Se o Barcelona tivesse aproveitado metade dos 952 milhões de euros gastos em 82 reforços nos últimos cinco anos, provavelmente teria construído uma das equipes mais sólidas da Europa. Não aproveitou. O número, levantado pelo portal GE, sintetiza um dos maiores paradoxos do futebol moderno: o clube com mais gastos em contratações no período segue em busca de um elenco que funcione como unidade.
A realidade que o dado projeta é incômoda. Dos 82 jogadores contratados, uma parcela ínfima se tornou titular indiscutível. Nomes como Frenkie de Jong — chegado por 75 milhões de euros — viveram temporadas irregulares antes de encontrar alguma consistência. Antoine Griezmann, adquirido por 120 milhões, registrou em sua primeira temporada completa pelo clube a pior média de gols desde 2011/2012: apenas 14 tentos em 43 jogos. O lateral Junior Firpo (18 milhões) e o goleiro Neto (26 milhões) também integraram a lista de contratações que não corresponderam à expectativa financeira.
Como 952 milhões foram gastos sem construir um elenco
O padrão de aquisições do Barcelona nos últimos cinco anos revela um problema estrutural que vai além de escolhas individuais mal feitas. A diretoria encadeou contratações caras com planejamento fragmentado, sem uma identidade tática clara que orientasse o perfil dos reforços. A troca de Arthur por Miralem Pjanic — operação contábil criticada à época — exemplificou a lógica de curto prazo que dominou as decisões: resolver o balanço financeiro imediato em detrimento da construção esportiva de médio prazo.
Quando o clube precisou de reforços urgentes para cobrir as lesões de Luis Suárez e Ousmane Dembélé, a solução foi Martin Braithwaite, contratado do Leganés por 18 milhões de euros em janela de inverno. O atacante dinamarquês marcou apenas um gol em sete jogos. A operação simbolizou o descompasso entre a urgência do vestiário e a capacidade real de resposta da diretoria — que, naquele momento, já acumulava crises internas, incluindo o escândalo das críticas orquestradas nas redes sociais e a saída de seis diretores em abril.
Quando os números de arrecadação aparecem no balanço, o contraste é ainda mais evidente. O clube conseguiu recuperar aproximadamente 159 milhões de euros com vendas no mesmo período — sendo as mais expressivas as de Malcom (41 milhões ao Zenit), Cillessen (35 milhões ao Valencia) e André Gomes (25 milhões ao Everton). Ou seja: para cada euro recuperado com saídas, foram gastos quase seis com entradas. Essa proporção, analisada pelo SportNavo a partir dos dados disponíveis, é insustentável para qualquer clube que enfrente restrições de fair play financeiro.
Anthony Gordon e a lógica que se repete na janela atual
Quando o Barcelona anuncia negociações por Anthony Gordon, do Newcastle, por valores entre 70 e 80 milhões de euros, o padrão volta à tona. O atacante inglês de 25 anos tem credenciais reais: 17 gols e cinco assistências em 46 jogos pela temporada 2025/2026 da Premier League, além de uma Copa do Mundo de 2026 pela Inglaterra no horizonte. Contratado pelo Newcastle em 2023 por cerca de £45 milhões, Gordon se consolidou como um dos melhores pontas da liga inglesa, atuando principalmente pelo lado esquerdo.
Segundo o jornal espanhol Marca, o Barcelona já chegou a um acordo com o jogador e agora negocia diretamente com o Newcastle. Gordon recebeu propostas do Arsenal, do Liverpool e do Bayern de Munique — clube que, segundo o especialista em transferências Sacha Tavolieri, também teria entrado em contato com os assessores do jogador. Mas o inglês teria dado prioridade ao projeto catalão.
"Gordon não estaria, em princípio, avesso a uma transferência para Munique", indicou Tavolieri — o que reforça que a concorrência por ele é real e que o Barcelona precisará agir rápido para não perder o alvo.
O Bayern, porém, enfrenta obstáculos próprios. Com Michael Olise, Serge Gnabry, Luis Diaz e Harry Kane compondo o ataque titular, e Jamal Musiala retornando à melhor forma, a necessidade por Gordon não é urgente o suficiente para justificar um investimento perto de 80 milhões. O Newcastle, por sua vez, só pensa em liberar o jogador mediante pagamento próximo de 110 milhões de euros — o que tornaria a negociação com o Arsenal, que teria disponibilidade de até 92 milhões segundo Tavolieri, também viável.
O que o histórico de gastos diz sobre o presente do clube catalão
Quando se examina a trajetória de contratações do Barcelona desde 2021, o que chama atenção não é apenas o volume de dinheiro gasto, mas a ausência de critério acumulado. Quando o clube erra em uma janela, a resposta costuma ser gastar mais na seguinte — e não revisar o processo de scouting, o alinhamento com o técnico ou a coerência tática das escolhas.
A chegada de Quique Setién em janeiro de 2020 para substituir Ernesto Valverde, por exemplo, abriu fissuras profundas entre diretoria e elenco que levaram meses para se manifestar publicamente. A tensão entre Lionel Messi e o diretor de futebol Éric Abidal, as demissões de diretores e a redução salarial de 70% durante a pandemia compuseram um ambiente de instabilidade que contaminou as escolhas esportivas. Nenhuma contratação cara resolve um vestiário em conflito com a gestão.

O Barcelona de 2026 tenta um recomeço. A negociação por Gordon é acompanhada de conversas sobre um centroavante — com João Pedro, do Arsenal, e Julián Álvarez, do Atlético de Madrid, como nomes mais cotados. Mas a história recente impõe uma pergunta que os números não deixam ignorar: o clube tem hoje o aparato institucional para transformar investimento em competitividade?
A resposta depende menos de quanto o Barcelona vai gastar na próxima janela e mais de como vai decidir em quem gastar. Gordon pode ser a contratação certa — tem perfil técnico, tem 25 anos, tem Copa do Mundo pela frente. Pode ser também mais um nome que engrossa a lista dos 82 — e o bilhão que não virou título.










