Quarenta e oito horas depois do apito final, o estádio ainda vibrava nas redes sociais. Não era pelo placar — 4 a 2 sobre a Croácia é uma goleada confortável, não uma virada épica. Era pelo que aconteceu quando os 90 minutos acabaram: milhares de torcedores ingleses permaneceram nas arquibancadas e, de forma completamente espontânea, começaram a cantar Wonderwall. Os jogadores, em vez de sumirem no túnel, viraram de frente para as arquibancadas. Jude Bellingham ergueu os braços. Harry Kane fechou os olhos por um segundo. E o estádio inteiro — atletas e torcida — se transformou num coro de 60 mil vozes cantando uma música de 1995 como se fosse um salmo.

O que aconteceu nas arquibancadas depois da Croácia

A cena tem uma lógica histórica que merece ser destrinchada. Wonderwall foi lançada em outubro de 1995, no álbum (What's the Story) Morning Glory?, segundo disco do Oasis. Naquele mesmo mês, a Premier League completava sua terceira temporada na nova formatação — e o Manchester United de Ferguson liderava a tabela com 22 pontos em 10 jogos, numa das campanhas que culminaria no título com 82 pontos ao final da temporada 1995/96. A música nasceu, portanto, num momento em que o futebol inglês vivia sua própria reinvenção pós-Hillsborough, pós-Taylor Report, pós-estádios todos sentados. Cultura pop e futebol já estavam costurados naquele tecido britânico dos anos 90 de um jeito que o Continente nunca reproduziu com a mesma naturalidade.

O movimento desta Copa não surgiu do nada. Segundo relatos da imprensa britânica, a música começou a aparecer nos bares ao redor dos estádios já na estreia inglesa no torneio, crescendo organicamente a cada partida. Não houve campanha de marketing, não houve escolha de comissão técnica. Foi o tipo de fenômeno que os ingleses chamam de grassroots — de baixo para cima, das arquibancadas para o vestiário, não o caminho inverso.

"Wonderwall pertence às pessoas, e foi um momento mágico entre as pessoas e os jogadores. Boa sorte a todos que fizeram a viagem até aí", afirmou Noel Gallagher ao jornal britânico The Sun.

A frase de Gallagher é precisa porque não reivindica autoria do momento — ele reconhece que a música escapou do seu controle criativo décadas atrás e agora pertence a outra esfera. Isso, aliás, é um fenômeno documentado na musicologia do futebol: canções que viram hinos de arquibancada perdem o vínculo com o artista original e adquirem uma segunda vida completamente autônoma.

Por que 'Wonderwall' ameaça destronar 'Sweet Caroline' Como 'Wonderwall' virou o
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Por que 'Wonderwall' ameaça destronar 'Sweet Caroline'

Durante anos, Sweet Caroline — de Neil Diamond, lançada em 1969 — funcionou como o canto coletivo mais reconhecível da torcida inglesa em grandes torneios. A música ganhou tração especialmente a partir da Eurocopa de 2020 (disputada em 2021), quando a Inglaterra chegou à final e a canção virou trilha sonora dos pubs em todo o país. Mas há uma diferença estrutural entre as duas músicas que explica por que Wonderwall pode ter mais fôlego nesta Copa: ela é inglesa. Oasis é de Manchester. Noel e Liam Gallagher são filhos de imigrantes irlandeses criados no norte da Inglaterra — e isso carrega um peso identitário que uma balada americana dos anos 60 simplesmente não consegue replicar.

Há um paralelo curioso com a Itália de 2006. Antes da Copa da Alemanha, Il Calcio italiano vivia uma crise de identidade brutal — o escândalo do Calciopoli estourou durante o próprio torneio, em junho daquele ano. A seleção italiana, no entanto, se uniu em torno de uma narrativa de resistência, e o hino espontâneo que tomou conta das concentrações foi Azzurri d'Italia, música do repertório popular que nenhum dirigente da FIGC havia escolhido oficialmente. A Squadra Azzurra levantou a taça em Berlim no dia 9 de julho com 12 vitórias em 14 jogos contando as eliminatórias — e a canção ficou associada para sempre àquele ciclo. A Inglaterra de 2026 parece estar construindo sua própria versão desse fenômeno.

Harry Kane, que já soma 68 gols pela seleção inglesa, classificou a cena pós-Croácia como um dos momentos mais especiais de sua trajetória com a camisa dos Three Lions. Para um jogador que disputou a Copa de 2018 — quando a Inglaterra chegou às semifinais com 12 gols de Kane, artilheiro do torneio — e que carrega o peso histórico de ser o maior artilheiro da seleção, a declaração tem um peso que vai além do protocolo.

O que ainda falta para 'Wonderwall' se tornar definitivamente o símbolo desta Copa

A pergunta que fica em aberto é simples: a música sobrevive a uma derrota? Hinos espontâneos têm uma fragilidade que os hinos oficiais não têm — eles dependem de um ciclo de vitórias para se consolidar. Three Lions, de Baddiel, Skinner e Lightning Seeds, lançada para a Euro 1996, tornou-se o canto mais icônico do futebol inglês justamente porque sobreviveu à eliminação nas semifinais daquele torneio, nas cobranças de pênalti contra a Alemanha. A letra fala em derrota, em expectativa frustrada, em "trinta anos de dor" — e por isso ela ressoa mesmo quando a Inglaterra perde. Wonderwall não tem essa âncora emocional na letra; ela é sobre esperança genérica, sobre alguém que vai te salvar. Se a Inglaterra avançar, a música avança junto. Se cair nas quartas, o coro pode emudecer mais rápido do que começou.

A imprensa britânica já está dividida. Parte dos colunistas defende a formalização de Wonderwall como canto oficial da torcida, substituindo Sweet Caroline em definitivo. Outra parte argumenta que a beleza do fenômeno está exatamente na sua informalidade — e que qualquer tentativa de institucionalizar o canto mataria o que o torna especial. Gallagher, ao que tudo indica, prefere a segunda posição: ele não pediu royalties nem convocou entrevista coletiva. Apenas disse que a música pertence às pessoas.

A Inglaterra enfrenta sua próxima partida na Copa do Mundo 2026 com a expectativa de que as arquibancadas repitam a cena. Se isso acontecer, Wonderwall terá completado 31 anos de existência — lançada em 1995, gravada quando Jude Bellingham ainda não havia nascido — e se tornará o hino de uma geração que ela nunca previu alcançar.