O Brasil perdeu para a Noruega por 2 a 1 e foi eliminado nas oitavas de final. Neymar marcou de pênalti nos acréscimos — e mesmo assim não foi suficiente. O paradoxo que resume esta Copa: o maior artilheiro da história da Seleção converteu seu pênalti, trocou farpas com o goleiro Ørjan Nyland, saiu de campo de cabeça erguida naquele duelo individual, e ainda assim o Brasil foi eliminado. A contradição não está no detalhe do pênalti. Está na estrutura do time que chegou até ali.
O marco histórico que nenhuma torcida queria registrar
Pela primeira vez em quase 100 anos de Copa do Mundo — desde a primeira edição, em 1930 — Brasil e Alemanha ficaram simultaneamente fora das oito melhores seleções do torneio. O levantamento histórico é implacável: o Brasil esteve entre os oito melhores em 19 das 23 edições anteriores; a Alemanha, em 17. Nenhuma das duas nações havia ficado de fora ao mesmo tempo. Até agora.
O Brasil não ficava fora do top 8 desde 1990, quando caiu nas oitavas para a Argentina. Trinta e seis anos de presença garantida nas quartas de final — uma regularidade que atravessou as gerações de Romário, Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho. A Alemanha, por sua vez, acumula a terceira eliminação precoce consecutiva: grupos em 2018, grupos em 2022, segunda fase em 2026. Dois gigantes do futebol mundial em colapso simultâneo é dado que transcende o resultado de uma partida.
Haaland marcou os dois gols da Noruega no segundo tempo. Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti ainda no primeiro tempo, com o placar em 0 a 0 — defendido por Nyland. A sequência de erros e acertos naquele jogo sintetiza um problema estrutural que vai muito além de uma tarde ruim…e aí vem o problema.
A comissão que Carlo Ancelotti vai herdar — e a que vai perder
Carlo Ancelotti permanece. Seu contrato com a CBF vai até o fim da Copa do Mundo de 2030, e a diretoria não cogita demissão após a eliminação. Mas a comissão técnica que o acompanhou neste ciclo passa por reformulação significativa. Davide Ancelotti, filho e auxiliar do treinador, deixa o cargo para assumir o Lille, da França. Taffarel, preparador de goleiros e ícone do tetracampeonato de 1994, também deve sair — havia críticas internas à falta de renovação na posição de goleiro. Rodrigo Caetano, coordenador de seleções, não é certeza para o próximo ciclo.
Ao longo desta Copa, as escolhas táticas de Ancelotti foram questionadas com frequência. Contra Marrocos, a escalação inicial com Ibañez na lateral direita e Douglas Santos na esquerda gerou um primeiro tempo que, segundo análise publicada pelo Correio Braziliense, foi o pior da Seleção desde a eliminação para a Bélgica nas quartas de final de 2018 — quando Lukaku, De Bruyne e Hazard construíram um 2 a 0 no primeiro tempo. A salvação veio de Vinicius Júnior, que fez o gol de pênalti e carregou o time no segundo tempo. Contra a Noruega, o roteiro foi parecido: talento individual não sustenta estrutura coletiva frágil.
"O Mister escolhe antes do jogo, nunca fui vaidoso, nunca quis a artilharia, nunca fugi da responsabilidade", declarou Vini Jr. na zona mista, após ser questionado sobre não ter cobrado o pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães.
A geração que sai e os nomes que precisam crescer até 2030
Neymar anunciou sua saída da Seleção Brasileira. Aos 34 anos, encerra um ciclo que começou em 2010 e gerou 79 gols em 128 jogos — recorde absoluto da história da Seleção. Casemiro terá 38 anos na Copa de 2030; Marquinhos, 36. Danilo e Alex Sandro também devem encerrar seus ciclos. A saída simultânea desses cinco nomes representa o fim de uma geração inteira de liderança.
Marquinhos foi honesto na zona mista após a eliminação. Em declarações à BeIN Sports, o capitão do PSG reconheceu os limites do tempo:
"A próxima Copa do Mundo é daqui a quatro anos, eu terei 36 anos, será muito difícil para mim continuar neste alto nível. Vamos ver o que acontece. Ser convocado é apenas uma convocação, mas eu entendo se o técnico quiser seguir em frente", afirmou.
O zagueiro ainda assumiu responsabilidade coletiva pela derrota: "Nós, os mais experientes, assumimos a responsabilidade por esta partida e por esta derrota, para que a nova geração possa chegar à próxima Copa do Mundo em melhores condições." É o tipo de declaração que encerra um ciclo com dignidade — e abre espaço para os nomes que precisam crescer.
Entre os candidatos a assumir protagonismo estão o lateral-esquerdo Kaiki Bruno, do Como, o zagueiro Vitor Reis, do Manchester City, e Natan, do Real Bétis. Vinicius Júnior, aos 25 anos, já é o nome central da próxima geração — mas, como a Copa de 2026 mostrou, um jogador sozinho não sustenta uma Seleção. O Brasil precisa construir ao redor dele uma hierarquia clara, algo que, segundo análise publicada no UOL Esporte, a Seleção não tem desde os tempos de Ronaldo Nazário: uma referência técnica e emocional que todos reconhecem sem precisar de debate.
A Seleção retorna aos trabalhos em setembro, com dois amistosos marcados contra a Austrália, nos dias 25 e 29. Será o primeiro teste do novo ciclo — e a primeira oportunidade de Ancelotti mostrar, com uma comissão reformulada e sem a geração que se despede, qual Brasil ele pretende construir para 2030. Como em matéria do SportNavo já se apontava antes da Copa, o problema nunca foi a falta de talentos individuais. Foi sempre a ausência de uma receita que transforme ingredientes de primeira linha em prato coerente.










