A última vez que o Brasil eliminou uma seleção europeia numa fase final de Copa do Mundo foi em 30 de junho de 2002, no estádio Internacional de Yokohama. Ronaldo marcou duas vezes, a Alemanha saiu de campo com 0 a 2 no placar, e o Brasil levou o pentacampeonato. Passaram-se exatos 24 anos. Quatro Copas. Quatro eliminações para times do Velho Continente. E agora, no MetLife Stadium em Nova Jersey, no dia 5 de julho, o Brasil vai encarar justamente a única seleção do mundo que nunca cedeu uma vitória ao Pentacampeão na história — a Noruega de Gabriel Magalhães pelo lado brasileiro... e de Erling Haaland pelo outro.

O rastro de 24 anos que nenhum técnico conseguiu apagar

O tabu começou em 2006, nas quartas de final disputadas em Frankfurt. A França de Zinedine Zidane e Thierry Henry venceu por 1 a 0 um time que tinha Ronaldo, Kaká e Ronaldinho Gaúcho no mesmo onze. Um gol de Zidane, de pênalti, e pronto: o Brasil voltou para casa sem passar dos quartos pela primeira vez desde 1990.

TÉCNICO DA NORUEGA MANDA RECADO A CARLO ANCELOTTI | #shorts | Copa do Mundo 2026 | ge.globo

Em 2010, sob Dunga, o script foi ainda mais cruel. A Holanda saiu atrás, o Brasil parecia controlado — e então Wesley Sneijder marcou duas vezes, aproveitando falhas de Júlio César e Felipe Melo. Mais uma eliminação nas quartas. Em 2014, em casa, veio o maior vexame da história: 7 a 1 para a Alemanha na semifinal, seguido de 3 a 0 para a própria Holanda na disputa pelo terceiro lugar. Duas derrotas para europeus numa única edição.

Nas duas últimas edições, o Brasil caiu para times que, em outros contextos, seriam considerados acessíveis. A Bélgica de 2018 venceu por 2 a 1 nas quartas. A Croácia de 2022 eliminou nos pênaltis depois de empate por 1 a 1 na prorrogação. A distância temporal entre a última vitória sobre um europeu no mata-mata e este domingo é equivalente à distância em linha reta entre Belém e Buenos Aires — algo que, no futebol, deveria ser impossível para uma seleção com cinco títulos mundiais.

O que os números dizem sobre a Noruega que vai além de Haaland

Haaland é, claro, o protagonista mais óbvio. Cinco gols em três jogos na Copa, vice-artilheiro atrás de Messi e Mbappé (ambos com seis). Marcou em cada uma das suas três partidas no torneio, tornando-se o primeiro jogador da história a fazer isso. Chegou a 60 gols em apenas 53 partidas pela seleção norueguesa — ritmo que nenhum atacante contemporâneo consegue replicar em nível de seleção.

Mas Carlo Ancelotti vai precisar montar um plano que vá além do camisa 9. Três métricas ajudam a entender por que a Noruega é mais perigosa do que parece:

  • xG (expected goals) por jogo: Haaland acumula xG altíssimo mesmo quando toca pouco na bola. Contra a Costa do Marfim, ficou longo tempo sem participar das ações — e marcou o gol da classificação aos 41 minutos do segundo tempo com um toque dentro da área. É o perfil de atacante que converte oportunidades abaixo da média de xG, ou seja, mais eficiente do que o modelo espera.
  • Progressive passes (passes progressivos): Martin Ødegaard lidera a criação norueguesa com três assistências na Copa, ficando atrás apenas de Bruno Guimarães no ranking de passes para gol do torneio. Ødegaard é o tipo de meia que quebra linhas com passes adiantados — cada progressão dele é uma linha defensiva desafiada.
  • Defensive actions e PPDA: A Noruega não é um time de posse. Seu PPDA (passes permitidos por ação defensiva) indica um bloco mais recuado que pressiona em transição. Isso significa que o Brasil vai ter espaço para construir, mas vai encontrar um bloco organizado esperando na entrada da área.

Antonio Nusa, do RB Leipzig, encerrou a temporada europeia com 35 partidas, 5 gols e 4 assistências, usando velocidade para quebrar linhas pelos flancos. Alexander Sørloth, que fez 20 gols pelo Atlético de Madrid na temporada 2025/2026, divide a atenção dos zagueiros com Haaland na área. E Julian Ryerson, lateral direito titular, está machucado desde a segunda rodada — uma baixa que pode ser explorada pela ala esquerda brasileira.

Gabriel Magalhães x Haaland — o duelo dentro do duelo

A rivalidade mais quente do jogo já tem histórico documentado. Em setembro de 2024, Haaland arremessou a bola contra a cabeça de Gabriel Magalhães depois de um gol do Manchester City. Em fevereiro de 2025, o zagueiro brasileiro comemorou um gol da goleada do Arsenal por 5 a 1 gritando diretamente no rosto do norueguês — e admitiu depois, no podcast Podpah, que foi um troco calculado. Em abril deste ano, uma partida tensa com vitória do City por 2 a 1: Haaland marcou, Gabriel levou cartão amarelo por encostar a cabeça no adversário e flertou com a expulsão.

"Ele deveria me agradecer por não ter valorizado o choque — uma simulação e teria sido cartão vermelho", declarou Haaland à imprensa após o jogo de abril.

Do outro lado, Gabriel não esconde o respeito técnico pelo adversário:

"Haaland é o oponente mais difícil de marcar na Premier League", admitiu o zagueiro.

No MetLife Stadium, esse duelo de clube vira duelo de Copa. E o resultado individual pode definir o placar. Gabriel vai precisar controlar a intensidade física sem acumular cartões — tarefa que, nos últimos meses na Premier League, ele não conseguiu fazer de forma consistente contra exatamente esse adversário.

Erling Braut Haaland (Manchester City)
Erling Braut Haaland (Manchester City)

O que o Brasil precisa fazer que nenhum técnico conseguiu desde 2002

Zlatan Ibrahimović, comentarista na Fox Sports durante esta Copa, foi preciso ao descrever Haaland para o mundo:

"Eu vi ele com esse longo rabo de cavalo, e meu empresário me disse: 'Ouça, eu vi um Zlatan diferente nele'. Esse cabelo vai te levar longe, até onde você quer chegar", contou o sueco, lembrando conversa com Mino Raiola, empresário que representou os dois.

A comparação com Zlatan é útil para entender o problema tático que o Brasil enfrenta: atacantes desse perfil — físicos, letais em espaço mínimo, capazes de decidir com um toque — historicamente machucam o estilo defensivo brasileiro que tende a subir a linha e pressionar alto.

A Noruega nunca perdeu para o Brasil em quatro partidas na história: duas vitórias e dois empates. O histórico é pequeno, mas o padrão é claro — a seleção escandinava não se intimida com a camisa verde-amarela. Ancelotti vai precisar equilibrar a posse de bola que o Brasil construiu ao longo da campanha com a capacidade de neutralizar transições rápidas norueguesas, especialmente pelo corredor direito adversário, que está desfalcado com a lesão de Ryerson.

Bruno Guimarães, líder do torneio em passes para gol com quatro assistências, é a chave para o Brasil criar superioridade no meio. Se ele conseguir isolar Ødegaard e ao mesmo tempo alimentar Vinicius Jr. nas transições, o Brasil tem condições reais de encerrar 24 anos de frustração contra europeus. O jogo é domingo, às 17h (de Brasília), no MetLife Stadium. Do outro lado da linha de fundo, Haaland vai estar esperando — como sempre.