O placar eletrônico do Estádio Ullevaal, em Oslo, marcava 4 a 2 para a Noruega quando o árbitro encerrou aquele amistoso de maio de 1997. Era uma tarde fria no norte da Europa, e a seleção brasileira — recheada de nomes que disputariam a Copa da França no ano seguinte — saía de campo humilhada por um time que o mundo do futebol mal respeitava. Aquela derrota, a mais pesada da história do confronto, completará 29 anos em 2026. E o Brasil ainda não respondeu.
A Copa do Mundo de 2026 reservou ao Brasil um adversário que carrega um dado estatístico único no futebol mundial: a Noruega é a única seleção do planeta que disputou mais de dois jogos contra a Canarinho e jamais saiu derrotada. Quatro confrontos, dois empates e duas vitórias norueguesas. O duelo das oitavas de final, marcado para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, neste domingo (5), às 17h (horário de Brasília), é a primeira chance em 38 anos de encerrar esse tabu.
Quatro décadas de um retrospecto que o Brasil preferia esquecer
O primeiro encontro entre as seleções aconteceu em 1988, em plena preparação olímpica. O Brasil, sob o comando de Carlos Alberto Silva, levava a campo um grupo de base que conquistaria a prata em Seul naquele mesmo ano. O jovem Romário entrou no segundo tempo e marcou para garantir o empate em 1 a 1. Parecia um resultado aceitável diante de uma Noruega que ainda engatinhava no cenário internacional.
Nove anos depois, em 1997, a história foi outra. A seleção norueguesa, então moldada pelo pragmatismo vertical do técnico Egil "Drillo" Olsen, desmontou o Brasil de forma cirúrgica. O placar de 4 a 2 — com gols de Rudi, Flo duas vezes e Østenstad do lado norueguês, e Djalminha e Romário pelo Brasil — expôs a vulnerabilidade da defesa brasileira diante do jogo aéreo escandinavo. Tore André Flo, artilheiro daquela noite, recebeu da imprensa internacional o apelido de "Flonaldo", numa ironia que irritou os brasileiros durante meses.
O capítulo mais doloroso, porém, veio na Copa do Mundo de 1998, na França. Pela última rodada da fase de grupos, o Brasil já estava classificado em primeiro lugar, mas a Noruega precisava vencer para avançar. Bebeto abriu o placar para os brasileiros, mas a virada norueguesa chegou nos minutos finais, com Flo e Rekdal — este último de pênalti, em lance que gerou polêmica mundial. Imagens de uma câmera sueca, divulgadas 36 horas após a partida, confirmaram o puxão de Júnior Baiano em Flo na área. O Brasil perdeu por 2 a 1, mas avançou em primeiro e terminou o torneio como vice-campeão, derrotado pela França na final.
O último encontro, um amistoso em agosto de 2006, logo após a Copa da Alemanha, terminou em 1 a 1. O meia Daniel Carvalho, numa das primeiras convocações de Dunga como técnico, marcou para o Brasil. O empate manteve o tabu intacto por mais uma vez.
Haaland, Nusa e a Noruega que chegou ao século 21
A Noruega de 2026 não tem nada do futebol direto e físico da era Olsen. O time que eliminou a Costa do Marfim por 2 a 1, nesta terça-feira (30), em Dallas, é uma seleção tecnicamente sofisticada, construída em torno de dois jogadores de nível mundial.
Erling Haaland, 25 anos, é o maior artilheiro da história da seleção norueguesa: 60 gols em 53 partidas. Na Copa do Mundo de 2026, ele já soma 5 gols em 3 jogos, figurando como vice-artilheiro da competição, atrás apenas de Lionel Messi, que tem 6. Contra a Costa do Marfim, foi ele quem decidiu aos 86 minutos, aproveitando cruzamento de Patrick Berg para um toque sutil diante do gol aberto. O atacante do Manchester City não para de marcar pela seleção há 13 jogos consecutivos, anotando 25 gols nesse período.
Ao lado de Haaland, o jovem Antonio Nusa, 21 anos, tem chamado atenção pelo estilo driblador que lhe rendeu o apelido de "Neymar da Noruega". Contra os marfinenses, ele recebeu passe de Martin Ødegaard, invadiu a área e acertou o ângulo esquerdo do goleiro Fofana para abrir o placar. Nusa acumula 8 gols em 25 jogos pela seleção e atua pelo RB Leipzig, na Bundesliga. Ele revelou, em entrevista à emissora norueguesa NRK, que fez uma promessa à avó antes de ela morrer:
"Foi algo que eu lhe disse. Fiz uma promessa de que um dia me tornaria jogador de futebol. Disse isso a ela pouco antes de ela morrer"— e tatuou a frase "eu prometo, vovó" no braço direito.
O próprio Haaland, curiosamente, não demonstrou confiança excessiva ao ser questionado sobre o duelo com o Brasil na saída de campo em Dallas.
"Isso é uma loucura. Eu não acredito que vou jogar contra o Brasil. Acho que é uma brincadeira. É uma loucura total. Mais um passo da jornada, estou empolgado", disse. Sobre as chances da Noruega, foi direto:
"Bem pouca."
O Brasil chega com tabu duplo e desfalques pesados
O Brasil de Carlo Ancelotti não enfrenta apenas o tabu de 38 anos contra a Noruega. Nas últimas cinco eliminações em mata-mata de Copa do Mundo, todas foram para seleções europeias: França em 2006, Holanda em 2010, Alemanha em 2014, Bélgica em 2018 e Croácia nos pênaltis em 2022. O duelo de domingo é a oportunidade de encerrar duas sequências negativas de uma vez.
Para isso, Ancelotti terá que lidar com um departamento médico sobrecarregado. Lucas Paquetá sofreu lesão no músculo posterior da coxa esquerda ainda no primeiro tempo da vitória por 2 a 1 sobre o Japão, na segunda fase. O diagnóstico é grave — o prazo de recuperação é estimado em três a quatro semanas, o que praticamente inviabiliza sua participação no restante do torneio. Há uma possibilidade remota de retorno caso o Brasil chegue à final, marcada para 19 de julho. Antes de Paquetá, Wesley foi cortado com lesão grau 3 no adutor da coxa esquerda, sofrida no amistoso preparatório contra o Egito. Estevão e Éder Militão também ficaram de fora antes mesmo da competição começar.
A boa notícia vem de Raphinha, que se recupera de lesão muscular na coxa direita sofrida na segunda rodada da fase de grupos. Imagens divulgadas pela CBF mostram o atacante correndo no gramado de Nova Jersey e batendo papo com o técnico Ancelotti. Sua presença contra a Noruega ainda não está confirmada, mas a evolução é positiva.
O comentarista Gabriel Sá, em análise publicada em matéria do SportNavo, resumiu o desafio de conter Haaland com uma frase que virou mantra nos bastidores da delegação brasileira:
"Tem que colar no vestiário: 'não deixe o Haaland na área'."
A classificação para as quartas de final garantirá à CBF ao menos US$ 19 milhões da Fifa — cerca de R$ 95 milhões. Uma eventual eliminação neste domingo renderia US$ 15 milhões. Mas nenhum número financeiro pesa tanto quanto o dado histórico que o Brasil carrega desde 1988 — o tabu existe. O Brasil chega ao MetLife Stadium no domingo com a chance de apagá-lo — falta executar dentro de campo.










