— Ei, o Brasil pode pegar a Alemanha nos 16 avos?
— Depende de quem terminar em terceiro no grupo deles.
— Que grupo deles? Tem 12 grupos agora.
Essa conversa aconteceu em pelo menos um bar de cada cidade do Brasil nas últimas semanas. E a confusão é legítima: a Copa do Mundo de 2026 introduziu uma fase eliminatória inédita, com um chaveamento tão ramificado que a própria Fifa registrou 495 combinações possíveis de duelos antes das oitavas de final. Quem acha que entendeu o formato na primeira leitura, provavelmente não entendeu.

A matemática por trás dos "16 avos" que ninguém sabia pronunciar

O nome causou estranheza imediata nas redes sociais, mas a lógica é antiga. Competições eliminatórias europeias — da Copa do Rei espanhola à Copa da Itália, passando pelo tênis de Grand Slam — utilizam há décadas a nomenclatura fracionária para identificar fases. Nas quartas de final, restam oito equipes. Nas oitavas, dezesseis. Nos 16 avos de final, são exatamente 32 seleções disputando 16 vagas, o que corresponde à fração 1/16 da competição ainda por resolver. A Fifa adotou o termo em português seguindo essa mesma lógica, enquanto em inglês optou pela expressão mais direta Round of 32. O conceito não é novo — a novidade é que a Copa do Mundo nunca havia chegado a esse estágio antes de 2026.

FASE DE GRUPOS CHEGOU AO FIM! | Central da Copa | Copa do Mundo 2026 | ge.globo

Quando se compara com formatos históricos, a escala da mudança fica evidente. A Copa de 1994, nos Estados Unidos, tinha 24 seleções e uma fase de grupos com eliminação direta para as oitavas. A edição de 1998, na França, ampliou para 32 equipes e consolidou o modelo que durou 28 anos — oito grupos de quatro, dois classificados por chave, direto para as oitavas. Era previsível, quase mecânico. Agora, com 48 seleções em 12 grupos de quatro, a matemática exigiu uma etapa intermediária, e o chaveamento ganhou uma complexidade que não existia nem no formato de 24 seleções dos anos 80 e 90.

Como a Fifa define quem joga contra quem nos 32 avos

Aqui mora o ponto que mais confunde. Os dois primeiros de cada um dos 12 grupos avançam automaticamente — são 24 seleções. Os oito melhores terceiros colocados completam o quadro de 32. O problema é que esses oito terceiros vêm de grupos diferentes, e a Fifa pré-definiu quais primeiros e segundos colocados podem cruzar com quais terceiros, dependendo de quais grupos produzirem esses classificados extras.

O regulamento estabelece, por exemplo, que o primeiro colocado do Grupo E pode enfrentar o melhor terceiro dos grupos A, B, C, D ou F — cinco possibilidades distintas, dependendo de quais grupos gerarem os oito melhores terceiros. Da mesma forma, o líder do Grupo I enfrenta o melhor terceiro entre os grupos C, D, F, G ou H. Alguns cruzamentos são mais diretos: o primeiro do Grupo C joga contra o segundo do Grupo F, sem variação. Esse é o tipo de duelo que permite projeções mais seguras. Segundo o regulamento oficial da Fifa, são exatamente 495 combinações possíveis de confrontos para essa fase, número que explica por que qualquer tabela publicada antes do encerramento da fase de grupos é provisória.

Quando o chaveamento tem essa estrutura, ele protege seleções do mesmo grupo de se reencontrarem cedo — lógica já aplicada na Champions League desde os anos 90. Quando o chaveamento ignora essa proteção, surgem anomalias como a Copa de 1982, em que Brasil e Argentina poderiam ter se eliminado mutuamente antes das semifinais. A Fifa aprendeu com esses episódios e desenhou o novo formato para evitar colisões prematuras entre seleções do mesmo grupo.

Os critérios de desempate que podem mudar tudo antes do mata-mata

Com 12 grupos e oito vagas para melhores terceiros, o desempate na fase de grupos ganhou peso inédito. A Fifa estabeleceu uma hierarquia clara: primeiro, o confronto direto entre as seleções empatadas em pontos — maior pontuação nos jogos entre elas, depois saldo de gols nesses confrontos, depois gols marcados nesses confrontos. Se a igualdade persistir, entram os números gerais da fase de grupos: saldo de gols total, gols marcados total e, em seguida, o índice disciplinar.

O índice de fair play funciona com pontuação negativa: cartão amarelo desconta 1 ponto, expulsão por segundo amarelo desconta 3, vermelho direto desconta 4, e amarelo seguido de vermelho direto desconta 5. A seleção com menos punições acumuladas leva vantagem. Se ainda assim persistir o empate, a Fifa recorre ao ranking mundial da entidade, na versão mais recente disponível — e, se necessário, em versões anteriores até que haja uma definição. Como diria o ditado: quem não tem cão caça com gato, e a Fifa, sem critério objetivo final, foi buscar no ranking a última palavra.

Quem acompanhou a Copa de 2018, na Rússia, lembra que o Japão eliminou o Senegal justamente pelo fair play, após ambas terminarem com seis pontos, mesmo saldo de gols e mesmo número de gols marcados. Foi a primeira vez na história que o critério disciplinar decidiu uma classificação em Copa do Mundo. Em 2026, com 12 grupos e a corrida pelos oito melhores terceiros — comparando seleções de grupos diferentes —, esse tipo de situação tem probabilidade estatisticamente maior de se repetir.

Para o Brasil, que lidera o Grupo C e tem cruzamento pré-definido contra o segundo do Grupo F, o chaveamento oferece relativa previsibilidade nessa primeira fase eliminatória. A seleção brasileira estreia no mata-mata no dia 29 de junho, e o adversário já está definido: o Japão, segundo colocado do Grupo F. Esse é um dos poucos confrontos da fase de 32 que independe de qual combinação de terceiros se concretize — e talvez o único que o torcedor brasileiro possa anotar na agenda sem asterisco.