Se a Copa do Mundo tivesse uma regra mais absurda do que a do espanhol proibido, alguém precisaria inventá-la. A Fifa chegou à quinta edição do torneio com 48 seleções, mais de 200 credenciados de imprensa e uma determinação que, na prática, impediu Vinícius Júnior e o capitão marroquino Achraf Hakimi de responderem perguntas no idioma mais falado do continente-sede. A pressão que se seguiu foi tão intensa quanto um temporal que se forma em segundos e vira furacão antes de qualquer aviso — e em menos de dois dias, a entidade recuou completamente.

O episódio aconteceu após o empate de 1 a 1 entre Brasil e Marrocos, no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Nas zonas mistas e nas coletivas pós-jogo, repórteres que tentaram fazer perguntas em espanhol foram interrompidos pela organização da Fifa, que não dispunha de tradutores para o idioma naquela partida específica. Vini Jr e Hakimi ficaram impossibilitados de responder — e os vídeos das cenas viralizaram nas redes sociais em questão de horas.

O número que explica a falha operacional da Fifa

A Fifa explicou ao ge que o problema foi de natureza logística: antes de cada jogo, as delegações informam à entidade em quais idiomas desejam que as entrevistas sejam traduzidas. No caso de Brasil x Marrocos, a delegação brasileira solicitou português e italiano — este último para garantir que Carlo Ancelotti pudesse se expressar em sua língua materna se necessário. Marrocos pediu árabe e francês. Ninguém pediu espanhol. Com isso, nenhum tradutor foi alocado para o idioma, e jornalistas hispanohablantes ficaram sem canal de comunicação com os atletas.

O dado que torna esse episódio ainda mais difícil de digerir: o México é um dos três países-sede da Copa do Mundo 2026, ao lado de Estados Unidos e Canadá. O espanhol não é apenas um idioma relevante no contexto do torneio — é a língua oficial de um terço do território-sede. Ignorar isso em qualquer partida, independentemente das seleções envolvidas, é uma falha de planejamento que não se explica com argumentos operacionais.

A reversão da Fifa e o que muda agora para Vini Jr e os demais jogadores

Após a repercussão negativa — que incluiu questionamentos de jornalistas, ex-jogadores e torcedores em múltiplos países —, a Fifa anunciou a reversão da medida. A partir do recuo, a entidade passa a disponibilizar sempre tradutores para o espanhol em todas as partidas do torneio, a exemplo do que já era feito com o inglês. Também ficou estabelecido que haverá tradução para o idioma predominante nos dois países envolvidos em cada jogo, o que amplia a cobertura linguística de forma estrutural.

"Tratou-se de uma questão operacional", respondeu a Fifa ao ge, ao ser questionada sobre os motivos da proibição original — uma explicação que não convenceu boa parte da imprensa especializada.

Para Vinícius Júnior, a mudança tem impacto direto. O atacante do Real Madrid vive há anos em Madri, onde o espanhol é seu idioma cotidiano fora dos treinos e das entrevistas em português. Ter sido impedido de se comunicar em espanhol — uma língua em que claramente se sente à vontade — representou uma restrição desnecessária que a própria Fifa reconheceu indiretamente ao rever a norma.

O que o episódio revela sobre a gestão da Copa do Mundo 2026

Matéria publicada no SportNavo já havia apontado as contradições na comunicação da Fifa durante a fase de grupos. O caso do espanhol é mais um dado nessa série: a entidade organizou um torneio em três países, com diferentes línguas e culturas, sem criar um protocolo unificado de comunicação que contemplasse os idiomas dos anfitriões. O inglês sempre teve tradutores disponíveis. O espanhol, não — até a polêmica forçar a correção.

  • Antes do recuo: tradutores alocados apenas conforme solicitação prévia das delegações, sem garantia de cobertura para o espanhol
  • Após o recuo: espanhol disponível em todas as partidas, com tradutores fixos, independentemente dos países envolvidos
  • Língua do país-sede: tradução garantida para o idioma predominante nas duas nações que disputam cada jogo

Hakimi, que além do árabe e do francês fala espanhol fluentemente por ter se formado no Real Madrid e jogado no Atlético de Madri, também foi diretamente afetado. O capitão marroquino é um dos jogadores mais versáteis linguisticamente do torneio — e foi exatamente ele quem ficou mudo em espanhol por uma decisão burocrática que a própria Fifa não soube defender com consistência.

O próximo jogo do Brasil na Copa do Mundo 2026 está marcado para a fase de grupos, com a delegação de Ancelotti já ciente de que pode solicitar os idiomas desejados — mas agora com a garantia de que o espanhol estará disponível independentemente do que qualquer delegação pedir. A Fifa corrigiu o erro. O registro de que cometeu um, esse fica.