Quanto custa transformar uma seleção mediana em candidata ao título de uma Copa do Mundo? A federação americana de futebol encontrou a resposta numa ligação para Wall Street — e o número que saiu dessa conversa mudou a história do futebol nos Estados Unidos.

A resposta não veio de uma só vez. Ela foi construída ao longo de meses de humilhação, reuniões em escritórios envidraçados de Manhattan e uma aposta bilionária que o mundo do futebol ainda não sabe se vai se pagar.

A eliminação que quebrou o orgulho americano em 2024

A Copa América de 2024 foi disputada em solo americano, com estádios lotados e expectativa histórica — e os EUA saíram cedo, eliminados de um torneio que deveriam usar como ensaio geral para o Mundial. O técnico Gregg Berhalter virou alvo imediato. Torcedores protestaram, dirigentes se reuniram em silêncio constrangedor e a percepção interna era clara: a equipe havia estagnado taticamente e não tinha capacidade de pressionar alto nem de criar volume ofensivo com consistência.

Do ponto de vista das métricas, o problema era visível. O time de Berhalter apresentava um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) elevado — o que indica pressão defensiva fraca, ou seja, o adversário conseguia circular a bola com facilidade antes de ser pressionado. Além disso, o xG (expected goals) gerado por partida estava abaixo de 1.2 nas eliminatórias, número compatível com seleções que dependem de lampejos individuais, não de um sistema coletivo funcional.

Berhalter foi demitido. E aí começou a parte inédita da história.

Kenneth Griffin, a Citadel e o modelo de financiamento que ninguém esperava

A U.S. Soccer não tinha tradição de contratar técnicos de elite mundial — nem dinheiro para isso. Historicamente, a federação americana raramente competiu com gigantes europeus na disputa por treinadores de ponta. O que mudou em 2024 foi a entrada de investidores privados dispostos a bancar esse salto.

Kenneth C. Griffin, fundador da gestora Citadel e um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, entrou como financiador principal do salário multimilionário do novo técnico. Scott Goodwin, dono da Diameter Capital, também participou do esforço. A presidente da federação, Cindy Parlow Cone, confirmou publicamente o apoio decisivo desses investidores para viabilizar uma contratação sem precedentes na história do futebol americano.

"A contratação simplesmente não seria possível sem o apoio de parceiros que acreditam no potencial do futebol nos Estados Unidos", disse Cindy Parlow Cone ao anunciar o acordo.

Quando faz esse tipo de movimento, o futebol americano sinaliza que quer competir de igual para igual com as potências tradicionais. Quando faz isso com dinheiro privado de Wall Street, ele cria um modelo de gestão esportiva que nenhuma outra federação nacional tentou em escala equivalente.

Pochettino e o projeto que vai além de um resultado na Copa

Entre os nomes avaliados estavam Jürgen Klopp, campeão da Liga dos Campeões e da Premier League pelo Liverpool, e Mauricio Pochettino, que havia deixado recentemente o Chelsea. O escolhido foi o argentino — e a escolha diz muito sobre o perfil tático que a federação queria implantar.

Pochettino é reconhecido por construir sistemas de pressão alta intensa, com PPDA baixíssimo (times bem treinados por ele chegam a valores abaixo de 7, o que significa que o adversário precisa de menos de 7 passes antes de ser pressionado). Além disso, o argentino valoriza progressive passes — bolas que avançam o campo em direção ao gol adversário — como métrica central de desempenho ofensivo, algo que o time de Berhalter produzia em volume insuficiente.

As comparações entre os dois modelos são diretas:

  • PPDA sob Berhalter (Copa América 2024): estimado acima de 11 — pressão defensiva fraca
  • PPDA médio dos times de Pochettino (Chelsea 2023/24): abaixo de 8 — pressão organizada e consistente
  • xG gerado por partida (EUA, eliminatórias 2024): ~1.2 — dependência de lances individuais
  • xA (expected assists) médio nos sistemas de Pochettino: acima de 1.5 por jogo — criação distribuída entre múltiplos jogadores
"Queremos uma seleção que pressione, que domine territórios, que não espere o adversário errar", declarou Pochettino na sua apresentação como técnico dos Estados Unidos.

A leitura dominante sobre esse projeto é a de um investimento cirúrgico e bem-calculado: dinheiro certo, técnico certo, momento certo. A contra-leitura, porém, existe — e não é pequena. Nenhuma seleção nacional foi construída em menos de dois anos a partir de um aporte financeiro privado e chegou a uma Copa do Mundo como candidata real ao título. A Espanha levou uma geração. A França, duas. O Brasil nunca deixou de ser candidato porque o processo é contínuo, não pontual.

A síntese honesta está no meio: os EUA provavelmente não vão ganhar esta Copa, mas podem chegar mais longe do que em qualquer outra edição. A melhor campanha histórica americana em Mundiais foi a semifinal de 1930 — e superar isso, chegando às quartas ou semifinais de 2026, já seria uma revolução real, independente de quem pagou a conta.

Os Estados Unidos estrearam na Copa do Mundo 2026 contra o Paraguai. O próximo teste da seleção de Pochettino está marcado para 19 de junho, quando os americanos enfrentam o segundo adversário da fase de grupos — e é nessa partida que saberemos se o investimento de Wall Street produziu um time ou apenas um técnico caro num uniforme bonito.