Um país que mal sai do celular parou diante da televisão. Esse é o paradoxo que os 35 pontos de audiência registrados pela Globo na transmissão de Brasil 2 x 1 Japão, nesta segunda-feira (29), precisam resolver — e resolvem, quando se entende o que estava em jogo além dos 90 minutos.

O número que a emissora não via desde o Catar

Cinquenta e três por cento. Mais de cinco em cada dez televisores ligados no Brasil sintonizados no mesmo canal, ao mesmo tempo. O Painel Nacional de Televisão (PNT) registrou 35 pontos de audiência média para a partida, marca que a Globo não alcançava desde a Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar — ou seja, um jejum de quase quatro anos encerrado por uma fase de grupos de Copa do Mundo 2026. No Rio de Janeiro, o índice chegou a 39 pontos; na Grande São Paulo, 33. Para quem acompanha os números da televisão brasileira há décadas, esses patamares remetem a uma época em que o futebol era o único espetáculo disponível na sala de estar.

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A comparação histórica é inevitável. Na Copa de 2018, na Rússia, o jogo do Brasil contra a Bélgica nas quartas de final — derrota por 2 a 1 que eliminou a Seleção — registrou picos acima de 40 pontos no Rio e médias nacionais na casa dos 37. Em 2014, no Brasil, a semifinal contra a Alemanha (o 7 a 1) atingiu médias próximas de 38 pontos no PNT. O fato de uma fase de grupos, em 2026, superar os índices de jogos eliminatórios de edições recentes diz muito sobre o apetite do torcedor por esta Seleção específica.

O jogo que manteve 39 pontos no Rio por 90 minutos

A audiência não foi acidente: foi construída pelo roteiro do próprio jogo. O Brasil entrou em campo com as linhas adiantadas, Marquinhos e Gabriel Magalhães jogando à frente da linha do meio, e dominou os primeiros 22 minutos. A pausa para hidratação inverteu o equilíbrio — o Japão, organizado pelo técnico Hajime Moriyasu com três zagueiros e seis jogadores no meio-campo, passou a pressionar e explorar os erros de saída de bola brasileira. Danilo falhou no passe, Sano interceptou e abriu o placar com um chute rasteiro no canto direito de Alisson. Um a zero para o Japão.

Gabriel Magalhães (Arsenal)
Gabriel Magalhães (Arsenal)

Carlo Ancelotti reagiu no intervalo: sacou Lucas Paquetá, que deixara o campo mancando, e lançou Endrick. A entrada do atacante deu mobilidade ao ataque, e Casemiro, que fizera primeira etapa apagada, se redimiu aos 9 minutos do segundo tempo: Gabriel Magalhães cruzou da esquerda, e o volante cabeceou para empatar. A virada veio aos 50 minutos, quando Rayan recuperou a bola e acionou Bruno Guimarães — o gol que fechou o placar em 2 a 1 e garantiu os três pontos. Cada um desses lances foi assistido por dezenas de milhões de brasileiros em tempo real, o que explica a sustentação dos índices ao longo de toda a transmissão, sem queda expressiva no segundo tempo.

"A intenção japonesa era clara: jogar no erro do Brasil", descreveu a cobertura técnica da partida, sintetizando a estratégia de Moriyasu que, por quase 30 minutos, funcionou com precisão cirúrgica.

O que 35 pontos dizem sobre o futebol como produto midiático

Há uma tendência que analistas de mídia vinham apontando desde 2020: a fragmentação das audiências pelo streaming reduziria os grandes eventos televisivos a relíquias. O futebol, especialmente o da Seleção Brasileira em Copa do Mundo, desafia essa lógica com dados concretos. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente nesta Copa, já se apontava que os jogos da Seleção concentram audiência de forma que nenhum outro produto televisivo brasileiro consegue replicar — nem reality shows, nem telejornais, nem finais de novela.

O recorte geracional também merece atenção. A Copa de 2022, no Catar, foi transmitida em horários atípicos para o fuso brasileiro — muitos jogos às 7h ou ao meio-dia. A partida desta segunda-feira aconteceu em horário nobre, o que potencializa a comparação. Quando se ajusta pelo fuso, os 35 pontos desta segunda ganham ainda mais peso: representam um público que escolheu ativamente a televisão aberta num horário em que o streaming compete com força total.

"Mais de cinco em cada dez TVs estavam sintonizadas no jogo", confirmou o levantamento do PNT — uma proporção que não se via desde os jogos do Brasil no Catar, há quase quatro anos.

Historicamente, a Seleção Brasileira sempre funcionou como termômetro do interesse nacional pelo futebol. Na Copa de 1994, nos Estados Unidos — o tetracampeonato de Parreira —, as médias de audiência ultrapassavam 50 pontos em mercados como Rio e São Paulo, numa época em que a televisão por assinatura ainda não havia fragmentado o público. Na Copa de 2002, a do penta, o jogo contra a Alemanha na final registrou picos de 63 pontos no Rio. A trajetória descendente dos índices ao longo das décadas reflete não desinteresse, mas multiplicação de telas. Por isso, 35 pontos em 2026 equivalem, proporcionalmente, a algo muito maior do que o número bruto sugere.

Gabriel Magalhães (Arsenal)
Gabriel Magalhães (Arsenal)

A Globo, que detém os direitos de transmissão da Copa do Mundo 2026 no Brasil, colhe agora os frutos de uma aposta feita anos atrás. Com o Brasil classificado para a fase eliminatória e jogos de maior tensão pela frente, a tendência é que os índices se mantenham elevados — ou subam. O próximo compromisso da Seleção na Copa do Mundo 2026 será decisivo para confirmar se esses 35 pontos foram um pico isolado ou o piso de uma curva ascendente.

Trinta e cinco pontos de audiência são, no fundo, como um acorde de uma música que todo mundo conhece de cor: não importa quantos anos passem, quando começa a tocar, a sala para.