É um tabuleiro de xadrez montado sobre um vulcão.
A imagem vale pelo que ela esconde: a Champions League demorou décadas para afinar o formato que hoje seduz bilhões de espectadores, e a Uefa decidiu agora exportar essa lógica para o futebol de seleções. A partir de 2028, as Eliminatórias europeias para a Copa do Mundo e a Liga das Nações funcionarão segundo um modelo inédito — mais enxuto, mais seletivo e, segundo o presidente Aleksander Čeferin, mais justo.
O que a Uefa decidiu nos bastidores de Nyon
A decisão foi anunciada oficialmente pela Uefa e representa a maior reformulação do calendário de seleções europeias desde a criação da própria Liga das Nações, em 2018. Naquele primeiro ciclo, 55 seleções foram distribuídas em quatro ligas — A, B, C e D —, com sistemas de promoção e rebaixamento que reproduziam a lógica das ligas domésticas. O experimento funcionou para dar competitividade às partidas das ligas superiores, mas a Liga D nunca conseguiu gerar interesse real: confrontos entre seleções do ranking 45 a 55 da Uefa dificilmente mobilizam torcedores, redes de televisão ou patrocinadores.
A solução encontrada é cirúrgica: extinguir a Liga D. As 55 seleções filiadas passarão a ser distribuídas em apenas três divisões. As Ligas A e B terão cada uma três grupos de seis equipes. A Liga C, destinada às seleções de menor expressão, terá duas chaves de seis participantes e uma de sete. Cada seleção disputará seis partidas na fase de grupos — sem confrontos de ida e volta contra o mesmo adversário.
"Os novos formatos irão melhorar o equilíbrio competitivo, reduzir o número de jogos sem importância, oferecer uma competição mais atrativa e dinâmica para os torcedores, garantindo ao mesmo tempo uma hipótese justa de classificação para todas as equipes e sem acrescentar datas extra ao calendário internacional." — Aleksander Čeferin, presidente da Uefa
A promessa de Čeferin de não aumentar o número de datas FIFA é o ponto politicamente mais sensível da reforma. Clubes como Real Madrid, Manchester City e Bayern de Munique pressionam há anos contra a inflação do calendário. A Uefa sabe que qualquer acréscimo de janelas internacionais geraria resistência imediata das ligas domésticas — e, nesse jogo de forças, a entidade optou por remodelar sem expandir.
A Liga 1 e o espelho da Champions nas eliminatórias
A mudança mais estrutural, no entanto, está nas próprias Eliminatórias para a Copa do Mundo. As 36 principais seleções do continente formarão a chamada Liga 1, dividida em três grupos de 12 equipes cada. O mecanismo de confrontos seguirá exatamente o modelo adotado na fase de liga da Champions League reformulada em 2024: cada seleção enfrentará seis adversários distintos, dois por pote de ranking, sem repetir o mesmo rival em jogo de volta.
O modelo da Champions 2024/25 serve como laboratório. Naquela edição inaugural, 36 clubes disputaram oito partidas cada na fase inicial — um número ligeiramente superior ao das eliminatórias, o que mostra que a Uefa calibrou o volume de jogos para baixo no contexto de seleções. Os líderes de cada grupo nas novas Eliminatórias garantirão vaga direta na Copa do Mundo. As demais vagas europeias serão definidas em repescagem, formato que a Uefa já utilizou nas edições de 2018 e 2022 com resultados dramáticos: a Itália, tetracampeã mundial, ficou fora da Copa de 2018 exatamente numa repescagem contra a Suécia.
Historicamente, o caminho europeu para o Mundial sempre foi dominado pelas grandes seleções. Na edição das Eliminatórias para 2022, a Alemanha venceu seu grupo com 27 pontos em 10 jogos — aproveitamento de 90%. A Espanha, na mesma edição, acumulou 19 pontos mas ainda precisou de play-off após ficar atrás da Suécia. O novo formato reduz o número de partidas por grupo, o que matematicamente diminui a margem de recuperação para quem tropeça cedo — e aumenta a pressão sobre cada jogo individual.
O que os números da história dizem sobre reformas de formato
Reformas estruturais em competições de seleções raramente são neutras. A Copa do Mundo de 1982 expandiu de 16 para 24 equipes e introduziu uma segunda fase de grupos que foi amplamente criticada por gerar empates combinados — o infame 1 a 0 entre Alemanha e Áustria, em Gijón, que classificou ambas às custas da Argélia. Em 1986, a FIFA manteve os 24 participantes mas introduziu os terceiros colocados classificáveis, e em 1998 chegou-se aos 32. Cada mudança de formato alterou padrões de jogo, estratégias de classificação e, sobretudo, a distribuição de poder entre seleções.
No contexto europeu, a Liga das Nações criada em 2018 substituiu os amistosos sem sentido por partidas com consequências diretas. O dado mais revelador: nas duas primeiras edições, o número médio de gols por partida na Liga A foi de 2,7 — superior à média histórica das Eliminatórias europeias, que gira em torno de 2,3 gols por jogo. Jogos com algo a perder produzem futebol mais intenso. A Uefa aprendeu essa lição e quer replicá-la em escala maior.
A extinção da Liga D remove do calendário oficial confrontos que jamais geraram audiência relevante. Para ter uma referência: a partida entre San Marino e Gibraltar, válida pela Liga D de 2020, registrou menos de 200 espectadores no estádio. Não há tragédia nessa exclusão — há contabilidade. A Uefa precisa de um produto televisivo vendável em todos os grupos, e a Liga D nunca foi isso.
O novo modelo entra em vigor no ciclo 2028-2030, que alimentará as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030 — edição especial com jogos no Marrocos, Espanha, Portugal e Argentina, Uruguai e Paraguai como sedes do centenário. As 55 federações europeias terão até o Congresso da Uefa de setembro de 2026 para aprovar formalmente os regulamentos detalhados da reforma. É nesse momento que saberemos os critérios exatos de distribuição das seleções entre as três ligas — e se gigantes como Turquia, Áustria e Hungria, que transitam entre o segundo e terceiro escalão, ganharão ou perderão com o novo desenho.








