Não é a primeira vez que o Brasil chega a uma Copa do Mundo com Neymar na maca. Em 2014, o camisa 10 foi carregado de campo após fraturar uma vértebra contra a Colômbia nas quartas de final e o país assistiu, atônito, ao 7 a 1 que se tornou a maior humilhação da história da Seleção Brasileira. Em 2018, chegou ao torneio na Rússia com a tornozeleira ainda dolorida de uma lesão no metatarso e foi eliminado pela Bélgica nas quartas. Agora, em 2026, a cena se repete com variação de diagnóstico: é a panturrilha direita que o impede de jogar, e o roteiro de espera ganhou até nome de projeto.
A lesão que o tirou antes mesmo de a Copa começar
O incidente aconteceu em 17 de maio, numa partida do Santos contra o Coritiba pelo Brasileirão. Na próxima quarta-feira (17), completará exatamente um mês desde o momento em que Neymar saiu de campo com dor na panturrilha direita. Médicos ortopedistas ouvidos pela CNN Brasil estimam um tempo médio de recuperação de três semanas para esse tipo de lesão muscular, acrescido de três a quatro dias adicionais para reconquistar o condicionamento físico perdido durante o período de treinos controlados. A matemática é crua: mesmo que a evolução seja favorável, o retorno ao gramado não chegaria antes da segunda rodada da fase de grupos.
A CBF confirmou, nesta semana, uma melhora no quadro clínico do jogador, mas não detalhou a natureza da evolução nem apresentou qualquer previsão concreta de retorno aos treinos coletivos. A previsão é que Neymar repita exames na panturrilha ainda nesta semana, o que deve dar ao estafe médico uma leitura mais precisa sobre os próximos passos.
O Projeto Neymar e a rotina de duas sessões por dia
Neymar está "sem condição de jogo", segundo fontes ouvidas pela CNN Brasil. A ausência contra Marrocos, neste sábado (13) no MetLife Stadium em Nova Jersey, é descartada, e a presença diante do Haiti, na segunda rodada, é classificada como grande incerteza. O que existe, em contrapartida, é uma estrutura montada especificamente para acelerar a recuperação: o chamado "Projeto Neymar".
A rotina prevê duas sessões diárias — academia e fisioterapia — com acompanhamento médico e nutricional contínuo. Segundo apuração da apresentadora Ludmilla Candal, Neymar realizou um treino na academia neste próprio sábado, dia da estreia do Brasil. O plano inclui ainda sessões nos dias de descanso da Seleção, o que evidencia a urgência de cada hora perdida.

"Neymar está sem condição de jogo", confirmaram fontes à CNN Brasil, descartando qualquer participação do atacante na estreia contra Marrocos.
A presença física de Neymar no estádio, mesmo sem jogar, foi registrada na última segunda-feira (8). A CBF enxerga esse gesto como uma forma de liderança simbólica — o craque no banco, de olho no jogo, transmitindo ao elenco a mensagem de que está presente no processo. É um recurso que tem valor emocional, mas não resolve o problema tático que Ancelotti precisa enfrentar agora.
O peso dos oito gols que ficam no banco de reservas
Quem não tem cão caça com gato — e o Brasil de Carlo Ancelotti chega à estreia desta Copa com um dado que expõe a dimensão do problema. Os jogadores disponíveis para o técnico italiano somam apenas três gols em edições anteriores de Copa do Mundo: um de Casemiro, um de Vinícius Júnior e um de Lucas Paquetá. Neymar, sozinho, acumula oito gols em Mundiais, liderando com folga esse ranking entre os convocados.
Onze jogadores do atual elenco vivem sua primeira experiência em Copa do Mundo nesta edição. Para ter dimensão histórica do que isso significa: em 1994, o Brasil campeão em Pasadena tinha Romário e Bebeto como dupla de ataque com mais de 40 gols somados em Mundiais. Em 2002, Ronaldo chegou ao torneio japonês-coreano com nove gols em edições anteriores e adicionou mais oito na campanha do penta. A dependência de um único nome não é novidade na história verde-amarela, mas raramente ela ficou tão exposta logo na abertura de um torneio.

"A dependência histórica recente do Brasil em nomes específicos no cenário ofensivo fica reforçada com esses números", apontou análise publicada pelo Lance! na véspera da estreia.
Quando Ancelotti organiza o ataque sem Neymar, ele precisa redistribuir funções que o camisa 10 concentrava: criação em espaços reduzidos, cobranças de falta, penalidades e a capacidade de segurar a bola sob pressão para dar respiro à equipe. Quando Vinicius Júnior tenta suprir esse vácuo, ele opera num registro diferente — mais vertical, mais dependente do espaço nas costas da defesa adversária. São perfis que não se substituem por decreto.
Os cenários possíveis até o mata-mata
O plano da CBF, segundo as fontes consultadas, é preservar Neymar para a fase eliminatória. A lógica tem fundamento: se o Brasil avançar como esperado na fase de grupos, o mata-mata começa apenas no final de junho. Isso daria ao atacante tempo suficiente para completar a recuperação, retomar o ritmo em treinos coletivos e chegar a uma oitava de final em condições de jogar ao menos parte de uma partida.
O risco dessa estratégia é duplo. Primeiro, a fase de grupos não é garantida — o Marrocos, que eliminou Portugal e Espanha na Copa do Catar em 2022, não é adversário que se despacha por decreto. Segundo, um atleta de 34 anos que ficou quase um mês sem treinar em campo aberto não retorna a 100% em quatro dias de atividade física. A história do próprio Neymar em 2018 é o exemplo mais próximo: voltou antes do tempo ideal, jogou abaixo do esperado e viu o Brasil cair para a Bélgica por 2 a 1.
Os exames de reavaliação previstos para esta semana serão determinantes. Se os resultados confirmarem a evolução descrita pela CBF, Neymar pode ser liberado para treinos com bola ainda antes do jogo contra o Haiti. Se os laudos indicarem que a lesão muscular ainda não consolidou, a espera se estende e o Brasil precisará resolver a fase de grupos sem seu maior artilheiro em Copas — e com apenas três gols de experiência mundial distribuídos por todo o restante do elenco. O próximo jogo do Brasil, contra o Haiti, está previsto para quarta-feira (17), data em que também se completa um mês exato da lesão sofrida em campo pelo Santos.








