"Quando você for ver Portugal jogar, vai sentir medo." Quem disse isso não foi um torcedor ansioso nem um comentarista de sofá. Foi Fabio Cannavaro, o homem que ergueu a taça do mundo em 2006, que usou a Bola de Ouro como paperweight por um ano inteiro — e que agora, duas décadas depois, senta na cadeira de técnico do Uzbequistão na primeira Copa do Mundo da história do país. O medo, neste caso, não é fraqueza. É inteligência tática disfarçada de honestidade.
O peso de uma estreia que o Uzbequistão esperou décadas
Houston, segunda-feira, 22 de junho. O calor úmido da cidade texana cola na roupa desde cedo, e o vestiário uzbeque carrega uma tensão que vai além do clima. Cannavaro concedeu entrevista coletiva com a tranquilidade de quem já viu tudo — e a franqueza de quem sabe que não tem nada a esconder. A derrota por 3 a 1 para a Colômbia na estreia ainda está fresca, e amanhã o adversário é Portugal.
Reparemos no detalhe: este não é apenas o primeiro jogo do Uzbequistão contra uma potência europeia numa Copa. É a primeira Copa do Mundo da história uzbeque, ponto. Cannavaro foi o arquiteto dessa classificação, conduzindo a seleção da Ásia Central por uma campanha que terminou com o passaporte histórico para os Estados Unidos. O peso disso não some com uma derrota. Mas uma segunda derrota, especialmente de goleada, pode encerrar o sonho antes que ele ganhe corpo.

O técnico italiano, de 52 anos, foi direto ao ponto quando perguntado sobre Cristiano Ronaldo. A resposta surpreendeu pela maturidade tática:
"Claro que não é um jogo contra o Cristiano, é um jogo contra uma das melhores seleções do mundo. Quando você for ver Portugal jogar, vai sentir medo, porque eles têm dois jogadores muito fortes, um dos melhores meio-campistas do mundo e um dos melhores atacantes da história do futebol, então não será fácil."
A referência ao "melhor meio-campista do mundo" aponta para Bruno Fernandes, motor criativo de Portugal que, nesta Copa do Mundo, já demonstrou que o time de Roberto Martínez não depende de um único nome para criar perigo. Cannavaro leu o adversário com olhos de zagueiro: viu o coletivo antes de ver o indivíduo.
Como Cannavaro pensa em travar Portugal sem se destruir no processo
A estratégia declarada pelo técnico tem uma lógica clara — e corajosa. Nada de especulação individual, nada de marcação homem a homem em Cristiano, nada de montar um bunker e torcer para o empate. Cannavaro quer que sua equipe jogue como equipe. Simples assim, e ao mesmo tempo extremamente difícil de executar contra Portugal.
"Estamos aqui na Copa do Mundo, temos que jogar a partida, temos que trabalhar em equipe, porque a única maneira de chegar aqui é com um resultado, porque se pensarmos em jogar individualmente, será muito complicado."
A declaração ecoa a filosofia que Cannavaro aprendeu nas trincheiras do futebol italiano — Juventus, Real Madrid, Napoli — onde a organização defensiva coletiva sempre valeu mais do que a genialidade individual. Ele foi o melhor zagueiro do mundo em 2006 exatamente porque entendia que nenhum defensor para Ronaldinho sozinho. Você para Ronaldinho com um sistema.
O problema concreto que o Uzbequistão enfrenta é de volume ofensivo português. Portugal marcou gols por diferentes vias na Copa do Mundo 2026, com participações distribuídas entre Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes e Bernardo Silva. Não existe um ponto único de pressão defensiva que resolva o problema. Cannavaro sabe disso melhor do que ninguém — e por isso o medo que ele descreve não é paralisante, mas realista.
O que ainda falta resolver antes das 14h desta terça-feira
A partida acontece nesta terça-feira, 23 de junho, às 14h no horário de Brasília, no Houston Stadium. Para o Uzbequistão, o cenário matemático é simples e brutal: uma segunda derrota praticamente encerra qualquer esperança de classificação para as oitavas de final. A Copa do Mundo de 2026, com 48 seleções e três times por grupo avançando, dá uma margem levemente maior — mas não o suficiente para absorver dois resultados negativos contra adversários do nível de Colômbia e Portugal.
A grande pergunta que Cannavaro ainda não respondeu publicamente — e que o vestiário uzbeque certamente debate em silêncio — é qual será o plano B se Portugal abrir o placar cedo. O Uzbequistão perdeu por 3 a 1 para a Colômbia, mas o placar não conta a história completa: a seleção centro-asiática mostrou organização nos primeiros 30 minutos antes de ceder. Repetir esse nível de concentração por 90 minutos contra Portugal será o verdadeiro teste do trabalho de Cannavaro.
Há também a questão emocional. Jogar contra Cristiano Ronaldo — um dos maiores de todos os tempos, com mais de 130 gols pela seleção portuguesa — carrega um peso simbólico que pode afetar jogadores que nunca estiveram neste palco. Cannavaro passou a semana tentando transformar esse peso em combustível. Se conseguiu, saberemos amanhã, às 14h, quando o árbitro apitar no calor de Houston.
"Quando você for ver Portugal jogar, vai sentir medo" — e amanhã, em campo, o Uzbequistão vai descobrir se esse medo pode ser transformado em resultado.








