Havia algo de teatral na cena. Um homem que marcou 69 gols pela seleção do Uruguai — e que foi cortado por Marcelo Bielsa sem cerimônia antes desta Copa do Mundo — observa o torneio de fora, como espectador, e ainda assim carrega autoridade suficiente para que o mundo pare e ouça quando ele fala. Luis Suárez, 39 anos, está nos Estados Unidos acompanhando a Celeste e, questionado sobre quem vai levantar a taça em julho, não hesitou: Espanha, Argentina, França e Inglaterra. O Brasil ficou de fora. Não foi esquecimento. Foi diagnóstico.
"É muito complicado dizer, uma Copa do Mundo é uma Copa do Mundo, existem algumas ótimas seleções... há várias que estão fazendo muito barulho. As quatro seleções que todos consideram favoritas, como Espanha, Argentina, França e Inglaterra, são as melhores."
A declaração de Suárez circulou rápido. E o que ela revela não é exatamente uma provocação — é um retrato. O atacante que disputou quatro Copas do Mundo, que mordeu Chiellini em 2014 e que ainda assim foi lembrado como um dos melhores atacantes do século, sabe o que é um torneio de alto nível. Quando ele não menciona o Brasil, não é por descuido.
O que Suárez viu nas quatro seleções que elegeu
A Espanha chega a esta Copa como a seleção mais consistente do planeta nos últimos dois anos. Campeã da Eurocopa de 2024, com um futebol de toque curto e pressão alta que lembra o auge do Tiki-Taka de 2010 — mas com mais velocidade e verticalidade. Pedri, Yamal e Morata formam uma linha ofensiva que combina criatividade com eficiência. A Argentina de Lionel Scaloni mantém o DNA campeão de 2022 e tem Lionel Messi, que já marcou 18 gols em Copas do Mundo, como o condutor de uma geração que aprendeu a ganhar quando o jogo aperta. A França de Didier Deschamps carrega Kylian Mbappé, que nesta Copa já demonstrou o alcance de um atacante que marca 1 gol por jogo em competições eliminatórias. A Inglaterra de Gareth Southgate — mesmo sem o talento descomunal que às vezes promete e não entrega — chegou à final da Eurocopa de 2024 e tem em Jude Bellingham e Harry Kane dois jogadores capazes de decidir partidas sozinhos.
Essas quatro seleções têm em comum algo que o Brasil desta Copa ainda não demonstrou com clareza: identidade tática consolidada sob pressão. Não é uma questão de elenco — o Brasil tem talento de sobra. É uma questão de entrega coletiva.
Por que o Brasil ficou de fora da lista
A exclusão do Brasil da lista de Suárez não nasceu do nada. Ela tem contexto. A Seleção Brasileira, sob o comando de Dorival Júnior, chegou a esta Copa do Mundo carregando uma campanha nas Eliminatórias que deixou dúvidas. O Brasil terminou as Eliminatórias Sul-Americanas em quinto lugar, com 21 pontos em 18 jogos — desempenho que contrasta com os 26 pontos conquistados na campanha para a Copa de 2018, quando Tite transformou a seleção numa máquina de resultados. Nos anos 90, quando o Brasil de Zagallo venceu o Mundial de 1994 nos Estados Unidos, a seleção chegou ao torneio invicta nas Eliminatórias e com uma coesão defensiva que Taffarel e Aldair personificavam. Essa clareza de propósito hoje está ausente.
O problema não é individual. Vinicius Jr., Rodrygo, Raphinha e Endrick formam um ataque de nível mundial. Mas o futebol coletivo ainda apresenta oscilações que fazem a seleção parecer dependente de lampejos individuais em vez de um sistema. Contra adversários que fecham os espaços e apostam no contra-ataque — como fez a Argentina em 2021, quando venceu o Brasil por 1 a 0 no Maracanã na final da Copa América —, a Seleção demonstra fragilidade na criação de jogadas elaboradas.
O Uruguai de Suárez e a ironia de quem observa de fora
Há uma ironia pesada na posição de Suárez. Ele está nos Estados Unidos não porque escolheu ser espectador, mas porque Marcelo Bielsa não o convocou. O técnico argentino, conhecido por sua rigidez tática e suas longas preleções que já duraram mais de quatro horas, decidiu que o atacante de 39 anos não se encaixava mais no modelo físico que a Celeste precisava para esta Copa. Suárez discordou em silêncio — e agora observa o torneio com a autoridade de quem jogou quatro Mundiais e sabe exatamente o que está vendo.
O Uruguai que está em campo, sem seu maior ídolo recente, vive uma situação delicada. Após empatar com a Arábia Saudita e com Cabo Verde na fase de grupos, a Celeste precisa vencer a Espanha na última rodada para ter chance de classificação. A partida está marcada para esta sexta-feira, 26 de junho, às 21h (horário de Brasília), com transmissão da CazéTV, disponível no Disney+. Matematicamente possível, praticamente improvável — e Suárez sabe disso melhor do que ninguém.
"É possível que uma quarta seleção fique para trás, uma das surpresas, então nunca se sabe", admitiu o uruguaio, abrindo espaço para o imprevisível sem abrir mão da sua hierarquia.
O que a declaração de Suárez projeta para as próximas rodadas
A análise publicada em matéria do SportNavo nas últimas semanas já apontava que o Brasil entra nesta Copa como um time tecnicamente talentoso, mas taticamente indefinido — e a leitura de Suárez confirma essa percepção a partir de um olhar externo e qualificado. As quatro seleções que o uruguaio elegeu têm algo que o Brasil ainda precisa provar neste torneio: a capacidade de vencer jogos feios, nos momentos em que o talento individual não é suficiente.
A Espanha mostra isso com a consistência de quem já eliminou adversários difíceis sem jogar seu melhor futebol. A Argentina mostrou em 2022, quando venceu a França nos pênaltis depois de estar perdendo por 2 a 0 na final. A França tem Mbappé para resolver quando o coletivo trava. A Inglaterra tem a frieza britânica de quem já aprendeu a sofrer em eliminatórias e sobreviver. O Brasil precisa mostrar, nas próximas rodadas, que tem essa capacidade. O próximo teste da Seleção, na fase eliminatória, vai revelar se Dorival Júnior encontrou a resposta — ou se Suárez estava certo desde o começo.








