— Cara, o Flamengo vai receber uma grana boa da FIFA pelos convocados, né?
— Cinco mil dólares por jogador por dia. O Bap tá furioso.
— Quer dizer que o clube que formou o Paquetá recebe o equivalente a uma diária de hotel cinco estrelas em Zurique?

A cena pode ser de qualquer boteco carioca, mas a questão é absolutamente séria. O presidente do Flamengo, Bap, veio a público criticar o modelo de compensação financeira adotado pela FIFA para a Copa do Mundo de 2026. A entidade paga US$ 5 mil por jogador convocado por dia de utilização, com teto de 25 dias. Para o Rubro-Negro, que tem nove atletas distribuídos entre quatro seleções — Brasil, Uruguai, Equador e Colômbia —, isso representa cerca de R$ 225 mil diários. No acumulado do período máximo, a conta fecha em torno de US$ 1,125 milhão. Para um clube com orçamento anual na casa dos R$ 1,5 bilhão, o número é, no mínimo, simbólico.

O que Bap disse e por que isso vai além do Flamengo

Em entrevista ao UOL, Bap não poupou palavras para descrever sua insatisfação com o critério da FIFA.

"Poucos clubes sofrem problemas porque muitos não têm tantos jogadores convocados. Então não há um senso de solidariedade entre os clubes no assunto, nem mesmo no critério de compensação financeira", afirmou o presidente, antes de completar: "Veja só, 5 mil dólares por dia com teto de 25 dias pela utilização do seu ativo. Você não tem o direito de opinar sobre o valor da remuneração do seu ativo. E esses valores só serão pagos em dezembro."

Dois pontos merecem atenção nessa declaração. O primeiro é estrutural: a FIFA estabelece unilateralmente o valor de um ativo que pertence ao clube. O segundo é temporal: o pagamento ocorre em dezembro de 2026, meses após o encerramento do torneio. Para um clube que perde jogadores titulares durante semanas em plena temporada — com riscos de lesão e desgaste físico embutidos —, receber a compensação com seis meses de atraso é uma equação de difícil digestão financeira.

Um conflito que tem raízes na Europa dos anos 90

Quem acompanhou o futebol europeu na virada do milênio reconhece o padrão. Em 1998, quando a Copa da França consagrou Zidane, os grandes clubes italianos e espanhóis já travavam uma batalha silenciosa com a FIFA e as confederações sobre o mesmo tema: quem paga o custo real de uma convocação? O Milan de Sacchi, que tinha seis jogadores na Copa de 1994, calculou internamente que o custo de um torneio — incluindo preparação, risco de lesão e substituições emergenciais — superava em quatro vezes o valor recebido das federações. A FIFA formalizou o mecanismo de compensação apenas em 2010, com o Club Protection Programme, que entrou em vigor para o Mundial da África do Sul. Naquela edição, o valor por jogador por dia era de US$ 1.000. Em 2014, no Brasil, subiu para US$ 2.500. Em 2018 e 2022, chegou a US$ 3.000. O salto para US$ 5.000 em 2026 representa um aumento nominal de 67% em relação ao ciclo anterior — mas, corrigido pela inflação do dólar desde 2022, o ganho real é bem menor.

Há um dado histórico que contextualiza bem a reclamação de Bap: quando o Barcelona viu Iniesta, Xavi, Puyol, Villa, Pedro e Busquets levantarem a taça em Johanesburgo em 2010, o clube catalão chegou a publicar internamente que o custo total de ter seis jogadores na Copa — entre perda de pré-temporada, risco de lesão e reposição de elenco — ultrapassava os 8 milhões de euros. A compensação recebida da FIFA naquele ano? Pouco menos de 900 mil euros pelo conjunto de atletas.

Os nove convocados do Flamengo e o peso real da ausência

O Flamengo de 2026 chega à Copa como o clube brasileiro com mais representantes no torneio. Pela Seleção Brasileira, são quatro nomes: Danilo, Léo Pereira, Alex Sandro e Lucas Paquetá. O Uruguai leva Arrascaeta, De La Cruz e Varela. O Equador convocou Plata, e a Colômbia, Carrascal. São nove jogadores, quatro seleções, quatro comissões técnicas diferentes, quatro cronogramas de viagem e recuperação que o departamento médico do Rubro-Negro não controla.

Qual clube europeu aceitaria ceder nove titulares por 25 dias sem poder negociar o valor da cessão?

A resposta óbvia é: nenhum faria isso sem pressão regulatória. E aí está o nó do argumento de Bap. O mecanismo da FIFA não é um acordo comercial — é uma obrigação estatutária. Os clubes são compelidos a liberar jogadores para competições de seleções, sob pena de sanção. A compensação existe, mas não é negociável. Para clubes como o Bayern de Munique, o Manchester City ou o próprio Flamengo, que constroem elencos caros e dependem de cada jogo do calendário para manter receitas de TV e patrocínio, a assimetria é evidente.

Segundo levantamento publicado no SportNavo durante a fase de convocações, o Flamengo é o clube brasileiro que mais vai arrecadar com o mecanismo de compensação nesta edição — exatamente por ter o maior número de convocados. Ainda assim, R$ 225 mil por dia representam menos de 0,02% do orçamento anual do clube.

A falta de solidariedade entre clubes que Bap denuncia

O ponto mais político da fala de Bap é a crítica à falta de coesão entre os próprios clubes. Quando apenas uma minoria das equipes tem cinco ou mais convocados, a maioria não sente o problema na pele — e, portanto, não pressiona a FIFA por uma revisão mais justa do modelo. Em 2022, no Catar, apenas 13 clubes tiveram mais de cinco jogadores convocados simultaneamente. O restante dos 440 clubes que cederam atletas ao torneio tinha entre um e três representantes, uma ausência que mal afetava a escala de jogos domésticos.

O que Bap disse e por que isso vai além do Flamengo Bap detona a FIFA e expõe o
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Essa fragmentação de interesses é o que a FIFA historicamente explorou bem. Quando o Barcelona, o Real Madrid e o Bayern tentaram articular uma frente comum nos anos 2000 — o chamado G-14, grupo de clubes de elite europeus — a entidade respondeu com negociações bilaterais que diluíram a pressão coletiva. O G-14 foi dissolvido em 2008, e a FIFA criou o Fórum dos Clubes como substituto, um órgão consultivo sem poder de voto real. O modelo de compensação de 2026 é, em certa medida, herdeiro direto desse arranjo.

Para o Flamengo, a situação tem uma camada adicional: o clube paga salários em reais, mas compete em mercados dolarizados de contratação. Quando Léo Pereira ou Arrascaeta se lesionam numa Copa do Mundo, o custo de reposição é calculado em euros ou dólares — não nos US$ 5 mil diários que a FIFA devolve meses depois. Até dezembro de 2026, o clube terá que administrar esse déficit por conta própria.