Três coisas: orçamento, prestígio e tradição. Era tudo que Boca Juniors e River Plate precisavam para dominar o futebol sul-americano. Já não é mais assim.

Quem acompanha o futebol argentino com alguma regularidade — e eu tive a oportunidade de fazê-lo de perto durante anos, entre coberturas em Buenos Aires e análises feitas da distância confortável de Barcelona — percebe que algo estrutural mudou no eixo de poder do Campeonato Argentino. Boca Juniors e River Plate, os dois maiores clubes do país, não vencem o torneio nacional desde 2021. Cinco edições consecutivas. Não é má fase. É colapso de modelo.

O que acontece quando o dinheiro deixa de ser argumento

No futebol europeu, quando um clube como o Manchester City ou o PSG passa três temporadas sem ganhar a liga doméstica, o mundo inteiro fala em crise. No caso dos gigantes portenhos, o silêncio é ainda mais revelador — porque o abismo financeiro entre eles e os rivais é desproporcional. O River Plate opera com receitas anuais que chegam a 300 milhões de dólares. O Belgrano, campeão da última edição do Argentino, tem um orçamento de 30 milhões de dólares — menos de 10% do rival que foi derrotado na grande final.

Errou. Errou repetidamente. E o Boca Juniors também. A eliminação do clube xeneize na fase de grupos da Copa Libertadores — em casa, diante de sua própria torcida — não foi um acidente isolado. Foi o sintoma mais visível de uma doença crônica: a incapacidade de transformar recursos financeiros em desempenho esportivo consistente.

Belgrano e Rivadavia ensinam o que os grandes esqueceram

Enquanto Boca acumula eliminações precoces e River sequer garantiu vaga na Libertadores de 2026, o Independiente Rivadavia realizou a melhor campanha da fase de classificação do Campeonato Argentino na temporada atual e terminou com o segundo melhor desempenho na fase de grupos da Libertadores — perdendo para o Flamengo apenas no saldo de gols. Números que, em qualquer redação esportiva de Madrid ou Londres, renderiam manchetes sobre um dos grandes projetos do futebol continental.

O Belgrano, por sua vez, não é apenas um campeão de surpresa. É um modelo. O clube de Córdoba conta com 67 mil sócios pagantes — mais do que Santos, Botafogo e São Paulo individualmente. Segundo o próprio clube, as mensalidades respondem por metade de todas as receitas anuais. A meta declarada é chegar a 100 mil sócios. Nenhuma SAF, nenhum fundo de investimento suspeito, nenhum mecenas árabe. Apenas torcedores como força financeira.

"O torcedor é a alma e a força financeira desses times", resume a filosofia que Belgrano e Rivadavia praticam — e que os gigantes argentinos parecem ter esquecido em algum momento entre uma contratação milionária e outra.

O espelho incômodo para o futebol brasileiro

Aqui mora o paralelo mais desconfortável para o torcedor brasileiro. O Rivadavia tem quase 20 mil sócios e registra média de 21 mil pagantes por jogo — número que, segundo os dados desta temporada, representa quase o dobro da média de público do Botafogo no Brasileirão 2026. Um clube do interior argentino, sem estrutura de SAF, mobiliza mais gente do que um dos finalistas da última Copa Libertadores.

Quando morei em Barcelona, era comum ouvir de jornalistas espanhóis uma frase que resumia bem o paradoxo dos clubes grandes em crise: "El dinero compra jugadores, no actitud". O dinheiro compra jogadores, não atitude. O Boca gastou, contratou, prometeu. Seguiu sendo eliminado na fase de grupos. O gegenpressing agressivo que times como Rivadavia praticam — com elencos de fração do custo — tem produzido resultados que o tiki-taka financeiro de La Bombonera não consegue replicar.

O pressing alto do Belgrano em campo reflete uma pressão ainda maior fora dele: a de uma torcida que financia o clube com a própria mensalidade e cobra resultado com a convicção de quem tem cota de dono. Esse senso de pertencimento coletivo é exatamente o que falta nos projetos milionários que transformaram partes do futebol brasileiro em empresas com acionistas distantes e arquibancadas vazias.

O efeito cascata que Boca e River ainda não calcularam

A consequência mais grave desse ciclo de cinco anos sem título não é esportiva — é simbólica. O medo acabou. Times que antes tremiam diante da camisa azul-e-ouro ou da faixa vermelha do River hoje entram em campo contra esses clubes sem complexo de inferioridade. O Huracán, o Talleres, o próprio Rivadavia: nenhum deles recua. E os resultados confirmam essa nova equação de poder.

Para o torcedor brasileiro, que durante décadas olhou para a Argentina com uma mistura de admiração e temor, a mensagem é clara: não há mais razão para invejar Boca ou River. Há razão, isso sim, para estudar o que Belgrano construiu em Córdoba com 30 milhões de dólares e 67 mil sócios fiéis. Enquanto o Boca tenta se recuperar do vexame na Libertadores e o River trabalha para reconquistar uma vaga na competição continental em 2027, o Belgrano já iniciou sua campanha na edição atual do Argentino como defensor do título — e o Rivadavia, com a melhor campanha da fase de classificação, segue sendo o time mais interessante do continente que ninguém ainda aprendeu a temer.

É o mesmo cenário que o Atlético de Madrid viveu no início dos anos 2000 — gigante histórico afundado em dívidas enquanto times menores ditavam o ritmo da liga — só que agora a aposta é diferente: os pequenos argentinos não querem apenas sobreviver, querem dominar.