O quinto gol já tinha saído quando Romelu Lukaku levantou os braços no BC Place, em Vancouver, e o placar de 5 a 1 sobre a Nova Zelândia tornou oficial o que a torcida belga esperava desde 2022: a Copa do Mundo ainda tem espaço para esta seleção, mesmo sem Eden Hazard. Era a madrugada de sábado, 27 de junho de 2026, e os Diabos Vermelhos fechavam o Grupo G na liderança — dois empates frustrantes nas rodadas anteriores apagados por uma noite de futebol verticalmente eficiente.
O que Trossard e De Bruyne fizeram que Hazard não pode mais fazer
Eden Hazard se aposentou da seleção belga em 2023, encerrando um ciclo que incluiu a semifinal da Copa de 2018, na Rússia, quando a Bélgica eliminou o Brasil por 2 a 1 e chegou a ser considerada a melhor equipe do torneio. Naquela campanha, Hazard foi o fio condutor de um time que tinha Lukaku, De Bruyne, Courtois e Kompany — a chamada Geração de Ouro. Daquela escalação, apenas De Bruyne e Lukaku ainda vestem a camisa belga em 2026.
Contra a Nova Zelândia, foi Leandro Trossard quem ocupou o vácuo deixado pela ausência do ex-capitão. Aos 27 minutos do primeiro tempo, aproveitou escanteio cobrado por De Bruyne e empurrou para as redes. Na volta do intervalo, aos quatro minutos, finalizou duas vezes dentro da área antes de vencer o goleiro Crocombe. Dois gols, dois instintos de área — o tipo de contribuição que Hazard, em sua fase mais criativa, raramente oferecia, pois preferia construir do que concluir.
Kevin De Bruyne, aos 34 anos, funcionou como o metrônomo que esta equipe sempre precisou. Aos 23 minutos da etapa final, dominou com a perna direita e bateu cruzado no cantinho para fazer o terceiro. A cena resumiu o que o meia do Manchester City representa estatisticamente: em Copas do Mundo, De Bruyne acumula participações diretas em gols em todas as edições em que disputou ao menos dois jogos — 2014, 2018 e agora 2026.
"A Bélgica de 2026 não é melhor do que a de 2018, mas é mais madura coletivamente. Eles aprenderam que depender de um único gênio é uma aposta arriscada em Copa do Mundo", avaliou um comentarista especializado em futebol europeu durante a transmissão da partida.
Lukaku saindo do banco ainda é uma arma letal
Romelu Lukaku entrou em campo aos 40 minutos do segundo tempo, com o placar em 3 a 1 após o gol de consolação do neozelandês Just, que aproveitou rebote de Courtois para diminuir. Em seu primeiro toque na bola, o centroavante completou de cabeça o cruzamento de Raskin para fazer o quarto. Nos acréscimos, ainda serviu Saelemaekers para fechar o placar em 5 a 1.
O episódio tem peso histórico. Lukaku é o maior artilheiro da história da seleção belga, com mais de 80 gols em partidas oficiais. Em Copas do Mundo, marcou em 2014 contra a Argélia e a Coreia do Sul, e em 2018 contra a Tunísia e o Japão. A capacidade de decidir como reserva, em menos de 15 minutos de jogo, demonstra que sua influência transcende a titularidade — um recurso tático que o técnico belga soube preservar para os momentos críticos.
A goleada também projetou a Bélgica à liderança do Grupo G por saldo de gols, ultrapassando o Egito, que no mesmo dia, no Lumen Field em Seattle, empatou por 1 a 1 com o Irã e garantiu a segunda vaga. Os egípcios saíram na frente aos quatro minutos, com Mahmoud Saber aproveitando rebote após chute de Mohamed Salah, mas cederam o empate aos 13 minutos, quando Rezaeian fuzilou no rebote após espalmada do goleiro. O resultado foi suficiente para a classificação egípcia em segundo lugar.
A campanha belga em números e o peso dos dois empates iniciais
Nas duas primeiras rodadas do Grupo G, a Bélgica somou apenas dois pontos — um empate contra o Egito e outro contra o Irã — desempenho que gerou comparações com a frustração de 2022, quando os belgas foram eliminados na fase de grupos do Catar após empatar com a Croácia por 0 a 0. Naquele torneio, De Bruyne chegou a declarar publicamente que o grupo estava "velho demais" para jogar em alta intensidade por 90 minutos.
Em 2026, o panorama mudou parcialmente. A ausência de Hazard, Dembélé e Witsel criou espaço para nomes como Trossard, Saelemaekers e Raskin, que têm entre 24 e 27 anos. O saldo de gols agora é de +4 após três jogos — o melhor índice ofensivo da chave. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, a Bélgica foi a equipe que mais finalizou no Grupo G, com 47 chutes ao longo das três partidas.
A pergunta que persiste, e que só o mata-mata responderá, é se essa geração tem profundidade de banco suficiente. Em 2018, quando a Bélgica chegou ao terceiro lugar — melhor resultado histórico —, tinha Fellaini como opção de impacto, Chadli como coringa e Mertens como alternativa criativa. O banco atual é menos testado em jogos de alta pressão.
O que espera a Bélgica e o Egito na próxima fase
Líder do Grupo G, a Bélgica enfrentará o segundo colocado do Grupo H nas oitavas de final. O Egito, por sua vez, terá pela frente a Austrália, segunda colocada do Grupo D — confronto que coloca Salah diante de uma seleção com histórico de surpresas em Copas, como a classificação para as quartas de final no Catar em 2022, quando eliminou a Dinamarca e a Argentina na fase de grupos antes de cair para a Argentina nas oitavas.
Para a Bélgica, a goleada sobre a Nova Zelândia funciona menos como resposta definitiva e mais como um acerto de tom. Trossard provou que pode ser protagonista; De Bruyne confirmou que ainda conduz; Lukaku demonstrou que é uma faca no coldre. Mas o futebol de Copa tem a crueldade de exigir repetição — e uma goleada sobre a 34ª colocada do ranking FIFA pesa diferente de uma vitória sobre adversários do nível que virá a seguir. A Bélgica entra nas oitavas como uma receita que ainda precisa ser provada no fogo alto.








