Falhou. Pela terceira Copa do Mundo consecutiva, a Itália não estará em campo no maior torneio do planeta — e desta vez a conta chegou acompanhada de renúncias, demissões e um silêncio institucional que o Calciopoli de 2006 já havia ensaiado. A derrota nos pênaltis para a Bósnia e Herzegovina, em abril de 2026, não foi apenas um resultado ruim: foi o colapso anunciado de um ciclo que começou sem base e terminou sem destino.
Gravina vai, Gattuso vai, e o problema fica
O presidente da FIGC, Gabriele Gravina, que comandava a federação desde 2018 — ironicamente o mesmo ano da primeira eliminação nas repescagens —, renunciou na quinta-feira, 2 de maio, sob pressão direta do governo italiano. Dias antes, em 3 de maio, o técnico Gennaro Gattuso, 48 anos, campeão do mundo em 2006 como jogador, havia formalizado sua saída em comunicado que misturava dignidade e frustração.
"Com o coração pesado por não ter conseguido atingir a meta que nos propusemos, considero que meu tempo no comando da seleção nacional chegou ao fim", escreveu Gattuso. "Foi uma honra liderar a seleção nacional e fazê-lo com um grupo de rapazes que demonstraram comprometimento e lealdade à camisa."
Gattuso havia sido contratado em junho de 2025, com contrato de apenas um ano, para substituir Luciano Spalletti — demitido após a goleada de 3 a 0 sofrida diante da Noruega na fase de grupos das eliminatórias. A Itália venceu os cinco jogos seguintes sob Gattuso, mas o saldo de gols inferior à Noruega a empurrou para a repescagem. Lá, bateu a Irlanda do Norte por 2 a 0 na semifinal e jogou fora uma vantagem de 1 a 0 na final — com 10 jogadores — para cair nos pênaltis. Não há tragédia: há contabilidade.
A queda livre desde o tetracampeonato e o peso do Calciopoli
Para entender 2026, é preciso voltar a 2006. O tetracampeonato no Mundial da Alemanha foi o pico — e também o início do declínio estrutural. No mesmo ano, estourou o Calciopoli, escândalo de manipulação de resultados que envolveu Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio. A Juventus foi rebaixada à Série B, perdeu Ibrahimović (que foi para a Inter), Cannavaro (Real Madrid) e Thuram (Barcelona). Buffon e Del Piero jogaram a segunda divisão italiana. O Calciopoli não roubou apenas pontos — roubou uma geração de talentos.
O futebol italiano havia produzido 15 vencedores da Bola de Ouro em 25 anos: Platini, Van Basten, Baggio, Ronaldo, Zidane, Shevchenko e Kaká (em 2007, o último). Desde então, a Serie A não revelou mais nenhum. A liga perdeu protagonismo na formação de craques — e a seleção pagou o preço: eliminação na fase de grupos em 2010 e 2014, e três repescagens perdidas em sequência, nas edições de 2018, 2022 e agora 2026. A última participação italiana num Mundial foi no Brasil, há doze anos.
Samuele Inacio e a aposta nos 20 anos que já falhou antes
Com a federação sem presidente e sem técnico fixo, o interino Silvio Baldini — treinador da equipe sub-21 — convocou a Azzurra para amistosos contra Luxemburgo (3 de junho) e Grécia (7 de junho). O grupo tem média de 20 anos e seis meses e apresenta como principal novidade o meia-atacante Samuele Inacio, 18 anos, joia das categorias de base do Borussia Dortmund. Nascido em Bérgamo, Inacio é filho do ex-jogador brasileiro João Batista Inácio, o Piá, que construiu carreira no futebol italiano — uma história que une dois países com relação histórica profunda com o esporte.

Dos nomes com alguma experiência na Azzurra, restaram apenas cinco: o goleiro Gianluigi Donnarumma (Manchester City), o zagueiro Pietro Comuzzo, o lateral-direito Marco Palestra, o volante Niccolò Pisilli e o atacante Pio Esposito. O capitão Donnarumma, inclusive, revelou ter chorado após a eliminação — sinal de que nem os veteranos estavam preparados para mais um fracasso.
O problema com esse modelo de renovação radical é que ele já foi testado. Em 2018, após a primeira eliminação nas repescagens, a federação também apostou numa reformulação com jovens. O resultado foi a mesma ausência em 2022. A pergunta que a torcida italiana — e qualquer analista honesto — precisa fazer não é se os garotos têm talento, mas se há estrutura de formação, projeto técnico de médio prazo e estabilidade institucional para sustentá-los. Com a FIGC sem presidente, sem técnico titular e com um governo que interfere diretamente nas decisões da entidade, a resposta, por ora, é não.
- 2018 — Primeira eliminação na repescagem; renovação com jovens anunciada
- 2022 — Segunda eliminação na repescagem; Spalletti nomeado para reconstruir
- 2026 — Terceira eliminação; Gravina renuncia, Gattuso demitido, nova renovação com média de 20 anos
A convocação de Baldini para junho serve menos como solução e mais como janela de observação. A FIGC precisa nomear um técnico efetivo antes do início das eliminatórias para a Copa de 2030 — e desta vez com contrato longo o suficiente para que o projeto sobreviva a uma derrota. Gattuso teve nove meses. Spalletti foi demitido após um único jogo. Nenhum projeto de renovação sobrevive a esse nível de impaciência institucional, independentemente da média de idade dos convocados.










