Se a Copa do Mundo terminasse na fase de grupos, a Suécia teria encerrado sua participação com um saldo de gols zerado — sete marcados, sete sofridos — e uma memória agridoce de uma goleada sofrida para a Holanda que quase apagou a festa da estreia. Mas o novo formato da competição, com 48 seleções e oito vagas para os melhores terceiros colocados, deu à equipe escandinava uma segunda chance. E ela veio na forma do adversário mais difícil possível: a Copa do Mundo colocou os suecos diante da França, na terça-feira, 30 de junho, às 18h (horário de Brasília), no Estádio de Nova York/Nova Jersey, em East Rutherford.
O número que sintetiza este confronto não é o 5 da goleada sobre a Tunísia, nem o hat-trick de Ousmane Dembélé contra a Noruega. O número é 7 — os gols que a Suécia cedeu em três jogos da fase de grupos. Uma média de 2,33 por partida que, diante de um ataque francês com Kylian Mbappé, Dembélé, Désiré Doué, Bradley Barcola, Michael Olise e Rayan Cherki, soa menos como estatística e mais como convite.
Os sete gols que construíram o caminho sueco até East Rutherford
A campanha da Suécia no Grupo F foi um exercício de montanha-russa emocional. Na estreia, a seleção comandada por Jon Dahl Tomasson atropelou a Tunísia por 5 a 1, com Alexander Isak e Viktor Gyökeres dividindo os holofotes ofensivos. O resultado criou uma ilusão de solidez que a segunda rodada tratou de desfazer com brutalidade: a Holanda aplicou exatamente o mesmo placar, 5 a 1, e expôs com clareza cirúrgica as fragilidades da linha defensiva sueca. O time não conseguiu acompanhar a velocidade dos holandeses, abriu espaços entre os setores e ficou sem resposta depois de sair atrás no marcador.
Na terceira rodada, o empate por 1 a 1 com o Japão — com Anthony Elanga marcando o gol sueco — foi suficiente para manter a equipe viva pelo critério dos melhores terceiros colocados. Mas o resultado também revelou uma seleção que oscila conforme o nível do adversário: brilha quando encontra espaço, vacila quando pressionada. Segundo o técnico Tomasson, em declaração ao canal oficial da Fifa,
"Sabemos que temos qualidade para competir com qualquer seleção. Mas precisamos ser mais consistentes defensivamente se quisermos avançar nesta Copa."
Gyökeres, artilheiro do Sporting na temporada europeia 2025/2026, e Isak, referência no Newcastle, formam uma dupla de ataque que poucos países no mundo conseguiriam montar. O problema é que futebol não se joga só em uma direção.
A França que Deschamps construiu para não dar chances
Do outro lado da linha de campo, a França chegou às oitavas com a autoridade de quem não deixou margem para dúvidas. Três jogos, três vitórias, liderança do Grupo I com 100% de aproveitamento. Didier Deschamps, que em 1998 ergueu a taça como capitão e em 2018 repetiu o feito como técnico, montou uma equipe que combina a solidez defensiva que sempre foi marca registrada do futebol francês com uma profundidade ofensiva raramente vista em uma única seleção.
A goleada sobre a Noruega, última partida da fase de grupos, foi o mais recente cartão de visitas. Dembélé marcou três vezes e consolidou sua posição como o jogador em melhor forma do torneio até aqui. Mbappé, mesmo sem estar no seu nível máximo nas primeiras rodadas, segue sendo o jogador mais temido do planeta quando recebe a bola em velocidade — exatamente o tipo de situação que a defesa sueca criou repetidamente contra a Holanda.
"Estamos bem fisicamente e mentalmente. Sabemos que o mata-mata exige outro nível de concentração", disse Deschamps em coletiva após a vitória sobre os noruegueses.
No Brasil, há um ditado que diz que quem não tem cão caça com gato. A Suécia, sem uma defesa de elite, vai precisar caçar a classificação com o que tem de melhor: a capacidade de Isak e Gyökeres de criar perigo mesmo com poucos recursos. A questão é se isso será suficiente contra uma seleção que não cedeu um único gol nos três jogos da fase de grupos.
O que, afinal, pode mudar o roteiro que os números já escreveram?
O duelo de sistemas que vai definir o jogo em East Rutherford
Tomasson deve apostar em um bloco médio-baixo, tentando compactar os espaços e apostar nos contra-ataques protagonizados por Isak e Gyökeres. A estratégia faz sentido no papel: a Suécia tem dois centroavantes de nível europeu altíssimo, e qualquer descuido defensivo francês pode ser punido. O problema é que Deschamps raramente comete descuidos. A linha defensiva francesa, com Dayot Upamecano e Ibrahima Konaté no miolo, é das mais robustas do torneio.
O confronto de estilos projeta um jogo de paciência nos primeiros 45 minutos, com a França controlando a posse e a Suécia esperando o momento certo para acelerar. Elanga, que ganhou protagonismo ao marcar contra o Japão, deve ser o principal mecanismo de transição sueco — sua velocidade pelas beiradas é o tipo de recurso que pode incomodar qualquer defesa em dias de menor concentração.
Mas a história recente da Copa já mostrou o que acontece quando a Suécia enfrenta seleções que pressionam alto e exploram os espaços entre seus setores. A Holanda fez isso em 90 minutos. A França tem jogadores tecnicamente superiores para fazer o mesmo — e com mais variações táticas. Deschamps tem à disposição seis atacantes de nível mundial, o que significa que mesmo que Mbappé seja anulado, Dembélé, Barcola ou Olise podem assumir o protagonismo sem que o sistema perca coerência.
A bola rola na terça-feira, 30 de junho, às 18h (horário de Brasília), no Estádio de Nova York/Nova Jersey. O vencedor avança às quartas de final e enfrenta o classificado do confronto entre Espanha e Marrocos, marcado para o mesmo dia. Para a Suécia, trata-se de provar que os 7 gols sofridos foram anomalia. Para a França, de confirmar que os 7 gols cedidos pelos suecos são o mapa do caminho.










