Não foi Carlo Ancelotti o maior problema da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026. Ele foi o rosto visível de uma estrutura que já estava quebrada muito antes de ele pousar no Brasil. Mas o que a CBF faz agora, sinalizando permanência do treinador italiano após uma derrota de 2 a 1 para a Noruega com apenas 33,5% de posse de bola, é algo diferente: é recusar o diagnóstico enquanto o paciente sangra na maca.
O que o número 33,5% esconde sobre a Seleção de Ancelotti
O percentual de posse registrado no MetLife Stadium, em Nova Jersey, no domingo (5), não foi um acidente de jogo. Foi o retrato de um time sem identidade coletiva, sem pressão organizada e sem capacidade de recuperar a bola em zonas de construção. Para efeito de comparação, a Noruega — eliminada nas quartas de final de Euro 2024 — teve 66,5% de posse contra o Brasil. A Noruega.
O jornalista e escritor Samindra Kunti, colaborador da BBC que acompanha a Seleção Brasileira há décadas, foi direto:
"Esta foi provavelmente a pior campanha do Brasil em uma Copa do Mundo desde 1990 — e, na minha vida, a pior que já cobri e assisti. E, para mim, tudo aponta para um declínio estrutural. Em certo sentido, esta campanha e a eliminação foram a tempestade perfeita: todos os fatores que levaram a esse declínio se juntaram."
A eliminação nas oitavas coloca o Brasil na 11ª colocação do Mundial, pior resultado desde 1966, quando a seleção caiu na fase de grupos na Inglaterra. O jejum em relação ao título de 2002 chega agora ao mínimo de 28 anos — e, com a próxima Copa sendo em 2030, esse número só cresce. Nenhuma geração viva de torcedores brasileiros passou tanto tempo sem ver o hexa.
A negação da CBF e a ilusão do nome Ancelotti
A diretoria da Confederação Brasileira de Futebol age, nos bastidores, como se o problema fosse conjuntural. A lógica interna é conhecida: Ancelotti é um nome global, vencedor da Champions League em múltiplas ocasiões, e sua presença protege a imagem institucional da CBF no exterior. Demiti-lo seria admitir o fracasso do projeto.
O problema é que esse raciocínio ignora o que a eliminação para a Noruega realmente revelou. Kunti articula a questão com precisão cirúrgica:
"O Brasil simplesmente foi ultrapassado pela Europa. A Europa industrializou sua formação de base, sua produção de talentos. Os exemplos são numerosos: Bélgica, Holanda, Croácia, Inglaterra, França e, em certa medida, a Noruega. E existe no Brasil, eu acho, um sentimento de negação."
Esse sentimento de negação, descrito pelo jornalista britânico, tem endereço preciso: é o mesmo ambiente em que dirigentes do futebol brasileiro ainda repetem, com orgulho, que somos pentacampeões — como se o título de 2002 fosse um cheque em branco que não expira. No compasso do Pelourinho numa tarde de festa, todo mundo sorri para a câmera. Mas a fatura chega.
Jornais internacionais foram ainda mais diretos. Um dos principais veículos britânicos questionou publicamente se a Seleção Brasileira se transformou numa marca em vez de um time, conforme registrado por SportNavo ao compilar a repercussão internacional após a eliminação. A pergunta não é retórica: uma marca vende camisas, gera receita e protege reputações. Um time vence partidas.
O elenco de 2026 e a escassez de astros globais
Kunti toca num ponto que nenhum dirigente da CBF quer discutir publicamente: quantos jogadores desse elenco são astros de primeira grandeza no cenário mundial? A resposta, segundo ele, é brutalmente limitada. Vinicius Jr. é o nome incontestável. A partir daí, o argumento se complica.
O Brasil chegou à Copa de 2026 sem uma linha de construção confiável, com Raphinha oscilando entre grandes jogadas e atuações apagadas, e com Rodrygo nunca encontrando seu papel definitivo no esquema de Ancelotti. Bruno Guimarães, um dos jogadores mais completos do elenco, desperdiçou pênalti decisivo. Não por falta de qualidade individual — mas por ausência de um sistema que criasse situações favoráveis de forma consistente.
O dado mais revelador não está no placar. Está na linha de produção. A Europa, como aponta Kunti, industrializou sua detecção de talentos. Países como Holanda e França têm metodologias de formação sub-17 e sub-20 auditadas, com métricas de desempenho, cobertura geográfica e integração entre clubes e seleções de base. O Brasil, que já teve no futebol de rua seu maior laboratório, não substituiu esse ambiente informal por nada estruturado o suficiente para competir no mesmo nível.
A geração que chegou ao MetLife Stadium foi formada em um sistema de base que ainda prioriza resultados imediatos nos torneios sub-17 e sub-20 em detrimento do desenvolvimento técnico de longo prazo. Clubes que revelam jogadores para exportação precoce — muitas vezes antes dos 18 anos — não acompanham o desenvolvimento subsequente desses atletas nos centros europeus. A seleção colhe o que esse modelo plantou.
A CBF tem até o fim de julho para anunciar oficialmente sua decisão sobre o futuro de Ancelotti. Segundo fontes ligadas à confederação, uma reunião do Comitê Técnico está prevista para a semana de 14 de julho, quando o tema será pautado formalmente. Se a permanência for confirmada, o italiano terá de apresentar um plano de trabalho que inclua reformulação do elenco e, principalmente, integração com as categorias de base — algo que, até aqui, jamais foi cobrado com rigor pela diretoria.










