Não, Marcelo Bielsa não é o problema do Uruguai. Essa leitura fácil, que já circula nas redes desde o apito final em Guadalajara, inverte a ordem do diagnóstico. O problema da Copa do Mundo de 2026 para a Celeste foi a incapacidade de transformar domínio territorial em gols — uma crise de efetividade que nenhum sistema tático, por mais sofisticado que seja, resolve sozinho. Bielsa entregou uma equipe organizada, de alta intensidade e com identidade clara. O que faltou foi o instinto clínico diante do gol adversário, e isso custou a eliminação na fase de grupos pela segunda Copa consecutiva.

O vestiário que rachou antes da Espanha entrar em campo

Os sinais de tensão interna no grupo uruguaio não surgiram no apito final contra a Espanha. Nos dias que antecederam o confronto decisivo em Guadalajara, relatos apontavam que jogadores como Rodrigo Bentancur, Federico Valverde e Sergio Rochet teriam confrontado Bielsa sobre escolhas táticas e de elenco — um racha que, independentemente de sua extensão real, revelava um ambiente longe da coesão necessária para uma Copa do Mundo. O próprio Agustín Canobbio, do Fluminense, que começou o torneio no banco e foi ganhando espaço ao longo da competição, precisou ser afastado por um auxiliar após encarar o árbitro nos acréscimos da derrota. Seu cartão vermelho, por entrada dura em Pau Cubarsí, foi o símbolo de uma partida que já estava perdida dentro e fora de campo.

"Tem que fazer muita autocrítica, corrigir muitas coisas adentro, o grupo tem que estar unido e seguir para frente", afirmou Canobbio logo após o jogo decisivo.

A declaração do atacante é, ao mesmo tempo, honesta e reveladora. Quando um jogador pede união do grupo depois de uma eliminação, a frase funciona como confissão involuntária: a unidade que deveria ter sustentado a campanha nunca foi plena. Bielsa, historicamente, exige adesão total ao seu modelo — e qualquer fissura no vestiário tende a aparecer justamente nos momentos em que o placar aperta.

Três jogos, seis pontos perdidos e uma efetividade inexistente

A campanha uruguaia no Grupo H foi um retrato fiel das contradições do projeto bielsista aplicado a um elenco em transição geracional. Na estreia, empate em 1 a 1 com a Arábia Saudita — adversário que, em qualquer análise objetiva de ranking FIFA e qualidade de elenco, deveria ser batido. Na segunda rodada, novo empate, desta vez 2 a 2 com Cabo Verde, seleção debutante na história das Copas do Mundo. Kevin Pina abriu o placar para os cabo-verdianos de falta direta; Araújo e o próprio Canobbio viraram ainda no primeiro tempo; Hélio Varela aproveitou um erro coletivo de Olivera e Muslera para empatar no segundo tempo. Dois pontos em quatro disputados, contra adversários que a Celeste de 2010 ou de 2014 teria liquidado sem drama.

Na terceira rodada, a Espanha — que chegou a Guadalajara com quatro pontos, após vencer a Arábia Saudita por 4 a 0 e empatar com Cabo Verde em 0 a 0 — precisava apenas de um empate para avançar. Venceu por 1 a 0 e fechou a chave com sete pontos, na liderança. Para o Uruguai, o histórico dos confrontos entre os dois países era preocupante: em dez partidas anteriores, cinco vitórias espanholas e cinco empates — nenhuma vitória uruguaia. A estatística se manteve.

"Nos outros dois jogos fomos superiores, mas não conseguimos minimizar os detalhes e nos faltou ser mais dañinos nas situações. É Copa do Mundo, é tudo efetividade, e não a tivemos", analisou Canobbio.

A palavra escolhida pelo atacante — dañinos, em espanhol rioplatense, algo como "perigosos" ou "letais" — sintetiza com precisão o que faltou. Seria injusto chamar de colapso ofensivo o que o Uruguai apresentou nesta Copa — mas é um colapso em escala de Copa do Mundo, onde cada chance desperdiçada tem peso de eliminação.

O legado tático de Bielsa e o que os números históricos revelam

Para entender a dimensão do fracasso, é preciso colocar o Uruguai desta Copa em perspectiva histórica. A seleção charrúa tem dois títulos mundiais — 1930 e 1950 — e uma semifinal em 2010, quando chegou a Joanesburgo com Diego Forlán como artilheiro e MVP do torneio, Luis Suárez como referência ofensiva e um coletivo que somou oito gols em seis partidas. Em 2014, no Brasil, Suárez, Forlán e Cavani formavam um trio que acumulava mais de 150 gols pela seleção. Em 2022, no Qatar, a eliminação também veio na fase de grupos — mas com Darwin Núñez, Valverde e Bentancur em campo, o nível individual era superior ao atual.

Bielsa assumiu o Uruguai em 2023 com a missão declarada de construir um novo ciclo, sem Suárez e sem Cavani — dois dos maiores artilheiros da história da seleção. O argentino implantou seu modelo de alta pressão, saída de bola pelo chão e intensidade coletiva acima de qualidade individual. O resultado foi uma classificação para a Copa sem tropeços graves nas Eliminatórias Sul-Americanas. Mas as Eliminatórias, historicamente, não são termômetro confiável para o desempenho em Copas: o Brasil de 2014 foi o melhor das Eliminatórias e foi eliminado de forma traumática em casa; a Argentina de 2018 quase não se classificou e chegou à final em 2022.

O modelo de Bielsa exige um nível de condicionamento físico e leitura tática que demanda tempo de trabalho — algo que o treinador raramente tem em seleções, onde os ciclos são curtos e as janelas de treino, escassas. Os erros defensivos que custaram gols contra Cabo Verde e Espanha não foram erros de desatenção individual; foram erros de sincronismo coletivo, do tipo que aparece quando o automatismo ainda não está sedimentado. Olivera e Muslera, jogadores experientes, falharam no lance do 2 a 2 cabo-verdiano de uma forma que contraria suas histórias individuais — o que aponta para falha de sistema, não de talento.

Darwin Núñez, referência ofensiva do Liverpool e principal nome do ataque uruguaio, terminou o torneio sem marcar. Valverde, um dos melhores meio-campistas do mundo pelo Real Madrid, não encontrou espaço para ser determinante. A Espanha, com sete pontos e a melhor campanha do grupo, avança para as oitavas de final. O Uruguai volta para Montevidéu com dois empates, uma derrota e um projeto que precisará ser reavaliado — com ou sem Bielsa no comando. A AUF (Asociación Uruguaya de Fútbol) terá de decidir nas próximas semanas se mantém o treinador para as Eliminatórias do próximo ciclo, sabendo que a base jovem ainda está em formação e que os nomes da geração de ouro já estão fora do alcance.

Uma receita elaborada com ingredientes de primeira linha pode fracassar se o forno não estiver na temperatura certa. Bielsa trouxe a técnica, a filosofia e o método — mas o tempo que uma Copa do Mundo concede a qualquer cozinheiro é sempre o mesmo: três partidas, sem direito a ajuste de temperatura.