Um pêndulo que oscila entre solidez defensiva e dependência criativa de dois indivíduos. Assim funciona a Inglaterra de Thomas Tuchel nesta Copa do Mundo de 2026.

A metáfora precisa ser explicada, porque o desempenho inglês na fase de grupos não se sustenta apenas pela leitura dos resultados. A seleção encerrou o Grupo L com 7 pontos — uma vitória sobre Croácia, empate sem gols com Gana e triunfo por 2 a 0 sobre o Panamá —, mas o que se viu em campo revelou um time que ainda não encontrou consistência coletiva. No MetLife Stadium, em Nova Jersey, o Panamá fechou os espaços por 45 minutos e só cedeu quando Jude Bellingham, aos 16 minutos da etapa final, aproveitou cobrança de escanteio para abrir o placar. Cinco minutos depois, Harry Kane completou de cabeça após assistência do próprio Bellingham e chegou a 11 gols em Copas do Mundo, superando Gary Lineker (10) como maior artilheiro inglês da história em Mundiais.

NEYMAR FAZ A FESTA DOS FÃS EM HOUSTON | #shorts | Copa do Mundo 2026 | ge.globo

O vestiário inglês entre a confiança declarada e a realidade do campo

Tuchel foi direto na saída de campo em Nova Jersey. "O torneio recomeça agora com a fase de mata-mata. Vamos elevar nosso nível. Quanto maiores forem os jogos, maiores nós seremos", afirmou o técnico alemão. A frase tem leitura dupla: é declaração de intenção, mas também reconhece, implicitamente, que o nível apresentado até aqui não foi suficiente para impressionar. O próprio treinador admitiu que "ainda há muito a evoluir" e que a equipe "teve que tomar cuidado com os contra-ataques" mesmo diante de um Panamá que encerrou a fase de grupos sem marcar um único gol.

Do ponto de vista tático, a Inglaterra operou com bloco médio, saída de bola pelo lado direito com Bukayo Saka, e uma dependência clara de Bellingham como elemento de ligação entre meio e ataque. O meia do Real Madrid foi o jogador que mais tocou na bola nas zonas de decisão nas três partidas. Quando ele não apareceu com frequência, como no primeiro tempo contra o Panamá, a equipe produziu muito pouco. Esse tipo de concentração de criatividade em um único jogador representa um vetor de risco considerável no mata-mata, onde adversários têm tempo para preparar marcações específicas.

A Croácia, que terminou em segundo no Grupo L com 5 pontos após vencer Gana por 2 a 1 na Filadélfia — gols de Petar Sucic e Nikola Vlasic, com Luckassen descontando —, migrou para outro lado da chave. Isso significa que o eventual caminho inglês até a semifinal passa por um possível confronto com o Brasil nas quartas de final, caso ambas as seleções avancem das oitavas.

O Brasil no mesmo lado da chave e a memória de Shizuoka em 2002

A última vez que Brasil e Inglaterra se encontraram numa Copa do Mundo foi em 21 de junho de 2002, no Shizuoka Stadium Ecopa, nas quartas de final do Mundial do Japão e Coreia do Sul. O Brasil venceu por 2 a 1, com gols de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho — este último com um gol de falta de fora da área que ainda hoje é tema de análise em cursos de futebol. Michael Owen havia empatado para os ingleses no início do segundo tempo, mas a equipe de Luiz Felipe Scolari soube administrar a pressão e avançou à semifinal. A derrota inglesa naquela edição encerrou a participação de David Beckham, Michael Owen e Rio Ferdinand em sua Copa mais promissora.

Vinte e quatro anos depois, o contexto estrutural das duas seleções é radicalmente diferente. A Premier League, segundo dados da Deloitte Football Money League de 2025, movimentou 7,1 bilhões de libras em receitas na temporada 2024/2025, o que reflete diretamente no padrão de investimento em infraestrutura de base e na remuneração de comissões técnicas de alto nível — incluindo a contratação de Tuchel, que assinou com a Federação Inglesa de Futebol (FA) em janeiro de 2024. O modelo inglês de formação produz jogadores tecnicamente qualificados e fisicamente robustos, mas a seleção ainda carrega o peso histórico de uma expectativa que raramente se traduz em conquistas: o único título mundial inglês data de 1966.

O Brasil, líder do Grupo C, chega ao mata-mata com uma proposta tática distinta, construída em torno de maior verticalidade e pressão alta. A possível confluência nas quartas não está garantida — ambas as seleções precisam superar as oitavas de final —, mas o desenho da chave já coloca o confronto no horizonte de qualquer análise séria sobre o torneio, como apurado em matéria do SportNavo ao longo desta fase de grupos.

A mesa de decisão que Tuchel ainda não resolveu

Há uma questão estrutural que Tuchel precisará responder antes de uma eventual quartas de final: como a Inglaterra se comporta quando o adversário tem qualidade técnica equivalente à sua e não recua para defender. Panamá e Gana, por razões distintas, não representaram esse tipo de desafio. O Panamá foi construído sobre disciplina tática e ausência de risco; Gana apostou em transições rápidas, mas sem profundidade técnica para sustentar pressão contínua.

Contra o Brasil — se o confronto se concretizar —, a Inglaterra enfrentaria uma equipe capaz de trocar a iniciativa do jogo, criar superioridades posicionais no meio-campo e explorar os espaços deixados pela linha defensiva inglesa em transições. A dependência de Bellingham como elemento criativo central seria testada de forma mais exigente do que em qualquer jogo da fase de grupos. Kane, com 11 gols em Copas, é um referencial consistente na área, mas suas participações fora do último terço são limitadas — o que significa que a Inglaterra precisaria alimentá-lo com volume de cruzamentos e bolas aéreas, uma estratégia que o Brasil, com laterais de perfil ofensivo, tende a neutralizar com marcação por dentro.

A Croácia, ao vencer Gana e garantir a segunda colocação do Grupo L, saiu do caminho direto do Brasil — mas não eliminou o cenário de um duelo com os ingleses em estágio avançado. Luka Modric, em sua última Copa do Mundo aos 40 anos, ainda demonstrou qualidade técnica suficiente para influenciar partidas decisivas: foi dele o escanteio preciso que encontrou Vlasic para o gol da virada sobre Gana, aos 37 minutos do segundo tempo.

A Inglaterra estreia no mata-mata na quarta-feira, dia 1º de julho, às 13h de Brasília, contra um dos melhores terceiros colocados da fase de grupos. O Brasil joga suas oitavas na mesma data, e a confirmação do confronto entre as duas seleções nas quartas depende dos resultados desta semana. Se ambas avançarem, o duelo está previsto para o dia 5 de julho — data em que saberemos se o relógio inglês finalmente acerta o passo.