Quanto ar um jogador de futebol de elite precisa para manter o desempenho a 4.150 metros acima do nível do mar? A fisiologia do esporte tem uma resposta técnica — a pressão parcial de oxigênio em El Alto é cerca de 40% menor do que ao nível do mar, o que reduz a capacidade aeróbica em até 25% nos primeiros dias de exposição. O que a fisiologia não responde é se o Brasil vai usar essa partida contra a Bolívia, na terça-feira (9), como ensaio real de intensidade ou como protocolo de sobrevivência.
A pergunta tem peso porque Carlo Ancelotti não deixou margem para ambiguidade. Logo após a vitória sobre o Chile, o treinador italiano deixou claro que o jogo em El Alto não seria tratado como formalidade:
"O jogo interessa, porque a camisa do Brasil não pode permitir aos jogadores que existam partidas mais ou menos importantes. Todas são importantes. O jogo da Bolívia é importante para melhorar nosso jogo, nossa atitude, nossa intensidade", disse o técnico.Dito de outra forma: classificado ou não para a Copa do Mundo de 2026, o Brasil vai a El Alto para vencer.
A Bolívia, por sua vez, tem razões objetivas para tornar o ambiente ainda mais hostil do que a altitude já impõe. Oitava colocada nas Eliminatórias, a equipe precisa vencer o Brasil e torcer por um tropeço da Venezuela diante da Colômbia, no mesmo horário, para ocupar a vaga de repescagem. Não há meio-termo na equação boliviana — é vitória ou eliminação.
A estratégia de Teresópolis e a lógica da chegada tardia
A preparação da Seleção seguiu um protocolo deliberado de não-aclimatação. O grupo permaneceu na Granja Comary, em Teresópolis, a 910 metros de altitude — longe o suficiente para não replicar o estresse fisiológico de El Alto, perto o suficiente de uma base estruturada. O último treino no centro de excelência da CBF aconteceu na manhã desta segunda-feira (8), e o deslocamento para a Bolívia foi programado para o período mais próximo possível do jogo. A lógica é conhecida na literatura esportiva: chegar tarde demais para o corpo iniciar as respostas agudas de mal-estar, mas cedo o suficiente para a logística funcionar.
Seria injusto chamar isso de ciência avançada — mas é uma ciência aplicada em escala de Copa do Mundo. Seleções europeias costumam adotar janelas de chegada entre 12 e 24 horas antes do jogo em localidades acima de 3.500 metros, exatamente para evitar o pico dos sintomas de altitude, que ocorre entre 6 e 12 horas após a exposição. A CBF seguiu essa mesma lógica, com o elenco viajando para El Alto em uma janela que minimiza o tempo de exposição pré-jogo.
O que Martinelli e Gabriel Magalhães disseram sobre o ar rarefeito
Os jogadores que falaram à imprensa em Teresópolis no domingo (7) evitaram transformar a altitude em narrativa dominante. O atacante Gabriel Martinelli, do Arsenal, foi direto:
"Só vejo a hora de chegar o jogo, estou preparado. Nosso foco é estar o melhor possível para o jogo, chegar lá e ganhar a partida da melhor maneira possível, jogando o nosso futebol."O mesmo Martinelli reconheceu o fator sem dramatizá-lo:
"A altitude com certeza é um ponto que atrapalha, mas a gente está focado no jogo."
O zagueiro Gabriel Magalhães, também do Arsenal e companheiro de Martinelli no clube inglês, foi ainda mais assertivo ao retirar o peso psicológico do ambiente:
"A gente não tem que pensar em altitude. A gente tem que pensar que está vestindo a camisa da Seleção Brasileira. Temos que chegar lá, fazer um grande jogo e sair vitoriosos. Sabemos das dificuldades, mas nós temos também que saber o que nós podemos fazer dentro de campo. E a gente está preparado para isso."O discurso não é ingênuo — é uma escolha de gestão de atenção coletiva, algo que comissões técnicas de elite trabalham ativamente antes de jogos em condições adversas.
O que El Alto representa no histórico das Eliminatórias e o que fica em aberto
El Alto não é uma novidade para o futebol sul-americano. A cidade, situada no altiplano boliviano e vizinha a La Paz, já foi palco de derrotas memoráveis de grandes seleções. A Argentina perdeu por 6 a 1 para a Bolívia em La Paz em 2009, numa das maiores goleadas das Eliminatórias. O Brasil, historicamente, tem desempenho irregular em solo boliviano — e jogar em El Alto, 400 metros acima de La Paz, representa o teto geográfico das Eliminatórias sul-americanas.

O contexto classificatório do Brasil é confortável: a vaga na Copa do Mundo de 2026 já está garantida. Mas Ancelotti tem um problema real para resolver antes do torneio — a definição de padrão de jogo e intensidade contra adversários que se fecham e apostam em condições externas. A Bolívia, mesmo em situação desesperada, tende a recuar e explorar o cansaço físico do visitante. Como o Brasil responde a esse modelo, em oxigênio reduzido, é a informação mais valiosa que El Alto pode oferecer antes de julho de 2026.

A bola rola nesta terça-feira (9), com a partida entre Bolívia e Brasil marcada para o Estádio Municipal de El Alto, a 4.150 metros de altitude. Um empate já mantém a Venezuela na repescagem independentemente de outros resultados — o que significa que a Bolívia não tem opção senão atacar desde o primeiro minuto. Para Ancelotti, é exatamente o tipo de jogo que testa o que ele quer construir.










