Todo mundo sabe que o Brasil perdeu por 1 a 0 para os Estados Unidos no Castelão. O que poucos perceberam, enquanto ainda processavam o placar, foi que o verdadeiro incêndio começou bem antes do apito final — e que Arthur Elias saiu de campo expulso, com uma acusação que não se dissolve em 48 horas: xenofobia dentro do gramado, praticada por um trio de arbitragem espanhol contra a delegação brasileira.
Quatro expulsões e uma quarta-árbitra invisível
A árbitra Paola Cebollada López, da Espanha, conduziu o jogo com mão pesada no segundo tempo. Bia Zaneratto e Tarciane foram expulsas ainda durante os 90 minutos. Ao apito final, Kerolin e Ludmila também levaram cartão vermelho por reclamação — um total de quatro atletas brasileiras punidas em uma única partida. Para efeito de comparação, nas últimas três edições da Copa do Mundo Feminina (2015, 2019 e 2023), o Brasil somou cinco expulsões em toda a campanha de cada torneio. Aqui, em um único amistoso, o número chegou perto disso.

Mas a acusação de Arthur Elias vai além dos cartões. Ele apontou um problema estrutural de comunicação: a quarta-árbitra brasileira, identificada como Débora, teria sido sistematicamente ignorada pelas espanholas ao longo do jogo. Segundo o técnico, não era a primeira vez.
"A quarta-árbitra brasileira não consegue se comunicar direito com as espanholas, que também não estão nem aí para ela. Foi nesse jogo, foi no jogo anterior, a Rejane me falou isso, que ela falava e as espanholas também não ligavam para ela. Era assim com a Débora hoje também. Acho que o jogo foi condicionado o tempo inteiro pela arbitragem", declarou Arthur Elias em coletiva pós-jogo.
A quarta-árbitra existe exatamente para servir de canal de comunicação entre o banco de reservas e o trio principal. Quando esse canal é bloqueado — seja por barreira linguística, seja por postura deliberada — a assimetria de tratamento entre as equipes se torna estrutural, não episódica.
A palavra xenofobia e o que as regras da FIFA dizem
Arthur Elias não usou o termo de forma leviana. Ele o repetiu três vezes em diferentes momentos da entrevista coletiva, deixando claro que se tratava de uma convicção, não de um desabafo de momento.
"São várias situações que são reflexo de uma xenofobia que a gente sofre. Isso vai vir para a Copa do Mundo. Eu garanto a vocês que é xenofobia, que a seleção brasileira foi desrespeitada muitas vezes e eu não estou falando isso agora, eu falo isso internamente"
O Código Disciplinar da FIFA, em seu artigo 57, classifica qualquer conduta discriminatória — incluindo xenofobia — como infração gravíssima, passível de punição tanto para atletas quanto para membros de comissões técnicas e, em tese, para árbitros. O problema prático é que acionar esse dispositivo contra um trio de arbitragem exige provas documentais robustas: registros de áudio, imagens e depoimentos formais. Reclamações verbais em coletiva, por mais contundentes que sejam, raramente chegam ao estágio disciplinar.
Marta, que viveu de perto a tensão do segundo tempo, foi direta ao avaliar a postura da árbitra principal: segundo a camisa 10, Paola López "queria ser a principal figura do espetáculo". A meio-campista Angelina foi além e contestou as decisões do VAR da partida, sugerindo que o sistema de revisão também operou de forma assimétrica.
O xG do jogo e o que o dado revela sobre o contexto real
Há um dado técnico que ajuda a enquadrar a derrota para além da polêmica arbitral. O Expected Goals — ou xG, métrica que calcula a probabilidade de cada chance virar gol com base no ângulo, distância e tipo de finalização — apontou que o Brasil gerou oportunidades suficientes para ao menos empatar a partida. Jogando com duas jogadoras a menos por parte do segundo tempo, o índice de criação ofensiva brasileira despencou abaixo de 0,4 xG no período mais crítico, o que evidencia o impacto direto das expulsões no potencial de ataque. Para o leigo: o Brasil criou chances de gol que, em condições normais de efetividade, resultariam em pelo menos um gol. A desvantagem numérica tornou essa equação impossível de fechar.
Essa perspectiva não inocenta a arbitragem nem confirma xenofobia — mas situa o leitor: o problema não foi ausência de qualidade técnica brasileira. Foi o jogo jogado em condições diferentes das que deveriam existir.
O caminho até a Copa do Mundo e a urgência do caso nos bastidores da CBF
A Copa do Mundo Feminina de 2027 será disputada no Brasil. Arthur Elias foi explícito ao afirmar que o padrão de arbitragem vivenciado contra os EUA pode se repetir no torneio, e que a pressão precisa ser exercida agora — nos bastidores da FIFA e na cobertura da imprensa — para que o cenário mude. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o recorde de 55.744 torcedores no Castelão já havia mostrado que o futebol feminino brasileiro tem audiência para sustentar essa pressão publicamente.
Historicamente, seleções anfitriãs de Copas do Mundo têm conseguido influenciar a designação de árbitros por meio das confederações continentais. A CBF terá, nos próximos 12 meses, a janela mais importante para protocolar formalmente as queixas junto à FIFA — com registro de ocorrências, laudos técnicos e, se possível, apoio de outras confederações sul-americanas que eventualmente tenham vivenciado situações similares com trios europeus.
A Seleção Feminina volta a campo em data ainda a ser confirmada pela CBF para os próximos amistosos do ciclo preparatório. A delegação brasileira deixou o Castelão com a derrota no placar, Dudinha no departamento médico por lesão — e uma acusação formal de xenofobia que agora precisa de um endereço institucional para chegar.
Arthur Elias saiu do gramado expulso, de braços cruzados, olhando para trás. A imagem diz mais sobre o estado das coisas do que qualquer placar poderia expressar.








