O cheiro de açafrão e o som do farsi nas calçadas da Westwood Boulevard, em Los Angeles, criam uma ilusão de Teerã transplantada para a Califórnia. Mas neste domingo (21), a poucos quilômetros dali, o estádio onde Copa do Mundo recebe Irã e Bélgica transforma aquele cheiro familiar em algo mais acre — o odor de uma divisão política que nenhum resultado no placar vai resolver.
Tehrangeles e os 740 mil iranianos que os EUA abrigam
Segundo dados do Pew Research Center, a população iraniana nos Estados Unidos era estimada em 740 mil pessoas em 2024. Metade vive no estado da Califórnia, e cerca de 230 mil estão em Los Angeles e arredores — concentração suficiente para cunhar o apelido Tehrangeles, fusão de Teerã com Los Angeles. Ao longo da Westwood Boulevard, mercados iranianos, padarias e vitrines escritas em farsi dividem espaço com lojas de redes como 7-Eleven e cafeterias Starbucks, uma convivência que diz muito sobre a dupla identidade que essa comunidade carrega há décadas.
A maioria dessas famílias chegou depois da Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi e instalou o regime teocrático liderado pelo aiatolá Khomeini. Em frente a muitos estabelecimentos do bairro, a antiga bandeira iraniana — com o emblema do leão e do sol, símbolo pré-revolucionário — é exibida como declaração de pertencimento a um Irã que, para esses exilados, deixou de existir há 47 anos… e aí vem o problema.
A bandeira vetada pela Fifa e a rachadura dentro da diáspora
A Fifa proibiu o uso da bandeira do leão e do sol dentro dos estádios da Copa do Mundo 2026, por considerar que o símbolo contraria a regulamentação sobre materiais políticos em jogos. Ainda assim, torcedores a exibiram no primeiro jogo da seleção iraniana, num gesto que foi ao mesmo tempo desafio à federação e ao regime de Teerã — que também veta o símbolo em território nacional. A contradição é real: a mesma imagem que a oposição iraniana usa como estandarte de liberdade é proibida tanto pelo governo que eles combatem quanto pela entidade que organiza o torneio que eles decidiram frequentar.
Roozbeh Farahanipour, 54 anos, dono de restaurantes em Westwood e uma das vozes mais conhecidas da oposição iraniana em Los Angeles, representa o polo do boicote. Ele chegou aos Estados Unidos em 2000 após participar dos protestos estudantis de 1999 que desafiaram o regime — atuação que, segundo ele, lhe rendeu uma condenação à morte no Irã. Há 26 anos nos EUA, Farahanipour se tornou ativista e líder da comunidade exilada, e sua posição sobre a Copa é categórica.

"Tenho alergia à República Islâmica. Não quero assistir. Não quero ouvir o hino nacional. Não quero ver a bandeira", afirmou Farahanipour.
A frase resume uma visão compartilhada por parte significativa da diáspora: para eles, a seleção iraniana não representa o povo, mas o aparato de um Estado que prende, executa e reprime. Torcer pela equipe equivaleria, nessa leitura, a legitimar o regime que os expulsou.
O outro lado — e o que está em jogo além deste jogo
Mas a diáspora iraniana não é monolítica. Há quem defenda que o futebol e a política ocupam esferas separadas — ou que os jogadores da seleção são, eles próprios, filhos do mesmo povo oprimido, não agentes do Estado. Esse argumento ganhou força em 2022, quando jogadores do Irã na Copa do Mundo do Catar recusaram cantar o hino nacional em solidariedade aos protestos do movimento Mulher, Vida, Liberdade, deflagrados após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia moral iraniana. Naquele torneio, a tensão entre o time e o regime foi pública e documentada — o que complicou qualquer leitura simplista sobre a seleção como braço do governo.
Em matéria do SportNavo publicada durante a fase de grupos, o desempenho do goleiro iraniano contra a Bélgica — que terminou sem gols apesar de a equipe europeia jogar 30 minutos com um homem a mais — foi amplamente discutido nas redes sociais da comunidade iraniana nos EUA. Parte dos comentários celebrava a atuação como motivo de orgulho nacional; outra parte insistia que qualquer vitória seria instrumentalizada pelo regime como propaganda.
A Westwood Boulevard, a 15 quilômetros do estádio, é o mapa físico dessa divisão. Nas próximas rodadas da fase de grupos, a pressão sobre a diáspora só tende a crescer: se o Irã avançar, o debate sobre torcer ou boicotar vai se intensificar proporcionalmente ao avanço da seleção. Com 740 mil iranianos nos EUA e três jogos do grupo disputados em solo americano, cada partida é também um plebiscito informal sobre identidade, memória e o que significa pertencer a um país do qual se foi expulso.
É o mesmo dilema que comunidades cubanas em Miami viveram durante décadas ao ver atletas de Cuba competindo nos Jogos Olímpicos — só que agora a aposta é diferente, porque o campo está literalmente a 15 quilômetros de casa.








