O silêncio após uma derrota costuma revelar mais do que qualquer coletiva de imprensa. Depois de perder por 1 a 0 para o Athletic na 11ª rodada da Série B, o treinador Fortaleza Thiago Carpini não se refugiou em respostas protocolares. Ele abriu o jogo — e o que disse transcende o resultado de um único jogo.

Carpini, 43 anos, é hoje o único técnico brasileiro à frente de um clube na parte de cima da Série A. A constatação, por si só, já seria suficiente para um diagnóstico preocupante. Mas o treinador foi além, articulando uma crítica estruturada sobre o mercado de trabalho dos treinadores no Brasil — um mercado que, segundo ele, opera com dois pesos e duas medidas.

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"A única coisa que me incomoda é a supervalorização dos estrangeiros com pouco resultado. Se você tirar o trabalho do Vojvoda no Fortaleza, do Abel no Palmeiras, do Jorge Jesus no Flamengo, são trabalhos que merecem destaque. Não vou citar os que não merecem, não vem ao caso, mas acho que são supervalorizados, às vezes superprotegidos em alguns momentos, não só por contratos, mas por todo contexto."

O que Carpini viu nos bastidores que os números confirmam

A crítica de Carpini não nasce do ressentimento — nasce da observação sistemática de um padrão. Nos últimos três anos, a presença de técnicos estrangeiros na Série A saltou de forma expressiva. Em 2026, clubes como Flamengo, Palmeiras, Botafogo, Atlético Mineiro e São Paulo — que concentram mais de 60% da receita total da divisão, segundo estimativas do mercado esportivo brasileiro — todos optaram por profissionais de fora.

O dado mais revelador, porém, não é a quantidade. É a assimetria de tratamento. Carpini fez uma distinção precisa: Abel Ferreira, Juan Pablo Vojvoda e Jorge Jesus têm resultados que justificam qualquer investimento. Abel conquistou seis títulos pelo Palmeiras entre 2020 e 2025, incluindo duas Libertadores. Vojvoda transformou o Fortaleza numa potência regional. Jesus devolveu ao Flamengo a identidade de clube continental em 2019 e retornou em 2026 com a missão de repetir o feito. Esses três têm CVs que resistem a qualquer auditoria.

O problema, na análise de Carpini, está nos demais — aqueles que chegam com o aval do rótulo europeu e recebem uma blindagem contratual e midiática que nenhum brasileiro obtém. Rescisões milionárias, tempo de adaptação estendido, crédito irrestrito na imprensa. Uma arquitetura de proteção que, conforme registrado pelo SportNavo, não encontra paralelo quando o contratado tem passaporte brasileiro.

Rafael Guanaes, Alex e a geração que não cabe na narrativa dominante

Carpini citou dois nomes como evidência de que o problema não é a qualidade dos técnicos brasileiros. Rafael Guanaes, 36 anos, levou o Mirassol às oitavas de final da CONMEBOL Libertadores — feito inédito para um clube do interior paulista. Alex, ex-meia da Seleção Brasileira e do Fenerbahçe, comanda o Athletic na parte de cima da tabela da Série B com uma proposta tática reconhecível e consistente.

O que Carpini viu nos bastidores que os números confirmam Carpini detona proteçã
O que Carpini viu nos bastidores que os números confirmam Carpini detona proteçã
"Tem muito jovem bom por aí, olha o trabalho que faz o Guanaes no Mirassol, o próprio Alex, são tantos treinadores bons dessa nova geração. Agora precisamos dar oportunidades a eles, assim como damos para os estrangeiros."

O próprio Carpini fez uma mea culpa coletiva antes de lançar a crítica. Reconheceu que a classe dos treinadores brasileiros perdeu janelas de modernização táctica nas últimas décadas — uma autocrítica que dá peso intelectual ao argumento subsequente. Quando quem critica também assume responsabilidade, o diagnóstico ganha outra dimensão.

A questão tática está conectada a uma questão econômica. Clubes brasileiros que faturam entre R$ 400 milhões e R$ 1,2 bilhão por ano — faixa em que se enquadram Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro — têm capacidade de absorver contratos de técnicos europeus com cláusulas de rescisão entre € 2 milhões e € 5 milhões. Para esses clubes, o custo de demissão de um técnico brasileiro é irrelevante. O custo de demissão de um estrangeiro, não. Isso cria um incentivo perverso à paciência seletiva.

A decisão que os clubes precisam tomar antes que a janela feche

Há uma dimensão de política esportiva que raramente entra nesse debate. O Brasil não possui nenhum mecanismo regulatório que estabeleça cotas ou preferências para técnicos nacionais — ao contrário do que ocorre, por exemplo, com jogadores em determinadas ligas europeias, onde regras de fair play esportivo exigem percentuais mínimos de atletas formados localmente. No caso dos treinadores, o mercado opera sem qualquer diretriz da CBF ou do Ministério do Esporte.

Pesquisas de audiência do Brasileirão indicam que o torcedor médio não diferencia a nacionalidade do técnico como critério de identificação — o que importa é o resultado e o estilo de jogo. Mas os dirigentes operam com outra lógica: o nome estrangeiro carrega um capital simbólico que facilita a venda de patrocínios, a negociação com investidores e a narrativa de modernização institucional. É um ativo de marketing, não necessariamente de performance.

Carpini entende esse mecanismo. Por isso sua crítica é cirúrgica — não é contra a presença estrangeira, é contra a desigualdade estrutural de oportunidades. Um técnico brasileiro que perde quatro jogos consecutivos é demitido. Um estrangeiro com o mesmo retrospecto recebe uma reunião de alinhamento e um comunicado de confiança da diretoria.

O Fortaleza volta a campo na próxima rodada da Série B com Carpini no comando — e cada ponto conquistado pelo técnico baiano é também um argumento prático nesse debate. Se a nova geração de treinadores brasileiros quiser mudar a narrativa, terá de fazê-lo dentro de campo, onde os dados são inegociáveis.