Qual é o pior pesadelo que Carlo Ancelotti poderia desenhar num guardanapo de hotel em Houston? Não é uma pergunta retórica vazia — é exatamente o exercício que técnicos, analistas e torcedores brasileiros estão fazendo desde que o Brasil carimbou sua classificação na liderança do Grupo C. O chaveamento da Copa do Mundo 2026 tem uma crueldade geométrica: dependendo do que acontecer nos próximos dois dias, a Seleção Brasileira pode encontrar a França já nas oitavas, a Inglaterra nas quartas, a Argentina na semifinal e a Espanha — ou Portugal — na final.

O ar de Houston em 29 de junho vai estar carregado de umidade e expectativa. Às 14h (horário de Brasília), o Brasil entra em campo contra o segundo colocado do Grupo F — ainda indefinido nesta quinta-feira, 25, após o confronto entre Holanda, Japão e Suécia. Mas o adversário das oitavas é, talvez, o menor dos problemas quando se olha o quadro completo do mata-mata.

JAPÃO X SUÉCIA | COPA DO MUNDO 2026 | 3ª RODADA | FASE DE GRUPOS AO VIVO COM IMAGENS

A ameaça francesa que pode aparecer já na segunda rodada

A interpretação dominante entre os analistas é que a França — atual vice-campeã mundial — representa o maior risco imediato ao Brasil. Tudo depende do Grupo I, definido nesta sexta-feira, 26, no confronto direto entre franceses e noruegueses. Se a França vencer e segurar a liderança da chave, o Brasil só a encontraria em uma eventual final. Mas se a Noruega virar a chave — e Erling Haaland, que já marcou 8 gols em Copas do Mundo antes dos 26 anos, tem capacidade para isso —, os franceses caem para o segundo lugar e cruzam com o Brasil nas oitavas.

Kylian Mbappé, Aurélien Tchouaméni e uma defesa que sofreu apenas 2 gols na fase de grupos: esse é o perfil de uma equipe que Ancelotti conhece bem — melhor do que qualquer outro técnico do mundo, dado que treinou Mbappé no Real Madrid. Segundo relatos da imprensa europeia, o técnico italiano já mapeou os padrões de pressão francesa com base em dados coletados durante a temporada 2025/2026 do clube merengue.

O cenário que faz os bastidores da CBF perderem o sono

A contra-leitura, porém, aponta para um caminho ainda mais tortuoso — e ele passa pela Argentina. A Albiceleste, classificada antecipadamente na liderança do Grupo J, está posicionada no chaveamento de forma a encontrar o Brasil na semifinal. Lionel Scaloni tem um elenco que combina a experiência de Lionel Messi — já com 12 gols em fases eliminatórias de Copas — com a explosão de Julián Álvarez e Enzo Fernández. Um Brasil x Argentina de semifinal seria, numericamente, o confronto de maior audiência televisiva da história do esporte, superando os 1,5 bilhão de espectadores estimados para a final de 2022.

A Inglaterra — na liderança do Grupo L — entra nesse quebra-cabeça como possível adversária nas quartas de final, caso mantenha o primeiro lugar. Se cair para o segundo, o encontro migraria para a semifinal ou final. Jude Bellingham, que terminou a temporada 2025/2026 do Real Madrid como vice-artilheiro da La Liga com 19 gols — mais do que todos os atacantes titulares do Brasil somados na mesma competição —, seria o nome a ser parado por Ancelotti num eventual duelo anglo-brasileiro.

"Cada fase tem um adversário diferente, mas a preparação é a mesma — respeitamos todos e temos medo de ninguém", disse Ancelotti em coletiva após a classificação brasileira, conforme registrado pelo SportNavo.

Espanha e Portugal fecham o mapa do inferno verde-amarelo

A síntese desse tabuleiro exige olhar para os dois extremos do chaveamento. A Espanha — na liderança do Grupo H, com definição nesta quinta-feira contra o Uruguai às 21h — só enfrentaria o Brasil na final se mantiver o primeiro lugar. Caindo para o segundo, o duelo anteciparia para a semifinal. E se avançar como terceiro colocado, as quartas de final já teriam sabor de decisão. Os espanhóis chegam com Pedri, Yamal e uma posse de bola que, na fase de grupos, girou em torno de 67% — número que sufoca qualquer sistema de contra-ataque.

Portugal, atualmente segundo no Grupo K, enfrenta a Colômbia no sábado, 27. Se a classificação atual for mantida, os lusitanos só encontram o Brasil em uma eventual final. Mas uma virada para a liderança colocaria Cristiano Ronaldo — em sua provável última Copa do Mundo aos 41 anos — frente a frente com Vinicius Jr. na semifinal. A Alemanha, líder do Grupo E, caiu no lado oposto do chaveamento e só apareceria numa final, o que representa, paradoxalmente, o único alívio do cenário brasileiro.

"O caminho até a taça nunca foi fácil para o Brasil, mas este pode ser o mais exigente desde 1970", avaliou o ex-técnico Vanderlei Luxemburgo em entrevista à rádio Bandeirantes nesta semana.

O Brasil estreia no mata-mata na segunda-feira, 29 de junho, às 14h (Brasília), no NRG Stadium em Houston, contra o segundo colocado do Grupo F — Holanda, Japão ou Suécia, a ser definido ainda nesta quinta. A resposta sobre qual caminho o Brasil vai percorrer começa a ser escrita nas próximas 48 horas, nos gramados de outros grupos. Ancelotti já tem os planos no bolso. O mundo quer ver se eles sobrevivem ao contato com a realidade do mata-mata.