números que sustentam sua posição como o jogador mais decisivo da Seleção Brasileira neste torneio. Ao lado dele ficaram Oumane Dembélé, autor de hat-trick na goleada francesa sobre a Noruega, e Yoane Wissa, da República Democrática do Congo, com dois gols sobre o Uzbequistão.

No meio-campo, Jude Bellingham deixou sua marca na vitória inglesa por 2 a 0 sobre o Panamá. Luka Modric, com uma assistência na vitória da Croácia por 2 a 1 sobre Gana, segue sendo o maestro de uma equipe que aparece em 16º no ranking de Oddi — posição que pode subestimar a experiência do veterano croata em eliminatórias. O goleiro escolhido foi Diogo Costa, de Portugal, que realizou seis defesas difíceis no empate sem gols contra a Colômbia. O técnico da rodada foi Javier Aguirre, do México, que terminou a fase de grupos com 100% de aproveitamento.

Argentina lidera, mas os azarões têm nome e sobrenome

O confronto mais aberto do mata-mata, segundo a Opta, é o duelo entre Egito e Austrália: 54% a 46%, uma margem tão estreita que qualquer análise prévia equivale a cara ou coroa. O segundo mais equilibrado é Bélgica x Senegal — 56,7% a 43,4% —, e o terceiro é Holanda x Marrocos, com 61% a 39%. São justamente esses jogos que historicamente produzem os maiores sobressaltos em Copas do Mundo.

A hierarquia geral dos favoritos, pela Opta, coloca a Argentina no topo, mas o ranking de forças da ESPN sugere que Espanha e Inglaterra chegam ao mata-mata com elencos mais sólidos do que seus resultados na fase de grupos indicaram. A Espanha, 3ª no ranking de Oddi, goleou uma Arábia Saudita fragilizada, empatou com Cabo Verde e precisou de uma falha do goleiro uruguaio Muslera para vencer o eliminado Uruguai — e ainda assim aparece com 79% de probabilidade de avançar sobre a Áustria. O Brasil enfrenta o Japão nesta segunda-feira, 29 de junho, às 14h (de Brasília), no NRG Stadium, em Houston, precisando confirmar o favoritismo estatístico para manter vivo o sonho do heptacampeonato.