É um relógio suíço com pavio curto. A imagem serve bem para descrever a arquitetura da Copa do Mundo 2026, construída ao longo de oito anos com promessas de neutralidade e acolhimento universal — e que, nos dias que antecederam a abertura, começou a mostrar rachaduras profundas em sua estrutura institucional. Três episódios, ocorridos em menos de uma semana, revelam que as barreiras de imigração dos Estados Unidos estão redesenhando a logística do maior torneio de futebol do planeta.

O árbitro com passaporte diplomático que não passou pela porta

Omar Abdulkadir Artan, 32 anos, eleito o melhor árbitro da África em 2025, tinha tudo em ordem: convocação oficial da Fifa, passaporte diplomático somali e credencial para apitar jogos na Copa. Chegou ao Aeroporto de Miami. Não entrou. O governo dos EUA negou seu visto sem apresentar justificativa pública, e a Fifa, em comunicado divulgado nesta terça-feira (9), confirmou que o árbitro não apitará o torneio, declarando que a entidade "não interfere nos procedimentos de imigração do país anfitrião, incluindo a concessão de vistos".

A nota da Fifa, ao mesmo tempo em que encerrou a participação de Artan, expôs a postura de omissão da entidade. O detalhe operacional que agrava a situação: todos os árbitros do Mundial estão sediados na Flórida, o que impediu Artan de ser redirecionado para o Canadá ou o México, os outros dois países-sede. Uma falha de contingência que a Fifa não previu — ou preferiu não resolver.

O árbitro com passaporte diplomático que não passou pela porta Como a política d
O árbitro com passaporte diplomático que não passou pela porta Como a política d

O governo da Somália emitiu comunicado exigindo "explicação clara" dos EUA por via diplomática, classificando a situação como "lamentável" e destacando que Artan sempre representou o esporte somali com "profissionalismo". O próprio árbitro se pronunciou com equilíbrio desconcertante:

"Apesar das circunstâncias, mantenho uma atitude positiva e estou centrado nos próximos desafios da minha carreira como árbitro."

Ingressos iranianos cancelados e a seleção do Uzbequistão sob revista

Se o caso Artan representa um dano individual, o cancelamento dos ingressos iranianos tem escala coletiva. A Federação de Futebol do Irã (FFIRI) informou nesta terça-feira que sua cota oficial de bilhetes — correspondente a 8% dos ingressos de cada partida, direito assegurado a todas as federações participantes — foi revogada pelos EUA às vésperas do torneio. Torcedores que haviam feito reservas de voos e hotéis, confiando no processo oficialmente anunciado, ficaram sem ingresso e sem alternativa.

A FFIRI não identificou o responsável pela decisão, mas foi direta no diagnóstico:

"Esse desdobramento levanta sérias questões sobre a interferência de considerações não esportivas e políticas na organização do maior evento de futebol do mundo."
O contexto é inseparável do ataque militar conjunto lançado por EUA e Israel contra o Irã em fevereiro deste ano — evento que já havia forçado a federação iraniana a transferir seu campo de treinamento do Arizona para o México. A Fifa respondeu dizendo que "está trabalhando em estreita colaboração com a Federação Iraniana para identificar soluções", sem prazo ou detalhe concreto.

O terceiro episódio tem outro sabor, mas integra o mesmo padrão. A seleção do Uzbequistão, ao chegar ao Icahn Stadium, em Nova York, para o amistoso contra a Holanda, foi submetida a revista individual com detectores de metais, inspeção de bagagens e uso de cães farejadores. O técnico Fabio Cannavaro não escondeu o incômodo:

"Eles me disseram que eram as regras, mas, no fim, a checagem de segurança foi só com a gente. Você vai ter que perguntar para eles."
As autoridades americanas atribuíram a revista à presença de Donald Trump no evento — ele assistia ao Jogo 3 das finais da NBA entre New York Knicks e San Antonio Spurs no mesmo complexo. O atacante Igor Sergeev, autor do gol uzbeque, foi mais diplomático: "É a primeira vez que acontece comigo, vir para o jogo e checarem a minha mala. Mas ok, se é normal nos Estados Unidos, ok."

A distância entre o discurso de Infantino e o que acontece no aeroporto

Em 2017, durante a campanha de candidatura, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi categórico: "Qualquer time, incluindo os torcedores e oficiais desse time que se classificar para uma Copa do Mundo, precisa ter acesso ao país, caso contrário, não há Copa do Mundo." A diferença entre essa promessa e os fatos desta semana é da mesma ordem de grandeza que a distância entre Manaus e Salvador — longa o suficiente para que ninguém possa fingir que é um equívoco pontual.

A relação entre Infantino e Trump tem sido documentada em cerimônias públicas: a Fifa alugou escritório na Trump Tower, o dirigente quebrou protocolo ao permitir que o presidente americano tocasse na taça do Mundial, e concedeu a Trump um "Prêmio da Paz" da entidade em dezembro de 2025 — meses antes dos ataques ao Irã que desencadearam o conflito regional que hoje contamina a Copa. O padrão de não interferência da Fifa nos procedimentos de imigração americanos, portanto, não é uma postura técnica. É uma escolha política.

Para as seleções que ainda jogarão nos EUA, a questão logística é concreta e urgente. O Uzbequistão, por exemplo, faz sua estreia na Copa contra a Colômbia em 17 de junho, no México, mas disputará dois jogos seguintes em solo americano — contra Portugal em 23 de junho e contra a RD Congo em 27 de junho. A delegação já passou pela revista em amistoso. Sabe o que pode esperar. As demais seleções com delegações oriundas de países em tensão diplomática com Washington estão, a partir de agora, gerenciando um risco que não constava em nenhum manual de preparação para Copa do Mundo.