Quantas vezes, na história da Copa do Mundo, uma seleção considerada favorita ao título precisou abrir o torneio sem o seu jogador mais desequilibrante — e ainda assim passou pela fase de grupos sem arranhões? A pergunta não é retórica por acidente: ela define exatamente o dilema que Luis de la Fuente enfrenta nesta segunda-feira, 15 de junho, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, diante de Copa do Mundo que começa com um desfalque de peso.

Lamine Yamal, 17 anos e melhor jovem da Eurocopa 2024, não entra em campo desde abril. O diagnóstico é uma lesão no bíceps femoral da perna esquerda, e a equipe médica da seleção espanhola tem feito visitas regulares ao Barcelona para acompanhar sua evolução. Segundo o site The Athletic, ele é desfalque confirmado contra Cabo Verde e grande dúvida para o segundo jogo do Grupo H, contra a Arábia Saudita, no dia 21 de junho. O próprio atacante, em declaração que circulou nas redes sociais, prometeu:

"Voltarei mais forte, com mais vontade do que nunca."
A frase tem o tom de quem sabe que o torneio pode passar sem ele por mais tempo do que o planejado.

O que os números da Espanha dizem antes de Yamal aparecer

A Espanha chega invicta há 30 jogos sob o comando de De la Fuente — um ciclo que inclui a conquista da Eurocopa 2024 e da Liga das Nações. Essa sequência, por si só, já responde parte da pergunta inicial: esta seleção não é um time de um homem só. Basta lembrar que a Espanha de 2010, que venceu o Mundial na África do Sul, era uma máquina coletiva construída sobre o tripé Xavi-Iniesta-Villa, sem uma estrela isolada que carregasse o peso sozinha. Quando Fernando Torres saiu lesionado nos momentos decisivos daquele torneio, David Villa assumiu a artilharia com seis gols. A lógica de substituição funcional sempre foi uma marca registrada de La Roja.

Nos amistosos de preparação para esta Copa, a Espanha empatou com o Iraque por 1 a 1 e venceu o Peru por 3 a 1 — resultados que revelam um time ainda em calibragem, mas com repertório tático suficiente para absorver ausências. A escalação provável para hoje confirma isso: Unai Simón na meta; Llorente, Laporte, Cubarsí e Cucurella na defesa; Rodri, Pedri e Fabián Ruiz no meio; Ferrán Torres, Oyarzabal e Dani Olmo ou Baena no ataque.

Víctor Muñoz e a lógica de quem não tem cão caça com gato

No futebol, quem não tem cão caça com gato — e o gato de De la Fuente atende pelo nome de Víctor Muñoz. O ponta de Osasuna teve uma temporada 2025/2026 acima da média na La Liga, consolidando-se como uma das revelações do campeonato espanhol e ganhando espaço na lista de alternativas do técnico para o flanco direito. Muñoz não tem a explosão de Yamal nem a capacidade de driblar em velocidade máxima que torna o barcelonista tão imprevisível, mas entrega consistência posicional e leitura de jogo que De la Fuente valoriza dentro do seu esquema de pressão alta.

A comparação histórica que vem à mente é a de Salinas substituindo Butragueño na Espanha dos anos 90 — um jogador tecnicamente inferior ao titular, mas capaz de cumprir a função tática sem desmontar o sistema. O problema, então como agora, é que o nível de exigência sobe quando o adversário também sobe. Cabo Verde, estreante no Mundial, pode não ser o teste definitivo para Muñoz.

E aí está a questão central desta estreia.

Cabo Verde como termômetro e o que vem depois

A seleção do arquipélago atlântico chega ao seu primeiro Mundial com uma história notável: liderou o Grupo D das Eliminatórias Africanas com 23 pontos, deixando para trás seleções tradicionais como Camarões. O técnico Pedro Leitão Brito, conhecido como Bubista, escala um time organizado: Vózinha; Diney Borges, Logan Costa, Pico, Steven Moreira; Lenini, Deroy Duarte; Jovane Cabral, Jamiro, Ryan Mendes; Livramento. Chegaram ao torneio invictos há três jogos, com vitórias sobre Bermuda e Sérvia e empate com a Finlândia.

O presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, deu o tom da expectativa do país em entrevista à ESPN antes da partida. Declarado apaixonado pelo futebol brasileiro —

"O Brasil é minha segunda pátria. Sou palmeirense em São Paulo, e no Rio sou Flamengo"
—, Neves resume o espírito de uma nação que chegou à Copa para celebrar, mas que não veio de turismo. A equipe eliminou Camarões nas eliminatórias. Isso não se faz por acidente.

Para a Espanha, o jogo de hoje funciona como termômetro duplo: mede a capacidade do elenco de funcionar sem Yamal e calibra o sistema antes dos confrontos mais duros do grupo, especialmente o duelo contra o Uruguai de Bielsa, no dia 26 de junho. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já se discutia o peso da ausência de Fermín López — também cortado por fratura no quinto metatarso — como fator de desequilíbrio no meio-campo espanhol. Agora, com Yamal fora, o desafio se acumula.

A Espanha volta a campo no dia 21 de junho, contra a Arábia Saudita, às 13h (horário de Brasília), em Miami. Se Yamal não se recuperar até lá, De la Fuente precisará confirmar que sua seleção tem profundidade real — não apenas potencial. O Grupo H dará a resposta antes que qualquer análise consiga antecipá-la.