Mais seleções, mais jogos, mais países representados. E um público progressivamente mais branco, mais rico, mais turista. Três dados sintetizam a contradição central da Copa do Mundo de 2026: 48 seleções participantes, 104 partidas disputadas e uma FIFA projetada para faturar cerca de R$ 50 bilhões com o torneio. A aritmética da inclusão, quando confrontada com a sociologia das arquibancadas, revela um paradoxo que nenhum comunicado oficial consegue esconder.

A maior Copa da história e a menor presença de quem a inventou

A ampliação do torneio de 32 para 48 seleções foi apresentada pela FIFA como a maior transformação do Mundial desde 1998 — quando o número de times saltou de 24 para 32. O argumento era de democratização: mais países africanos, mais sul-americanos, mais nações historicamente excluídas do maior palco do futebol mundial. O formato renovado gerou, de fato, surpresas na fase de grupos e tornou o mata-mata mais competitivo. Mas a diversidade no campo não se traduziu em diversidade nas cadeiras.

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O preço dos ingressos é o filtro mais eficiente que o mercado já inventou.

Copa do Mundo
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Segundo análises publicadas por jornalistas esportivos que acompanharam o torneio, os valores cobrados por entradas nas sedes norte-americanas foram descritos como obscenos — um adjetivo que raramente aparece em cobertura esportiva convencional, mas que aqui é tecnicamente preciso. Para um torcedor senegalês, marroquino ou equatoriano, o custo de ingresso, passagem aérea e hospedagem em cidades como Nova York, Los Angeles ou Dallas representa uma barreira financeira que não é contornável por entusiasmo ou amor ao futebol.

Encarecer é embranquecer — e isso não é metáfora

A socióloga e jornalista que assina este texto não usa a expressão "embranquecimento do público" como provocação retórica. Trata-se de uma consequência estrutural de um mundo construído sobre séculos de colonialismo — um sistema que saqueou a riqueza da África e das Américas, escravizou e exterminou populações inteiras e, depois, nunca reparou os crimes cometidos. Dentro dessa estrutura histórica, acesso a bens de consumo de alto custo segue sendo, majoritariamente, um privilégio branco.

"Encarecer é embranquecer. Temos mais times africanos e times sul-americanos e europeus de maioria negra — como a França —, mas o público é branco. Fica escancarado, fica impossível de não notar", escreveu uma colunista do UOL Esporte em análise publicada durante o torneio.

O que para o torcedor argentino é uma viagem cara mas viável — dado que o país sedeia Copa América com regularidade e tem histórico de deslocamentos regionais —, para o torcedor ganês ou costa-marfinense representa uma impossibilidade econômica concreta, não uma questão de prioridade pessoal. A distância não é geográfica. É de renda.

O geógrafo britânico David Harvey descreve o fenômeno contemporâneo como acumulação por despossessão: um processo em que o capital se concentra no topo da pirâmide social por meio de mecanismos que retiram recursos da base sem contrapartida redistributiva. A Copa de 2026 é um exemplo aplicado desse conceito. A FIFA, uma corporação com sede em Zurique, fatura R$ 50 bilhões. Os estádios são construídos ou reformados com dinheiro público norte-americano. E parte significativa da operação é sustentada por trabalho voluntário não remunerado — uma prática que, como observou a cobertura crítica do torneio, pode não ser ilegal, mas é moralmente indefensável.

O modelo de negócio que transforma estádio em resort

Com 104 jogos na fase de grupos — 40 a mais do que no formato anterior —, a Copa de 2026 multiplicou as oportunidades de aposta esportiva em escala global. O mercado de apostas, que já havia se expandido exponencialmente nos últimos cinco anos no Brasil e em outros países em desenvolvimento, encontrou no torneio um catalisador sem precedente. Mais partidas significam mais mercados, mais volume financeiro circulando e, segundo especialistas em saúde pública, mais deterioração social associada ao vício.

Nas arquibancadas, o perfil predominante era de turistas com poder aquisitivo elevado, majoritariamente provenientes de países ricos. O estádio como produto de luxo — com camarotes, experiências VIP e pacotes que incluem transfer e jantar — é a versão esportiva do que a literatura econômica chama de gentrificação: a expulsão de populações originais de um espaço que historicamente lhes pertencia, substituídas por quem pode pagar mais.

"A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história como a primeira com 48 seleções e trouxe novidades em sua dinâmica", registrou a cobertura do UOL Esporte — mas os recordes pulverizados na primeira fase conviveram com críticas ao formato que protegeu os grandes favoritos de confrontos difíceis logo de início.

O que o torneio revela sobre as estruturas que não mudaram

O tratamento desigual dispensado a diferentes delegações ao longo do torneio — com relatos de dificuldades burocráticas e operacionais enfrentadas por seleções africanas, como Senegal, e situações constrangedoras envolvendo árbitros de países como a Somália — expôs o que a ampliação numérica não foi capaz de disfarçar: as hierarquias raciais e econômicas que organizam o futebol mundial são as mesmas que organizam o mundo.

Com 32 seleções, essas assimetrias existiam. Com 48, ficaram escancaradas.

A próxima Copa do Mundo, em 2030, será realizada em seis países de três continentes — Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Uruguai e Paraguai —, com o potencial de aproximar geograficamente torcedores sul-americanos e africanos do torneio. Se a FIFA vai acompanhar essa descentralização geográfica com uma política real de democratização de preços, ou se vai apenas exportar o modelo de resort esportivo para novos territórios, é a pergunta que os dados de 2026 tornam urgente responder antes que o ingresso mais barato disponível já tenha esgotado.